sábado, 7 de maio de 2011

Ditadura Militar no Brasil (1964 - 85)


Cap. 1 - Questões internas



- Como vamos começar o trabalho? - perguntou Bia juntando suas folhas.


- Humm, acho que com uma introdução de como a Ditadura teve início. - Júlia disse.


- Tá, pode ser. Você fala e eu anoto. - sorriu.


- Você não sabe como começar não é Bia? - Júlia lançou um olhar de total rejeição para Bia. - Muito bem.. Essa história toda começa quando Jânio renuncia e Jango assume o poder. Como Jango era populista e de esquerda, preocupava aos conservadores brasileiros, como a elite, a igreja, etc; que o presidente fizesse alguma coisa muito drástica. Por isso, já indignados com as propostas de Jango, como as de reformas de base, os conservadores organizaram uma manifestação chamada "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", contra Jango. O governo de Jango se encontrava em um momento tenso e crítico, e no dia 31 de março, tudo isso explodiu. Quando as tropas de Minas e de São Paulo foram para as ruas, Jango saiu do país para evitar uma guerra e isso fez com que os militares assumissem o poder.


- Tá. Então foi isso que gerou o início da Ditadura.


- É. Você pediu pro senhor Sergio contar sobre a ditadura? - perguntou Júlia.


- Aham. Eu filmei tudinho. Toma. - Bia entregou um DVD para Júlia. Elas colocaram a gravação para rodar [...]



- Pronto! Já está gravando. - Bia se sentou no sofá que estava em frente à poltrona em que Sergio estava sentado. - Pode começar.


- Tudo bem... - começou Sergio. Ele tinha a voz rouca e desgastada, o que provava que já a tinha usado muito, e que também era bem velho. Além disso, Sergio era cego de um olho. - Eu nasci em 1943. No ano de 1964, quando a ditadura começou, eu tinha 19 anos. O primeiro militar a assumir o poder foi.. O Castelo Branco.


"A data em que os militares chegaram ao poder é dita como dia 31 de março. Mas eu me lembro.. Eu me lembro que nesse dia, as pessoas ainda estavam caminhando sobre a tênue linha que decidiria seus destinos. E eu me lembro, que foi somente no dia 1º de abril, que essa linha foi cortada.


Para a classe média, aquele foi um dia de festa. Pessoas se abraçavam, choravam e bebiam nos bares, comemorando aliviadas o "fim da desordem".


Mas as pessoas simples, trabalhadores que suavam a camisa para conseguir o pão de cada dia.. Esses estavam com medo. Medo pelo que teriam de encarar dali para frente. E meus pais eram um deles..


Naquele tempo de ditadura, os militares eram diferenciados entre Linha Dura e Linha Moderada. Castelo foi um dos considerados linha moderada. Durante o governo dele, ocorreram várias cassações políticas. Os soldados prendiam milhares de pessoas, dentre elas; intelectuais, professores, alunos, jornalistas e até mesmo ex-presidentes como JK e Jango. Outra figura muito importante na época que foi cassada foi Luíz Carlos Prestes e claro, todos os comunistas. A ordem era silenciar toda e qualquer oposição ao regime militar. Tudo isso, com o total apoio das classes conservadores, inclusive da Igreja.


Com a ditadura, veio também a necessidade de criar novos meios de comandar o país. E isso gerou o nascimento dos Atos Institucionais. O primeiro deles, o AI-1 pôs um fim nas eleições para Presidência e para Governadores, tornando-as indiretas; além disso houve o fim das eleições para prefeitos de cidades estratégicas, porque assim ficava mais fácil para os militares controlarem essas cidades mais importantes, o poder de fechar a qualquer momento que o Congresso Nacional e o fim do pluripartidarismo."


- O fim do pluripartidarismo seria... - Bia interrompeu.


- Depois que os militares tinham feito as cassações políticas de "limpeza", só dois partidos, vamos dizer assim, restaram. Um deles era a ARENA e o outro o MDB, que era um tipo de oposição permitida. Ou seja, eles não representavam nenhum tipo de perigo para os militares.


- Ahhh, entendi. Ok, pode continuar. - Bia afirmou.


- Certo.. Também existiam as censuras. Censuras eram o meio que a ditadura tinha de filtrar as coisas que queriam falar mal dela. Tudo que pudesse difamar o governo de alguma forma, era censurado na hora. Mas, ainda no governo de Castelo, essa censura era mais branda e amadora. Depois, ela fica bem pior...


"Quando não era mais interessante que Médici, um linha moderada, ficasse no poder, ele foi retirado e em seu lugar entrou Costa e Silva, que era um linha dura.


No governo de Costa e Silva, a violência cresceu e consequentemente as prisões, torturas e mortes também se tornaram mais frequentes. Uma das maiores atrocidades cometida durante o governo dele, foi o caso do Édson Luís..


Eu estava lá naquele dia. Estávamos todos comendo calmamente no Calabouço, um restaurante frequentado por estudantes, quando os militares entraram. Estavam fazendo uma procura por, comunistas e pessoas suspeitas. Todos eles estavam armados e nos mandaram fazer silêncio. Claro que o pânico tomou conta do ambiente. Édson Luís era um estudante, assim como eu e meus amigos. Eu sabia dizer que o garoto era novo ali, porque a maioria dos rostos que vemos todos os dias, guardamos. O dele não, o dele era novidade. E foi justo com ele que aconteceu: No momento em que os militares entraram, Édson Luís se assustou e deu um pulo pra se levantar. Quando ele se levantou, um dos militares, que parecia tenso e despreparado, se assustou também..." - Os olhos de Sergio adquiriram um brilho diferente. Uma tristeza que não podia ser definida. Aquela, era a tristeza de uma pessoa que tinha presenciado uma morte inesperada. Naquela época, matar um jovem não era comum. Era algo berrante. - E quando o soldado se assustou.. Ele atirou no garoto, o Édson Luís...


- .... - Bia ficou alguns segundos em silêncio - E... O que aconteceu.. Depois..? - Ela perguntou incentivando Sergio a falar já que parecia que ele estava preso as lembranças do passado.


- Todos ficaram paralizados. Ninguém teve uma reação. Nem nós, nem os militares. Estávamos surpresos e espantados demais por termos visto o assassinato de um jovem completamente inocente. - O brilho nos olhos de Sergio mudaram de triste para indignados e raivosos - Mas nós protestamos. Nós fizemos o possível para que a morte daquele garoto, fosse reconhecida como um absurdo. E que os militares entendessem que isso tinha que parar.


"Mas... reação gera reação. Na missa do 7º dia na catedral da Candelária, os militares tiveram sua vingança. No meio da missa, começou a se ouvir o andar de cavalos. Muitos cavalos. E depois mais um barulho aqui e ali, cada vez mais perto da Candelária. Nisso, o padre interrompeu a missa e pediu para que todos se retirassem com calma porque o óbvio estava provado: eles estavam cercados. Quando o padre saiu, seguido de várias outras pessoas, ele percebeu que não tinha escapatória. A saída tinha sido fechada num caminho em V e as pessoas só conseguiriam passar por ali. A cada grupo de pessoas que saíam, um grupo de militares ia lá para puni-los. E nisso valia tudo. Chutes, pisões, pedradas, tiros.. Tudo. Foi uma confusão terrível. Eu não estava lá naquele dia, mas eu soube apenas pelas histórias e comentários de uns amigos, e pelo cadáver de outros...


E de novo, reação gera reação. Se os militares foram mais violentos, os jovens também responderiam com mais violência ainda. E foi o que fizemos. No episódio que ficou conhecido como Sangrento, estudantes fizeram uma manifestação que terminou com muitas mortes, feridos, presos e viaturas da polícia incendiadas.


Depois de tanta confusão por causa desse episódio, os militares acabaram permitindo que os estudantes fizessem uma manifestação. Essa manifestação foi chamada de Passeata dos Cem Mil por ter sido uma das maiores manifestações da história brasileira. A passeata foi organizada pela UNE, mas contou também com diferentes tipos de pessoas como artistas, intelectuais, etc.


Os militares estavam numa situação crítica e se aquilo continuasse, eles iam acabar perdendo o controle da situação. Se é que eles ainda tinham algum.


Mas nem mesmo com todas essas manifestações e insatisfações populares, os militares pararam. Pelo contrário, eles só ficaram ainda piores. As passeatas e os jovens "desordeiros" seriam silenciados diretamente com as armas de fogo. Não importava o quanto fosse tenebroso ou quantas mortes fossem ser causadas, o importante era, mais uma vez, silenciar toda e qualquer oposição.


Mas os militares precisavam de uma desculpa para lançar sua cartada final. E para isso, utilizaram o caso do discurso de um deputado do MDB, que recomendou que as mulheres não namorassem, casassem ou sequer se relacionassem com militares que estavam envolvidos com as atrocidades da ditadura.


Tendo o caso como pretexto, no dia 13 de dezembro de 1968, que por sinal era uma sexta-feira, o Ato Institucional nº 5, o AI-5, saiu. Ele foi um dos piores métodos de repressão já lançados. Com o AI-5, o militar que estivesse no poder poderia fazer quase qualquer coisa que quisesse, na hora que quisesse. Dentre as várias outras coisas, o AI-5 trouxe consigo: O fim do habeas corpus, suspensão dos direitos e liberdades individuais, poder de invadir casas e prender pessoas sem ter mandatos, a pena de morte, etc.


Quando Costa e Silva saiu do poder por causa de toda a crise política gerada por seu governo, Médici, outro linha dura, assume.


Se a ditadura já era ruim antes, imagina isso em dobro agora.”


- Pôôô! Em dobro?! - Bia se espantou - Tem coisa pior do que o que já aconteceu??


- As pessoas achavam que não, que tudo aquilo já tinha sido demais. Mas os militares conseguiram achar uma forma de piorar. E no caso de Médici foi o que aconteceu. Ele usou muito o AI-5, o que fez da vida das pessoas um caos total. Além disso, as censuras, antes amadoras e brandas, agora eram mais profissionais, qualificadas e claro, mais insuportáveis.


“Com isso, os intelectuais, artistas e outras pessoas contra a ditadura, tiveram que qualificar ainda mais os seus métodos de 'bater na ditadura'. As metáforas se tornaram mais complexas e o duplo sentido das coisas, mais escondido.


A partir daí também começaram algumas medidas para distrair o povo e desviar a atenção da ditadura, para o entretenimento. A Copa do mundo de 70 foi um exemplo disso. Uma das melhores seleções. Quando o Brasil ganhou a copa, a euforia foi grande.


Outra coisa que fez relativo sucesso naquela época e que servia como meio para alienar as pessoas, eram as músicas produzidas pela jovem guarda. Inclusive, tiveram grupos de pessoas que tentaram combater a alienação que essas músicas proporcionavam.


Além disso, também se criou a pornochanchada que descobriu alguns atores e atrizes que estão na fama desde aquele tempo. A pornochanchada também era outro modo de desviar a atenção do povo e aliená-los.


Apesar disso a resistência, até por meio da luta armada, não deixava de acontecer. As pessoas sentiam a repressão. E, principalmente os jovens, lutavam contra ela.


Existiam dois grupos diferentes que lutavam contra a repressão da ditadura militar. Aqueles que pegavam em armas, e aqueles que usavam a 'Luta Cultural', dando porrada na ditadura por meio da música, da poesia, da arte, do teatro, do cinema, etc. Os festivais eram bem populares e eram onde grandes pensadores e artistas mostravam suas obras. A MPB e o Samba eram bastante usados para lutar contra a ditadura também.


Em 1974, Costa e Silva foi substituído por Geisel. Apesar de ser considerado um Linha moderada, Geisel fez uso do AI-5 e por isso, também tinha alguma coisa de linha dura.


Surpreendentemente, o MDB, começou a ganhar muitos votos e a representar um perigo para a Arena. Isso porque durante as propagandas políticas do MDB, os candidatos em vez de fazer sua propaganda política, cantavam músicas, por exemplo. Não uma música qualquer. Músicas que eram usadas na Luta Cultural. E o que começou a acontecer foi que, quem entendia, votava no MDB. Desse jeito, eles foram ganhando muito mais atenção, tanto dos eleitores, quanto da Arena.


E foi aí que Geisel intercedeu, fazendo uso do AI-5, criando a Lei Falcão. Essa lei dizia que durante as propagandas políticas, os candidatos não poderiam.. Fazer sua propaganda política. Uma foto 3x4 do candidato seria mostrada e suas propostas, seriam lidas por um locutor. Isso, claro, foi uma armação. A propaganda eleitoral se tornava chata e maçante, por isso, as pessoas paravam de prestar atenção depois de algum tempo. A armação foi: Todos os candidatos pertencentes à Arena eram colocados primeiro e só no final, quando já não tinha mais ninguém prestando atenção, mostravam-se os candidatos do MDB.


Depois da Lei Falcão, Geisel utilizou novamente o AI-5 e lançou o Pacote de Abril que determinava que a Constituição poderia ser alterada com apenas metade dos votos dos participantes do Congresso e que parte dos senadores passariam a ser escolhidos indiretamente pelas Assembléias Legislativas. Com isso, a Arena ganhou grande vantagem e já tinha sua vitória contra o MDB, garantida.


E em 1978, Geisel decretou o fim do AI-5, principal motivo pelo qual ficou conhecido como linha moderada, e o que causou um alívio geral muito grande. Se ver livre do AI-5, um dos maiores causadores de repressões e medo, era uma felicidade.


Depois do fim do AI-5 e com a saída de Geisel do poder, Figueiredo, em 1979, assumiu o governo.


Ele era linha moderada, e era um presidente muito polêmico. Eu me lembro que ele dizia que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo.."


- Que pessoa bizarra.. - comentou Bia. - E o que aconteceu durante o governo de Figueiredo?


- Ele criou a Lei da Anistia que permitia que políticos, artistas e outros brasileiros exilados, retornassem ao Brasil. Já os militares de Linha Dura continuavam querendo a repressão. E fizeram uma contra-ofensiva: lançaram uma bomba no Rio Centro e colocaram cartas-bombas em órgãos como a OAB, entre outras coisas.


“Naqueles últimos anos da ditadura, grande parte da população fez parte da campanha das 'Diretas Já!' em que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano.


Mesmo com toda a euforia, a campanha não foi aprovada e as pessoas ficaram decepcionadas.


Mesmo assim, depois da última eleição indireta, a ditadura finalmente teve um fim."


- Nossa... - Bia suspirou - Ainda bem que as coisas se ajeitaram e a ditadura acabou.


Sergio balançou a cabeça lentamente em forma de negação. - Engano seu. A ditadura pode até ter acabado, mas as coisas jamais se ajeitarão. Vão ficar pra sempre marcada nas almas daqueles que já morreram, e no corpo e coração de quem ainda vive. As cicatrizes da ditadura são tão grandes, que nada parece poder curá-las. - Sergio completou com aquele olhar distante.




Cap. 2 - Questões externas



- Caham - Júlia pigarreou - Então está bem. Só o que falta é vermos qual era a situação externa enquanto a ditadura ocorria aqui.


- Sim. Vamos lá. - Bia se levantou e pegou algumas coisas em seu caderno. As duas estavam estranhamente quietas. A ditadura nunca vai poder ser apagada da memória das pessoas. Foi um período tão tenebroso que não tem mais volta. Isso foi o que Sergio tinha dito. E isso era a verdade que ninguém conseguia não perceber.


- Aqui está Bia. - entregou um papel pra ela - Lê em voz alta.


- Durante o governo de Costa e Silva, os EUA deram um apoio consolidado à ditadura militar. Depois da ameaça de ter o país quase governado por Jango, que poderia levar o Brasil para o lado dos comunistas; era favorável para os americanos bancarem a ditadura para ter um maior controle sobre a situação. Com a Guerra Fria, os EUA não podiam arriscar perder mais algum país, principalmente os que mais chamavam a atenção dele na América, para o socialismo.


"Quando Geisel deixou o poder, os EUA já não estavam mais bancando a ditadura aqui na América. E isso foi um dos fatores determinantes para maiores crises surgirem. Naquele momento, os olhos dos americanos estavam focados no Oriente Médio, por causa do Petróleo e da crise mundial que estava acontecendo em volta dele.


Dessa forma, não só a ditadura no Brasil enfraqueceu, como também todas aquelas que estavam na América Latina e que tiveram o apoio dos EUA, retirados."


- Okay, é isso.


- Terminamos certo?! - perguntou Bia.


- Sim. Agora junta tudo e põe na mochila. Amanhã a gente entrega pro professor.


Nacional:


Era dia 1º de abril de 1964, todos os jornais anunciavam: Humberto Castelo Branco assume o governo, João Goulart perde o poder para os militares. Estava começando ali a ditadura militar. Um golpe covarde, pensei. Tomar o poder dessa maneira. Roubar covardemente o poder de um covarde. Tivessem feito isso com Getúlio, isso sim seria uma surpresa. Pouco sabia eu que esse ato de covardia ainda me surpreenderia muito.


O novo presidente diria futuramente que aquilo era apenas uma ditadura temporária, que brevemente teríamos novas eleições. Não vi o temporária da ditadura e nem o breve das eleições. A partir daquele momento se seguiriam longos 21 anos de repressão, torturas, mãos calando bocas, jovens criando novas bocas para falar. A partir daquele momento se seguiram, talvez, os 21 anos mais turbulentos da história do Brasil república.


Admito que não sabia se Castelo Branco havia mentido por mal. Não sabia nem se ele mesmo sabia do monstro que estava se criando em suas costas. Talvez Castelo Branco fosse só um boneco controlado por algo mais poderoso, assim como muitos outros que assumiriam depois dele. A verdade é que de nada sabia. Eu era apenas mais um jovem, no auge dos meus 20 anos, que nem sabia se algo mudaria. Acreditem: mudou.


O governo de Castelo Branco foi relativamente tranquilo se comparado ao que viria a seguir. Foi um dos chamados "linha moderada" da ditadura. Durou 3 anos, mais do que o próprio achava que duraria. Naquela época ainda não existia uma censura tão rigorosa, mas para não deixar nada mal entendido, enfatizo o relativo que botei antes do tranquilo. Nenhum momento da ditadura foi tranquilo, principalmente para os jovens, como eu, da UNE (união nacional dos estudantes, para os poucos conhecedores de nossa história) .


A UNE, onde jovens tinham ideias sempre saltando, onde o desejo de mudar o mundo era sempre crescente e onde aceitar não era uma palavra bem vinda, essa UNE, lutava ativamente contra a ditadura. Receber algo imposto, para nós que tínhamos acabado de conquistar a "liberdade" era completamente inadmissível. Nós lutávamos, íamos às ruas , GRITÁVAMOS, queríamos o que era nosso por direito, queríamos reinventar o nosso direito. O problema é que naquela época reinventar não era permitido. Lutar não era permitido. Naquela época, nós não éramos permitidos. Fomos perseguidos. E além de nós muitos outros foram. Uma espécie de limpeza do comunismo na política. Personalidades como JK, Jânio, Brizola e Prestes foram incansavelmente cassados.


Mas não parava por ai. Castelo Branco fez questão de ir um pouco mais além. Criou 4 atos institucionais (AIs) que introduziam o Brasil no terror que estava por vir. Esses atos declaravam o fim das eleições para presidente, governadores e prefeitos de cidades estratégicas, davam ao presidente o poder de fechar o Congresso Nacional e acabavam com o pluripartidarismo, iniciando o bipartidarismo, onde a oposição perdia todo o seu poder. De um lado estava o partido da situação, dos militares, a ARENA. Do outro estava a RIDICULA oposição consentida, o MDB.


Mas parece que Castelo Branco não estava agradando. Os militares aplicaram um golpe contra seu próprio presidente. Em 1967 Castello Branco saia do poder e entrava Costa e Silva.


Se Castelo Branco pudesse ser chamado de ruim pelo que fez seu sucessor Costa e Silva não tinha adjetivos. Era a própria encarnação do terror. Parece que Castelo Branco não estava satisfazendo com toda essa sua "bondade" (que por sinal só os militares viam). Parece que eles queriam alguém mais rigoroso. Pois bem: conseguiram, e de brinde levaram várias revoltas. Junto com a entrada de Costa e Silva, iniciava-se a "linha dura" da ditadura.


As revoltas, claro, foram 98% por culpa deles. Levando em conta que em março de 1968 um estudante foi morto sem motivo nenhum em pleno refeitório, posso afirmar que para os protestos não faltava motivo.


Esse estudante morto era Édson Luis, vindo do Nordeste para buscar melhor educação. Ele só queria oportunidades como nós tínhamos. Pouco ele sabia do que rolava aqui no Rio, de todas essas perseguições. Em um dia comum, indo almoçar, como ele iria pensar que o refeitório iria ser invadido por policiais. Nenhum de nós imaginaríamos. Édson não saberia como agir em uma situação dessas. Nunca teria nem se imaginado em uma situação dessas. Pois é, Édson não soube agir. E sua "atitude suspeita", ou talvez até falta de atitude, aliada a falta de experiência de um jovem policial, levaram à sua morte, e ao inicio de uma época de revoltas, mortes, mortes, mais mortes. Os estudantes estavam começando a pegar em armas.


O primeiro sinal de protesto ao caminho que a ditadura estava tomando foi a missa de 7º dia de Édson na igreja da Candelária, onde eu, como muitos outros estudantes da UNE, estava presente. O lugar estava lotado, abarrotado de gente chocada, revoltada, inconformada. Por todo o lado se viam cartazes dizendo: "Bala mata fome?", "Os velhos no poder, os jovens no caixão" e "Mataram um estudante. E se fosse seu filho?". O clima era de revolta. A missa foi realizada tranquilamente, algo que me pareceu estranho. A estranheza durou pouco. Assim que começamos a sair da igreja vimos que os militares começaram a formar um corredor, como um funil. "Recuem, recuem aqui ninguém passa!" Era isso que ouvíamos. Quando chegávamos ao seu final a maioria de nós era agredido. O saldo de feridos foi gigante. Via meus braços sangrando, via meus amigos apanhando e não sabia o que fazer. Parece que nenhum deles sabia também. Pensei apenas em sair rapidamente dali. Naquele dia nós nos revoltávamos, mas ainda éramos poucos, ainda éramos NADA.


Voltamos para casa com sede de vingança. Fazíamos curativos pensando na hora de refazê-los. Queríamos SIM ir a luta, queríamos SIM ir às ruas, queríamos SIM ter voz.


Em uma sexta fomos as ruas. Na mesma sexta, sujamos as ruas. Mais uma tentativa de protesto foi controlada. Controlada, acabada, morta, como você preferir. O sangue de muitos de nós que fomos às ruas protestar ficou na rua. "Lavou as ruas ". A sexta-feira Sangrenta mostrou que os militares não estavam ali para brincar. Nós queríamos mostrar que também não estávamos. Queríamos afastar de vez esse CALE-SE que teimava em reinar no pais.


É certo que muita gente não enxergava a situação do Brasil. É certo que muita gente preferia se iludir por meio da nojenta mídia de musicas, filmes e artes babacas que rolavam por ai. É certo que muita gente queria aceitar que aquilo era bom. É certo que muita gente se deixava iludir. Era certo para nós, mostrar que os cegos não eram maioria. Queríamos mostrar, que ainda tinha gente ai querendo enxergar. E querer, para nós, significava poder, custasse o que custasse.


No dia 26 de junho de 1968, as 14h, fomos novamente as ruas, em um protesto que havia sido consentido, talvez por culpa dos corpos que caíram mortos na sexta-feira sangrenta. O protesto foi vigiado por mais de 10mil policiais e contava com a presença de artistas, religiosos e intelectuais, personalidades raramente vistas nesses eventos. Antes do protesto começar nosso líder Vladimir Palmeira falou para todos:


"Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a Policia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a policia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo."


Iniciamos o protesto com 50 mil pessoas, mas o número rapidamente se duplicou. Vínhamos todos pelas ruas, impondo respeito. Paramos em frente a candelária para lembrar de Édson Luis. Ouvimos novamente belas palavras de nosso líder.


"Este lugar tem um significado muito grande para nós. Na missa de Édson, foi aqui que fomos violentamente reprimidos. Hoje o panorama é diferente. Prova de que a potencialidade de luta popular é maior do que as forças da repressão. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retomar a praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam."


Seguíamos pelas ruas carregando nossa grande faixa: "Abaixo a Ditadura. O Povo no poder". Estávamos sentindo que finalmente, tínhamos alguma voz. Passavam das cinco da tarde quando queimamos uma bandeira americana em frente do Palácio Tiradentes. Ali mesmo Vladimir retomou a palavra para encerrar a manifestação num tom de advertência, dizendo:


"Voltaremos sempre para exigir nossos direitos. Pacificamente, se não formos reprimidos pela Polícia. Agressivamente, se tentarem nos agredir, como fizeram algumas vezes.”


Ao fim do protesto dois lideres estudantis foram falar com o presidente, pedindo a liberação dos estudantes presos e o fim da censura. Uma grande ousadia, que não levou a nada. No dia 2 de agosto, nosso líder, Vladimir Palmeira foi preso. Logo em seguida, outros 650 estudantes foram para a cadeia. No dia 4 mais 300 alunos foram detidos em São Paulo. Nesse mesmo mês, o governo militar proibiu qualquer manifestação pública no país, o que gerou a prisão e mortes de vários outros estudantes. Nesse momento, comecei a pensar comigo mesmo e com meus colegas: Até onde isso iria?



Não precisamos pensar muito. Logo não iria mais a lugar nenhum. Já tínhamos chegado. Como aumento da repressão foi criado o AI5 .


O AI5 era chamado por muitos como o mais terrível dos AIs, e tinha motivos para ser chamado assim. Esse ato tirava todos os nossos direitos, toda a nossa privacidade. Esse ato tirava tudo de nosso que ainda podíamos ter. Nem nós éramos nossos. Não tínhamos mais identidade, éramos o que queriam que fossemos. O problema era que nós também queríamos ser.


O AI5 além de nos retirar todos os direitos civis e liberdades individuais, permitindo que a qualquer hora nossas casas fossem invadidas, nossas mochilas revistadas, nossos corpos botados dentro de celas sem motivos aparentes, também introduzia no Brasil a pena de morte e o fim do habeas corpus.


O AI5 levou nossas reuniões para a clandestinidade, deixou nossa revolta escondida em versos de música, deixou nossos sussurros cada vez mais baixos. Como o bom Chico Buarque diria : "O que será, que será ?" . Ninguém sabia o que era. Ninguém sabia mais nada. Os que soubessem, estavam presos, estavam mortos, estavam torturados. Todos estávamos, todos ouvíamos, todos entendíamos, mas ninguém sabia de nada.


No fim de 1969 Costa e Silva deixava o poder, motivo de felicidade para uns mas de preocupação para muitos outros, afinal, não sabíamos se o que viria depois seria melhor ou pior. Na época, deixaram como motivo para a renuncia uma suposta doença do presidente, mas muitos de nós, estudantes da UNE, que tínhamos uma pequena noção do que se rolava dentro das entranhas da ditadura, suspeitávamos que o real motivo eram intrigas que estavam rolando entre o presidente e seu vice, que era um civil.


Costa e Silva foi substituído temporariamente por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica). Um trio de militares nojentos.


Obviamente nós, da oposição, não gostamos da entrada desses 3 militares no poder e, a oposição armada rapidamente armou um "protesto" contra essa situação.


Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência que foi aceita.


Porém, como um vingança, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional que decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". Estávamos cada vez mais presos.


No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo. Estávamos todos sendo perseguidos




O motivo da preocupação, antes mencionado, foi concretizado e os grupos mais ligados à chamada “linha dura” acabaram aprovando o nome de Emílio Garrastazu Médici, para ser o novo presidente do Brasil, substituindo a junta militar, que não ficou no poder nem por 2 meses .


Médici extrapolou em todos os sentidos . Ficou 5 anos no poder, anos esses que pareciam intermináveis, anos esses que ficaram conhecidos como "anos de chumbo". Usou de maneira demasiada o AI5 e tornou a censura e a repressão mais "profissionais", mais "apuradas". Criou aparelhos de repressão. Todas essas medidas começaram a obrigar os músicos, poetas e escritores a se apoiarem cada vez mais em metáforas, tornando as mensagens cada vez mais ocultas. As poucas reuniões de estudantes que ainda existiam eram feitas em total sigilo. Não se sabia mais quem era ninguém dentro daqueles quartos de reunião. A maioria dos nossos lideres tinham sido cassados. A maioria de nós estavam presos, sendo torturados, exilados, ou até mortos. Eu e meu grupo de companheiros tivemos sorte em não sermos pegos junto aos outros. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores estavam sendo constantemente investigados, presos, torturados ou exilados do país.


Na época de Médici aconteceu também uma grande tentativa de alienação. As mídias exibiam para o povo desinformado uma falsa sensação de felicidade com a vitória do Brasil na copa de 70, fato que só fazia a maioria esquecer da situação nacional. Exibiam também programas como o da Jovem Guarda, que passavam para o público uma música oca, sem sentido, sem mensagem, uma música "POP". Redes como a Record e a Rede Globo, que andavam de mãos dadas com a ditadura, controlavam o que chegava ao povo, e faziam questão de que tudo que chegasse passasse uma imagem boa da ditadura. Até a pornochanchada, um filme pornô misturado como comédia, foi usada para a distração do publico.


Mas quem acha que nós nos calaríamos em relação a isso estava completamente enganado. Rapidamente começamos a travar uma luta armada, por meio, por exemplo, da ação popular, que antes começara moderada, mas que com o passar do tempo acabou vendo que a luta armada estava se tornando necessária, da POLOP (organização de esquerda da Política Operária), do MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro) e do Var-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Além disso, travávamos também lutas culturais, na música por meio dos Festivais, que ressaltavam o poder da MPB e do Samba, que traziam grandes compositores como Vandré e Chico Buarque, grandes críticos da ditadura, que chegaram até a serem perseguidos, presos e exilados do pais. No teatro criamos o Teatro do Oprimido, o teatro opinião e o teatro arena. No cinema, nossos protestos vinham por meio do Cinema Novo. Tentávamos atacar a censura por todos os cantos, tentávamos mostrar cada vez mais nossa revolta e ao mesmo tempo tentávamos cada vez mais nos esconder. Vivíamos uma das épocas mais complicadas da ditadura, mas que graças a todas essas complicações nos rendeu ótimos frutos no meio artístico.


Após esses 5 longos anos sob o Governo do Presidente Médici, em 1974, assumia o presidente Ernesto Geisel que começou um lento processo de transição rumo à democracia. E bote lento nesse processo.



Sob o governo de Geisel a economia brasileira chegou ao seu ponto mais critico. O preço dos alimentos estava altíssimo, nós reclamávamos cada vez mais por ter que pagar preços absurdos pela alimentação básica.



Mas mesmo em meio a tantas crises foi no governo de Geisel em que nós opositores finalmente conseguimos conquistar espaço dentro da política. Nas eleições de 1974, nosso partido, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Estávamos mostrando para Geisel e para quem quisesse ver que juntos podíamos ganhar poder.


O problema começou quando começaram a ver força demais nas nossas conquistas. Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, que propunha uma ditadura mais leve, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Alguns de nossos membros e de nossos principais líderes foram assassinados. A situação que parecia melhor mostrou que estava apenas mais calma, e que se precisasse, se revoltava, como um mar em ressaca.


O mar quis ficar calmo daquela vez. O mar quis ficar calmo por bastante tempo. Em 1978, Geisel acabou com o AI-5 e abriu caminho para a volta da democracia no Brasil. Abriu caminho para a esperança. O grande aumento da oposição e as vitórias do MDB nas eleições levaram a redemocratização a acontecer de maneira cada vez mais rápida.


Em 1979 assumiu o governo no lugar de Geisel o presidente "eu amo cavalos" Figueiredo. O ultimo presidente da ditadura militar foi um presidente extremamente polêmico. Chegou a dizer publicamente que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo e que quem não aceitasse a democracia era preso e "arrebentado".


O governo do general Figueiredo foi marcado por uma enorme crise econômica pelo processo de reabertura política do país. Uma das principais medidas tomadas por esse novo governo foi abolir o sistema bipartidário, voltando com o antigo pluripartidarismo e realizar a anistia política dos militares e perseguidos políticos.


O projeto inicial da anistia não previa o beneficiamento de todos os envolvidos com crimes políticos, mas o projeto de lei acabou sofrendo alterações que perdoavam todos os acusados de praticar tortura e devolvia direitos políticos plenos aos exilados. Muitos amigos meus estavam voltando para casa. Muitas pessoas cheias de histórias dos campos de tortura, muitas pessoas vindas de outros países. Muitas histórias a serem contadas e principalmente, uma grande esperança a ser restabelecida. A ditadura parecia finalmente estar chegando ao fim.


Alguns militares de linha dura continuavam com a repressão clandestina, atacando sem piedade muitos opositores. Cartas-bomba foram colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explodiu durante um show no centro de convenções do Rio Centro. Não se tinha prova de que os atentados tenham sido provocados pelos “linhas duras”, mas a maior suspeita caia em cima deles. Eles não queriam que aquilo chegasse ao fim. O que nós mais queríamos era que aquilo chegasse ao fim. Estávamos claramente no meio de um conflito.


Nos últimos anos do governo militar, nosso país ainda apresenta vários problemas como a inflação que estava alta e a recessão também.


Mas algo bom também estava ocorrendo: a oposição ganhava cada vez mais terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos.


Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já! Aquilo era a maior exposição de pressão no governo para uma mudança rápida! O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. O movimento era favorável à fazer a voz do povo ser ouvida. O movimento era favorável principalmente ao povo, mas para decepção desse mesmo povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados.


Algum tempo depois, em janeiro de 1985, já não me lembro mais ao certo o dia, o Colégio Eleitoral escolheu o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal.


Era o fim do regime militar. Tancredo Neves ficou doente antes de assumir e acabou falecendo. Assumiu o seu cargo o vice-presidente José Sarney.


Em 1988 foi aprovada uma nova constituição para o Brasil, que apagou completamente os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país.


Em 1985 acabava o terrível período chamado de ditadura. A essa altura já estava no auge dos meus 40 anos, mas posso dizer, felizmente, que fiz parte da história de luta do povo por um país melhor. Posso dizer hoje, que fiz parte da história desse pa´ss, assim como muitos outros jovens, alguns que até morreram lutando.


Com o fim da ditadura veio o medo de seu recomeço, mas veio principalmente a esperança de poder dedicar à nossos filhos o pais melhor que havíamos conquistado. Havíamos conquistado aquilo principalmente por eles e por todas as futuras gerações que ainda viriam. Nossa luta contra a ditadura foi pensando sempre no futuro. Hoje me pergunto até que ponto podemos afirmar que a ditadura acabou. Até que ponto podemos afirmar que ainda não existe uma ditadura ai fora.





Internacional:


Lembra quando falei que achava que existia algo maior por trás de toda essa história da ditadura? Pois esse algo maior era um gigante chamado Estados Unidos da América. O senhor do capitalismo, até respirar te custa algo naquele lugar. Pessoas expiram, inspiram, transpiram e aspiram dinheiro todo o tempo.


Esse poderoso tinha interesses no Brasil. Sempre teve. Desde a época em que Getulio ameaçava com seu suposto "comunismo" os Estados Unidos já planejavam essa ditadura. Os Estados Unidos já planejavam controlar o país.


O desejo de controle tinha um motivo: A formação de uma rivalidade que posteriormente levaria a guerra fria. Estados Unidos e União Soviética lutavam com unhas e dentes por cada nação conquistada, no caso dos EUA, com o capitalismo e da URSS, com o socialismo.


O Brasil, como o bom país continental que é, tinha um papel importantíssimo nessa disputa. Quando estávamos sob o governo de Getulio, JK, Jânio e Jango o Brasil constantemente oscilava entre o lado socialista e o capitalista, algo inaceitável para os EUA. Eles tinham que solucionar isso. E solucionaram. Começaram a financiar econômica e militarmente a futura ditadura militar que ocorreria aqui no Brasil, que tornaria o pais totalmente capitalista e, portanto, um aliado na Guerra Fria.


Durante a maioria dos anos da ditadura o Brasil continuou com o apoio dos EUA até que eles resolveram "girar" seus espaços políticos e econômicos para o Oriente Médio, em função da grande crise mundial do petróleo, petróleo que por acaso era encontrado em abundância naquela região. Com essa mudança de foco, a atuação dos EUA na América Latina e principalmente no Brasil diminuiu drasticamente. O investimento da ditadura se cessou, levando ela a um declínio, que originou seu fim.



Zazá

Estamos de volta!

Caros leitores,

Estamos de volta. O mundo é nossa fonte de inspiração e também de renúncia, de silêncio. Os mesmos acontecimentos que nos motiva a publicar ideias, nos paralisa.
Mas com muito prazer, o Vozes da América retorna de um longo inverno dando voz a alunos que fizeram de seus pensamentos, obras. Transformaram-se em executores e não apenas ouvintes e assim produziram o material que lerão a seguir. O tema proposto foi a tenebrosa Ditadura Militar e Civil brasileira de 1964 e aí vão alguns trabalhos. Mas não sem antes lembrarmos que o grande barato de dar aula é quando o aluno supera o mestre.
Com vocês, duas dos muitos grandes alunos que temos, Andressa e Zazá.

Boa leitura, sempre!

domingo, 6 de junho de 2010

Terrorismo de Estado

O mundo em lágrimas - 02/06/2010

O governo de Israel é belicoso e, ao praticar terrorismo de Estado, estimula reações em todo o mundo. O Reino Unido e a Austrália expulsaram diplomatas israelenses depois de apurarem que Israel falsificara passaportes britânicos e australianos utilizados pelos assassinos de um líder do Hamas. Os planos de Israel para construir um novo assentamento judaico em terras ocupadas no Leste de Jerusalém provocaram duras críticas até dos EUA, em março.
Uma investigação das Nações Unidas culpou os governantes daquele país por crimes de guerra durante ofensiva na Faixa de Gaza, em 2008 e 2009. Israel, único país com arsenal atômico no Oriente Médio, é cobrado para assinar o Tratado de Não ProliferaçãoNuclear (TNP).
Sectário, resiste às pressões e isola-se. Agora, o ataque à chamada Flotilha da Liberdade, expedição humanitária à Faixa de Gaza foi repudiado tanto por países islâmicos como por europeus e latino-americanos.
No último domingo (30/05), em águas internacionais, soldados israelenses, como piratas, desceram de helicópteros por cordas no deck do principal navio de um comboio de seis embarcações, e abriram fogo contra civis desarmados, que natural e corajosamente tentavam conter o criminoso assalto com suas próprias mãos. Montado por organizações internacionais, o comboio transportava dez mil toneladas de brinquedos, material escolar, de construção e alimentos, além de 700 pessoas de 38 nações, inclusive uma brasileira, a cineastaIara Lee. Também estavam a bordo a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Maired Corrigan Maguire, da Irlanda do Norte, e o escritor sueco HenningMankell, além de vários parlamentares.
A alta comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillary, destacou que nada pode justificar o resultado terrível da operação, classificando o bloqueio a Gaza como desumano e ilegal. O relator especial sobre Direitos Humanos nos territórios palestinos, RichardFalk, afirmou que Israel é culpado por um comportamento chocante, usando armas contra civis em navios em alto-mar, onde há liberdade denavegação. Há, até agora, nove mortos e trinta feridos. A ação foi tão sinistra que nem mesmo a identificação total das vítimas já foi feita.
Não há que se confundir a ação de um governo com a de um povo, que precisa reagir e substituir, urgentemente, a esse governo. Registro nesta Casa a contundente Carta ao Governo Israelense, do amigo e grande cineasta Silvio Tendler:
"Senhores que me envergonham: Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente Médio. As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vêm tornando, cotidianamente, a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.
Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos?
Vergonha, três vezes vergonha!Proponho que Shimon Peres devolva seu Prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid. Considero o atual governo, com todos os seus membros, sem exceção, merecedores, por consenso universal, do Prêmio Jim Jones, por estarem conduzindo todo um país para o suicídio coletivo. A continuar a política genocida do atual governo nem os bons sobreviverão e Israel perecerá sob o desprezo de todo o mundo.O Sr. Lieberman, que trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um Tribunal de Nuremberg. Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.
Abaixo o fascismo!Paz Já!"

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 02 de junho de 2010.

Chico AlencarDeputado Federal, PSOL/RJ

domingo, 23 de maio de 2010

Esses milicos só podem estar sofrendo de saudades ou de Alzheimer

O Vozes da América agradece a colaboração do excelente cavaquinista, bandolinista e outras cordas, Bruno Eschenazi, pela matéria abaixo.
Os militares saudosistas, assim como a elite civil que lucrou com o golpe e nos escombros dele ainda se deleitam, cometem nessa entrevista (e em tantas outras) uma série de aberrações históricas. Mas destacamos duas que fogem a lógica racional, descambam para o ridículo e desaguam nos mares tortuosos da mais pura sacanagem: Primeiro foi dizer que a imprensa na ditadura militar era "amplamente livre"; Segundo, afirmar para termos cuidado pois o Brasil ruma para uma "ditadura totalitária comunista". Ou esse milico é limitadíssimo do ponto de vista intelectual ou é de uma grandeza ideologicamente fascista das raias da estupidez. Seja como for, é necessário manter uma distância de segurança.

Governo Lula quer implantar ditadura totalitária no país

General pivô de polêmica defende que ditadura de 1964 foi autoritária, mas não totalitária, e deixou imprensa "amplamente livre"
RESPONSÁVEL até fevereiro deste ano pelo Departamento de Pessoal do Exército, o general Maynard Marques Santa Rosa, 65, disse à Folha que está em andamento um processo para transformar o Brasil numa "ditadura totalitária comunista" e que o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos é parte dessa estratégia.
Ele afirma que "com certeza" há exagero quando se fala em tortura na ditadura militar (1964-85). "Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então, foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiu que saíssem [no Brasil]."
LUCAS FERRAZDA SUCURSAL DE BRASÍLIA
ELIANE CANTANHÊDE COLUNISTA DA FOLHA

FOLHA - Qual é sua opinião sobre o governo Lula?
MAYNARD MARQUES SANTA ROSA - Acho o presidente uma pessoa simpática, tem empatia com o público e sensibilidade em detectar os anseios da massa. O que é diferente da linha governamental que ele segue. Está rodeado de pessoas impregnadas de preconceito e ideologia. O governo tem várias caras. Ideologicamente, é intolerante, autoritário. Para ser mais preciso, tem anseio totalitário.
FOLHA - O Lula?
SANTA ROSA - O governo. O presidente, não. Não sei se ele é usado ou se ele usa esse grupo para promover seus interesses.
FOLHA - O que caracteriza o autoritarismo do governo?
SANTA ROSA - A intolerância com opiniões contrárias. Quem examinar o Programa Nacional de Direitos Humanos vai interpretar o que digo. Aquilo é um tratado ideológico de extrema intolerância, onde se pretende regular uma sociedade inteira. Adota o tal princípio da transversalidade. Na medida em que se têm intenções que transcendem Legislativo e Judiciário, são pretensões que transcendem até preceitos da Constituição, portanto, totalitárias.
FOLHA - Em que parte o 3º PNDH transcende Legislativo e Judiciário?
SANTA ROSA - Quando propõe a institucionalização de mecanismos ilegais. Ingerir no processo judicial de reintegração de posse transcende a lei e na estimulação da degradação dos costumes à revelia da tradição cristã que temos, ao estimular a homoafetividade.
FOLHA - Totalitarismo não é o contrário, exigir que todos tenham o mesmo comportamento?SANTA ROSA - Querer consertar isso com outra penada mais totalitária é que é o erro. Temos de deixar fluir a natureza, inclusive nas relações sociais.
FOLHA - Os dois planos elaborados no governo FHC já não continham basicamente os mesmos pontos.
SANTA ROSA - O primeiro plano não choca ninguém. Embora tenha bandeiras polêmicas, obedece ao princípio da naturalidade, não faz a sociedade civil engolir pontos que não lhe pertencem, diferentemente do de agora, fabricado de fora.
FOLHA - De fora? De onde?
SANTA ROSA - Se você pesquisar a similitude entre a Constituição venezuelana, e também a equatoriana e a boliviana, que são clones adaptados aos seus países, vai verificar qual é a origem. Isso tudo é uma composição organizada, é uma conspiração internacional.
FOLHA - Durante seus 49 anos no Exército, o sr. conheceu muitos gays nas Forças Armadas? SANTA ROSA - Não, existe uma rejeição inata da estrutura militar contra isso. O problema é que existe uma articulação, no sentido de transformar a sociedade, colocar uma nova cultura goela abaixo na classe média, e isso é apenas uma fase preliminar para depois se implementar o que se quiser.
FOLHA - E o que se quer?
SANTA ROSA - Uma ditadura totalitária.
FOLHA - Comunista?
SANTA ROSA - Exatamente. Primeiro, transformar os costumes da sociedade, para, por último, implementar o sistema totalitário. Falar isso no século 21 é quase uma aberração.
FOLHA - Após 21 anos de ditadura, a democracia não é irreversível?
SANTA ROSA - Não acho. O povo não reage, está numa situação letárgica. Nosso povo não tem opinião, e quem tem se cala. Estamos anestesiados.
FOLHA - No seu e-mail contra o plano não havia nada disso.
SANTA ROSA - O nosso foco era a defesa da instituição militar.
FOLHA - Nosso? De quem?
SANTA ROSA - Meu. O foco militar era porque, se se conseguisse abrir a Comissão da Verdade, o resto seria facilmente alastrado. Houve uma reação institucional à qual até o próprio ministro [Nelson Jobim] aderiu, reconhecendo que iria causar uma desarmonia grande. Então, ele contrapôs aquele protesto que levou o presidente a flexibilizar a redação do plano.
FOLHA - Que nota o sr. dá para o ministro Nelson Jobim?
SANTA ROSA - Para o momento, é o melhor que se tem. É preparado, foi ministro do STF, da Justiça, tem relacionamentos de alto nível e é inteligente. O Ministério da Defesa é uma necessidade, faz parte da modernidade do Estado.
FOLHA - Como o sr. define o regime de 1964?
SANTA ROSA - Um regime emergencial, um mal que livrou o país de um mal maior.
FOLHA - E a tortura?
SANTA ROSA - Nunca foi institucionalizada, é um subproduto do conflito. A tortura começou com os chamados subversivos. Inúmeros foram justiçados e torturados por eles próprios, porque queriam mudar de opinião. A tortura nunca foi oficial.
FOLHA - O sr. critica que o plano está transportando para o país um regime autoritário, mas não foi justamente o de 1964?
SANTA ROSA - Foi autoritário, mas não totalitário.
FOLHA - Qual é a diferença?
SANTA ROSA - A imprensa, por exemplo, foi amplamente livre.
FOLHA - Como?!
SANTA ROSA - Só teve censura no momento de pico, a partir do AI-5 [1968]. Se não houvesse um enrijecimento político naquela oportunidade, poderia se perder o controle. Considero isso tudo um mal, mas um mal menor e necessário.
FOLHA - O sr. aceita um militar torturando uma pessoa indefesa, um jovem, uma mulher, desarmados?
SANTA ROSA - Nenhum militar torturou ninguém. Se houve, foi no Dops [Departamento de Ordem Política e Social, oficialmente vinculado à polícia].
FOLHA - Não é covardia matar pessoas e torturar rapazes e moças, algumas grávidas, depois de presas?
SANTA ROSA - Sinceramente, não sei de nenhum caso. O que existe é produto de imaginação. FOLHA - O sr. tem dúvida? A própria ex-ministra Dilma Rousseff foi presa e torturada.
SANTA ROSA - Ela diz que foi torturada, mas... Só no Brasil, a pessoa que sobrevive, e está com boa saúde, alega a tortura para ganhar os benefícios, sejam políticos ou de pensão.
FOLHA - É mentira que houve tortura?
SANTA ROSA - Com certeza absoluta. Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Ou chinês? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiram que saíssem [no Brasil]. Institucionalmente, legalmente, não houve [tortura]. Não posso afirmar que, fora do controle, não tenha havido.
FOLHA - Não é justo, portanto, ter uma Comissão da Verdade para apurar se houve ou não houve?
SANTA ROSA - Seria justo se os dois lados dissessem a verdade. Se você perguntar a Dilma Rousseff quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou...
FOLHA - Até onde se sabe, ela não matou ninguém.
SANTA ROSA - É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima.
FOLHA - Qual é a sua opinião sobre José Serra? Ele foi presidente da UNE, exilado no Chile... SANTA ROSA - É um administrador competente, um gestor público excelente, tanto que, se voltar para São Paulo, se reelege. Mas eu estou me atendo ao produto do trabalho dele.
FOLHA - E a Marina Silva?
SANTA ROSA - Tem uma visão da Amazônia igual à da Fundação Ford, igual à dos americanos. É uma visão internacionalista.
FOLHA - O sr. vota em quem?
SANTA ROSA - Na Dilma não voto de jeito nenhum, mas não é fácil engolir o Serra.

--
.שלום לכולם

Bruno Eschenazi.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

FHC nunca mais!

O Vozes da América já está em ritmo de campanha eleitoral - 2010. E por mais que a verdadeira esquerda não tenha chances reais de ganhar a disputa e fazer as reformas profundas que o país tanto precisa, apontamos aqui, na majestosa visão do professor Emir Sader, os danos de uma possível volta ao poder da dupla Serra/FHC em 2011. Isto, sem contar daqueles velhos aliados dos tucanos, que desembarcaram no Brasil com Cabral em 1500 para matar índios, corromperam a estrutura colonial com a instituição do latifúndio e da escravidão, fizeram uma falsa independência em 1822, proclamaram a república em 1889, apoiaram o Estado Novo de Vargas, sorriram felizes com a notícia do suicídio dele em 1954 e, mais recentemente, golpearam a democacia impondo uma tenebrosa ditadura militar em 1964: estes nefastos "homens bons" de uma atemporalidade amendrontadora são do sugestivo partido... DEM. Incansável defensor do latifúndio e da concentração de renda. Carrasco da moralidade pública. Corruptos vorazes de nosso dinheiro e do nossa ética. Câncer em metástase da complexa engenharia política nacional. O Neoliberalismo de FHC, o DEM(o), a dependência com os EUA... nunca mais!
Vozes da América, 20 de Maio de 2010.

"O povo brasileiro já definiu uma decisão inapelável: FHC NUNCA MAIS!
Depois de se tornar ministro da economia e colocar em prática no Brasil a versão tupiniquim do plano de estabilização do FMI e ser eleito presidente com a promessa do fim da inflação e, com ela, da felicidade de todos. Terminado o “imposto aos pobres”, viriam o crescimento econômico, com a chegada de investimentos, a modernização do país e a distribuição de renda.
Seria virada “a página de getulhismo” – significando com isto, a capacidade reguladora do Estado, o patrimônio das empresas estatais, os empregos com carteira de trabalho, a política redistributiva através dos salários, a extensão do mercado interno de consumo popular, o desenvolvimento econômico junto à extensão dos direitos sociais – enfim, o papel indutor do crescimento e dos direitos sociais.
Com FHC o Brasil substituiu definitivamente o objetivo do crescimento econômico pelo da estabilidade monetária – como prescrevia o FMI e Malan e FHC acatavam. Como resultado, o discurso de que o Estado “gasta muito e gasta mal” desembocou na multiplicação por 11 do déficit público, com a inflação sendo transferida para esse déficit, deixando o Estado em situação falimentar. Nos seus dois mandatos – lembremos que FHC comprou votos para mudar a Constituição durante seu mandato para conseguir a reeleição, tal qual fizeram Menem e Fujimori -, FHC quebrou o país três vezes, tendo que apelar nas três ao FMI. Na terceira delas, os juros foram elevados a 49% (sic).
FHC terminou seu mandato rejeitado pelo povo brasileiro. Seu candidato foi derrotado e ele passou a ser o eventual candidato à presidência com o maior grau de rejeição. Saiu do governo com a inflação controlada, mas com o patrimônio público dilapidado – no maior caso de corrupção da história brasileira, o caso das privatizações, que nem sequer foi objeto de CPI do Congresso -, com as finanças públicas arrasadas, com a economia estagnada e fragilizada. Saiu como o presidente que tinha governado para os ricos, como o presidente dos ricos.
Desde o luxuoso conjunto financiado pelo grande empresariado paulista, onde instalou sua fundação – caricatura da caricatura da que tem Bill Clinton -, FHC passou a fazer ouvir a voz do grande capital brasileiro – na verdade, paulista, da Avenida Paulista -, multiplicado pelo rancor da derrota de 2002, do sucesso internacional da política exterior de Lula. Não se conteve no seu papel de ex-presidente e passou a intervir na política cotidiana. Não se deu conta que o tempo tinha passado, que sua imagem tinha se degradado, acreditou que ainda podia contar com o aureola de intelectual que pontifica sobre tudo.
Está reduzido a um velho político derrotado – junto a ACM, a Tasso Jereissati, a Bornhausen -, que fizeram parte da base fundamental de apoio de seus desastrados 8 anos de governo. Oito anos desastrados para o Brasil, no pior governo que o país já teve.
No entanto ninguém acredita que FHC se retire para a sua privacidade. O que faria ai? Seu narcisismo não esperou para publicar suas “memórias” - de auto-exaltação e desprezo pela realidade. O que faria agora? Sua vaidade, a nostalgia de quando aparecia no jornal para dizer qualquer bobagem e tinha espaço, o impulsiona a um futuro perigoso. Sua imagem vai se degradar cada vez mais. A situação de tucanos que não se atrevem a defender seu governo na campanha eleitoral prenuncia o que espera FHC daqui pra frente.
O povo já deu seu veredicto. Cada vez que FHC falava, a adesão a Lula aumentava. (A ponto de se cogitar a entrega de alguns minutos no programa de Lula a FHC, como reconhecimento e alavanca para aumentar ainda mais a vantagem de Lula.) FHC nunca mais. Nunca mais um intelectual que pretende ditar sua verdade ao povo do alto da sua suposta sabedoria, enganando, mentindo, difundindo falsidades (como “A globalização é o novo Renascimento da humanidade” ou “Há 12 milhões de brasileiros inimpregáveis”, entre tantas outras).
FHC nunca mais, nunca mais ricos governando em nome dos ricos, com falsas promessas para os pobres. Nunca mais um governo vassalo dos EUA. Nunca mais um governo que criminaliza os movimento sociais. Nunca mais um governo que desmantela o patrimônio público pela privatização de empresas estatais. Nunca mais um governo que dissemina a educação privada em detrimento da educação pública, que promove a mercantilização da cultura. Nunca mais FHC. Nunca mais tucanos-pefelistas. Nunca mais governos que concentram ainda mais a renda no Brasil, que vendem a Amazônia para ser vigiada pelas raposas do Império.

FHC NUNCA MAIS"!

Emir Sader - 22/10/2006.

domingo, 16 de maio de 2010

13 de Maio - Valeu Zumbi!

Zumbi, um negro,
respirando rebeldia,
foge pra mata um dia
à procura do Lugar.

Era um Quilombo,
a terra dos ex-escravos,
todos livres, sem os travos,
sem ter dono pra ferrar.

Vinham mestiços,
índios chegavam do eito,
todos lá tinham direito,
preto, branco, sarará.

Uma nação de iguais sem oprimidos,
de homens livres nascidos,
crescidos sem apanhar.

Chegaram ali
brancos pobres, mamelucos,
com pau, pedra e trabuco
pra liberdade ganhar.

Todos queriam ser mais um quilombola,
não viver pedindo esmola
a que não queria dar.

Uma cruzada
contra os povos livres, bravos,
para mantê-los escravos,
correram então a formar.

E a batalha
derradeira aconteceu,
jamais dela se esqueceu
quem nasceu nesse lugar.

O sol,o sol já vem.
Eu namoro uma morena
e sou moreno também

Vi preto livre
lá na Serra da Barriga
enfrentar bala e urtiga
para não se escravizar.

Como uma praga,
saída dos evangelhos,
vi Domingos Jorge Velho
palmares incendiar.

Eu vi foi tiro,
eu vi corte de peixeira,
pernada de capoeira,
vi corpo no chão rolar.
Eu vi Zumbi
ser preso, ser torturado,
violado e humilhado
por querer se libertar.

Eu vi seu corpo
ser a faca esquartejado,
como um bicho ser sangrado,
também vi seu degolar.
Vi a cabeça
enfiada numa vara,
eu vi toda a sua cara
no sol quente descarnar.


Antonio Nóbrega, em “O Marco do Meio-Dia”, espetáculo em homenagem aos 500 anos do Brasil.

O compositor pernambucano Antonio Nóbrega, levanta na história esquecida do Brasil uma das passagens mais dramáticas e ao mesmo tempo mais esperançosas: a luta do povo pobre, mestiço e negro pela liberdade. Foi Zumbi e sua trincheira chamada Palmares, que plantou a “semente” que mais tarde culminará na “liberação” dos escravos. Porém, a libertação, ainda não ocorreu, mesmo com tanta luta, e com tanto sangue derramado, seja pelos famosos ou pelos anônimos guerreiros da igualdade.

TAXA CAMARAE - Parte 3

Continuação ...

A Taxa Camarae é um tarifário promulgado, em 1517, pelo papa Leão X (1513-1521) destinado a vender indulgências, ou seja, o perdão dos pecados, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao pontífice. Como veremos na transcrição que se segue, não havia delito, por mais horrível que fosse, que não pudesse ser perdoado a troco de dinheiro. Leão X declarou aberto o céu para todos aqueles, fossem clérigos ou leigos, que tivessem violado crianças e adultos, assassinado uma ou várias pessoas, abortado… desde que se manifestassem generosos com os cofres papais.

Vejamos o seus trinta e cinco artigos:



8. A absolvição e a certeza de não serem perseguidos por crimes de rapina, roubo ou incêndio, custará aos culpados 131 libras e 7 soldos.

9. A absolvição de um simples assassínio cometido na pessoa de um leigo é fixada em 15 libras, 4 soldos e 3 dinheiros.

10. Se o assassino tiver morto a dois ou mais homens no mesmo dia, pagará como se tivesse apenas assassinado um.

11. O marido que tiver dado maus tratos à sua mulher, pagará aos cofres da chancelaria 3 libras e 4 soldos; se a tiver morto, pagará 17 libras, 15 soldos; se o tiver feito com a intenção de casar com outra, pagará um suplemento de 32 libras e 9 soldos. Se o marido tiver tido ajuda para cometer o crime, cada um dos seus ajudantes será absolvido mediante o pagamento de 2 libras.

12. Quem afogar o seu próprio filho pagará 17 libras e 15 soldos [ou seja, mais duas libras do que por matar um desconhecido (observação do autor do livro)]; caso matem o próprio filho, por mútuo consentimento, o pai e a mãe pagarão 27 libras e 1 soldo pela absolvição.

13. A mulher que destruir o filho que traz nas entranhas, assim como o pai que tiver contribuído para a perpetração do crime, pagarão cada um 17 libras e 15 soldos. Quem facilitar o aborto de uma criatura que não seja seu filho pagará menos 1 libra.

14. Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai, pagar-se-á 17 libras e 5 soldos.

15. Quem matar um bispo ou um prelado de hierarquia superior terá de pagar 131 libras, 14 soldos e 6 dinheiros.

16. O assassino que tiver morto mais de um sacerdote, sem ser de uma só vez, pagará 137 libras e 6 soldos pelo primeiro, e metade pelos restantes.



(Fonte: Rodríguez, Pepe (1997). Mentiras fundamentais da Igreja católica.Terramar – Editores, Distribuidores e Livreiros -(1.ª edição portuguesa, Terramar, Outubro de 2001 – Anexo, pp. 345-348)

O soviete de Joinville - Um outro mundo é possível

O soviete de Joinville - Jornal do Brasil, 18 de Março de 2007.

Renan Antunes de Oliveira De Joinville, especial para o JB

Está em curso uma experiência cabocla, anacrônica e politicamente incorreta em Santa Catarina: a formação do "proletariado bolivariano trotskista estatizante germânico-joinvillense".
É uma categoria de trabalhadores sem a visão do lucro. Eles tomam a fábrica e expulsam o patrão. Funcionam sem capital e sem matéria-prima. Reduzem a jornada para 30 horas semanais. Produzem com maquinário obsoleto e só o necessário para garantir os próprios salários. Livres dos grilhões do capitalismo, são escravos de si mesmos.
A vanguarda desta turma parada no tempo é formada por 1.070 operários entrincheirados há quatro anos e meio nos galpões da indústria plástica Cipla. Eles esperam o presidente Lula cumprir uma promessa de estatização para salvar os empregos, feita na campanha de 2002.
Enquanto dura o impasse eles desafiam a Justiça que quer tirá-los de lá. Agitam-se sob o total silêncio da imprensa. Enfrentam a hostilidade da elite empresarial catarinense. E teimam em subverter até as leis de mercado: todo ano fecham no vermelho, felizes da vida.
Os operários têm planos de queimar tudo se um dia a polícia invadir o sagrado chão da fábrica. No início aconteceram algumas escaramuças, quando eles botaram para correr a PM, a Polícia Federal e até oficiais de justiça.
Antes dos incidentes a turma obedecia às leis do país e adorava o presidente Lula. Eles radicalizaram depois que o venezuelano Hugo Chávez começou a pagar as contas. Desde dezembro, quando reuniu 600 líderes de ocupações em países hermanos, a Cipla virou solo sagrado do proletariado cucaracha.
Foi tortuoso o caminho de formação desta nova classe de trabalhadores - só o proletariado é o centro da receita. O bolivariano nasce da palavra da hora para revolucionário anti-Bush, deriva do libertador das Américas, Simón Bolívar. Trotskista é o seguidor da vertente comunista do russo Leon Trotsky, criada no século passado e fracassada em todo lugar onde foi testada.
Estatizante é óbvio. O germânico-joinvillense vem das origens e do local onde ocorre. Joinville, a maior cidade industrial catarinense, uma potência econômica criada à imagem e semelhança da Alemanha. Por décadas o operariado de olhos azuis segue a tradição de trabalhar de cabeça baixa e dizer sim para tudo, em nome da ordem.
A Cipla, hoje vista como um corpo estranho e de operariado desgarrado, nasceu da nata do empresariado germânico e capitalista: ela é a mãe do Grupo Tigre, a maior empresa da América Latina de tubos e conexões.
Seus operários, máquinas e galpões foram separados da parte boa da Tigre quando começou a fazer água, nos anos 90. A família Hansen, dona de tudo, deu uma mexida e a Cipla foi entregue pelo fundador como dote a um dos genros - formado em Harvard, era tido como um geniozinho neoliberal.
Depois de cinco boas temporadas faturando 100 milhões de dólares por ano, o genro gênio deixou de recolher impostos e FGTS. Passou a pagar os operários com vales de 30 por semana. A Tigre, blindada por advogados, não quis saber da parte podre e a deixou naufragar sob uma dívida de 600 milhões.
Foi aí que o proletariado germânico-joinvillense virou revoltado à trotskista. Ele tomou a fábrica - tomada esta insuflada por um líder sindical que passou pela cidade em campanha eleitoral e prometeu estatização.
"Invadam que eu garanto", foi a promessa aos líderes. A invasão se consumou em primeiro de novembro de 2002. O pessoal evolui então para "estatizante", vendo na encampação a única chance de salvar os empregos.
No janeiro seguinte, o candidato virou presidente. Só então caiu na real. Já não pôde cumprir a promessa - ela estava na contramão da globalização. Para não fazer feio, Lula mandou seu chefe da Casa Civil ajudar o pessoal, mas José Dirceu é que acabou precisando de ajuda, bombardeado primeiro pelo caso Valdomiro Diniz, depois derrubado por Roberto Jefferson.
O pessoal continuou a luta. No ano passado apareceu o novo patrono da causa: Hugo Chávez, líder da sua peculiar Revolução Bolivariana. Ele anunciou que não queria mais comprar de empresas norte-americanas.
Como a Cipla produz tubos para a indústria do petróleo, um emissário trotskista-capitalista foi enviado à Venezuela com urgência. Deu negócio. E dos bons. Chávez manda aos companheiros matéria-prima a preços subsidiados. A turma então bolivarianou.
Lula se reelegeu. Em fevereiro, na Bahia, o presidente recebeu Serge Goulart, 52 anos, catarinense, membro do diretório nacional do partido pela corrente radical trotskista O Trabalho, líder da ocupação da Cipla.
Momento tenso. Quatro anos e cinco meses depois de insuflar a turma à invasão, Lula olha o velho companheiro e faz cara de espanto: "Como ? Ainda não resolveram o problema"? Aí vira-se para o secretário e ordena: "Dulci (Luís), cuide do caso".
Em Joinville, enquanto isso...

Tudo dá certo quando começa mal

Com a fábrica sucateada, sem dinheiro para investimentos e no vermelho, não era para as coisas irem bem. Mas a Cipla que faturou só 37 milhões em 2006, quando precisa de 90 para se equilibrar, continua de pé.
Fala Francisco Lessa, advogado da empresa: "Nós conseguimos pagar os salários de todos, acima do piso da categoria em Joinville".
Por que a Cipla não cumpre ordens de penhora da Justiça ?
- Elas são para pagar dívidas dos antigos donos. Nós queremos manter os empregos. A Justiça está mais sensível e já entende que se nos tirar equipamentos e receita ficaremos sem ter como garantir os salários de trabalhadores.
Quando pegaram a fábrica vocês não sabiam do rombo?
- Só tivemos a dimensão da coisa quando abrimos os livros. Ocupamos a fábrica quebrada e agora queremos estatização.
Quanto vale a Cipla ?
- O patrimônio está avaliado em cerca de 60 milhões, não dá para pagar nem 10% da dívida. Mas a empresa é viável, segundo um estudo do BNDES.
Como vai a produtividade?
- Ótima. Em 2004 a empresa foi premiada. Em janeiro, adotamos o regime de 30 horas semanais, uma coisa de primeiro mundo. Nosso gargalo é a compra de matéria-prima, porque os antigos donos nos deixaram com o nome sujo na praça.
Qual é o trato com Chávez?
- É um negócio feito com profissionalismo e transparente. Nós estamos passando para a Venezuela tecnologia em construção de casas populares em PVC. Eles nos fornecem materia-prima que teríamos dificuldade de comprar aqui. Nossa fábrica já está montada lá e agora esperamos mais carregamentos para tocar a Cipla.
A estatização não vai contra a política econômica nacional?
- O momento da ocupação foi antes da primeira eleição do presidente Lula. Os trabalhadores botaram muita fé nele. As coisas começaram mal, mas conseguimos nos equilibrar e sobreviver até agora. São mil famílias numa luta histórica. Está na hora de o Estado reconhecer e respeitar isso, fazendo sua parte.

Tigre foge do mico de R$ 800 milhões

A quebra da fábrica Cipla que levou à ocupação pelos operários tem origem na cisão familiar do Grupo Hansen, cuja parte saudável forma hoje a Tubos e Conexões Tigre.
Em 1989, a Cipla, mãe da Tigre, foi separada do império. Ficou com a filha do fundador, Eliseth Hansen, e administrada pelo marido, Luís Batschauer.
Usando suas iniciais, o casal formou a HB. Na gestão dele o faturamento da empresa foi caindo de 200 milhões de dólares para 155, depois 116, 87, e, finalmente, apenas 70 milhões, em 1993.
No ano seguinte a HB pediu concordata, quando já devia 600 milhões de reais em impostos e encargos sociais, além de acossada por centenas de processos trabalhistas. O rombo hoje passa dos 800 milhões.
O marido foi preso, acusado de sonegação fiscal e evasão de divisas. A esposa pediu socorro à família rica, mas não obteve. Foi à Justiça contra os dois irmãos pedindo revisão da herança do patriarca João Hansen Junior, cujo resultado não foi possível apurar.
Um dos irmãos morreu, o outro vendeu sua parte e a Tigre acabou na mão de uma cunhada com quem Eliseth não se dava direito - o resultado é que a Tigre nunca quis assumir o mico de sua fábrica-mãe.
Pelos oito anos da concordata até a ocupação a Cipla foi encolhendo de quase 3 mil para os 1.070 operários que tem hoje.
Cada fim de mês era um parto pagar salários. Os equipamentos ficaram obsoletos e a produção caiu para 30%, sem falar do sufoco que era trabalhar com dezenas de credores batendo às portas todo dia.
Aperreado pelas dívidas, Batschauer tentou vender a fábrica para os operários. Quando eles se deram conta do tamanho do rombo recusaram a oferta.
O empresário então passou uma procuração para o Conselho de Fábrica, órgão formado por gente eleita em assembléia no pátio da firma - o povão.
Apostando que o Conselho levaria a empresa à falência em poucos meses, Batschauer recolheu-se a uma peça nos fundos da Cipla, com entrada independente, onde se manteve por quase dois anos torcendo pelo fracasso dos "despreparados".
A fábrica continuou funcionando. Contrariado, Bat, como era apelidado pela massa, quis cassar a procuração. Tentou vender tudo para um pastor adventista, querendo zerar as dívidas e retomar o patrimônio.
O Conselho de Fábrica descobriu que o pastor era procurado pela polícia e conseguiu que as autoridades o prendessem.
Injuriados com o golpe do ex-patrão, os operários passaram um cadeado no portão do escritório dele e nunca mais o deixaram entrar na sua Cipla.
E então ele simplesmente desistiu. Uma das figuras mais notáveis da cidade por quase duas décadas, Luís Batschauer está desaparecido da face de Joinville, de Santa Catarina e da Região Sul, quiçá do Brasil: seis detetives particulares estão no encalço dele sem sucesso há dois anos.
A fofoca da cidade é que o casal HB se divorciou para evitar que as dívidas dele respinguem nela quando e se ela conseguir um pedaço da Tigre na Justiça.
Se o divórcio saiu, nada até agora foi averbado na certidão de casamento deles, no cartório de registro civil da cidade, como deve acontecer nestes casos.
Tudo o que se sabe é que o outrora incensado gênio das finanças formado em administração na Universidade de Harvard ofereceu às editoras locais um livro intitulado A inadimplência idônea - sua tentativa de explicar como matou a mãe da Tigre, abriu aquele rombo, não pagou as dívidas e puxou apenas algumas semanas de cadeia.
A obra permanece inédita. E o autor, em local ignorado.

Dona Odete descobre Karl Marx

Renan Antunes de Oliveira De Joinville, especial para o JB

Teve gente que cresceu como gente, depois da ocupação. O maior exemplo é dona Odete Camargo, mãe de quatro filhos, jornada dupla casa/fábrica. Era do tipo cabeça baixa, bem na sua, só batendo cartão.
Vendo o agito, estudou economia capitalista num curso promovido na fábrica por militantes da Quarta Internacional. Foi fundo no capítulo do Manifesto Comunista de Karl Marx.
Diplomada, Odete concluiu que se entrasse na luta "nada teria a perder, a não ser grilhões". Agora, só trata os colegas por "camaradas".
Acabou eleita para o conselho que dirige a fábrica. E tem mais moleza em casa com a adoção da jornada de 30 horas semanais.
Na fábrica, ela divide o serviço na linha de produção com as reuniões do comando que decide as finanças.
Tudo ali é discutido nos mínimos detalhes. Os operários analisam a planilha como se fossem acionistas: "Se alguém vê alguma coisa que não gosta, reclama e discute na assembléia", diz Eni, auxiliar da administração.
Os quesitos mais expressivos do relatório são pendurados no mural da fábrica e podem ser questionados até pelos faxineiros. No mês passado, o faturamento foi R$ 3,5 milhões, abaixo do necessário - ninguém chiou.
Os trabalhadores vigiam os companheiros. Quando um dos líderes da primeira greve tentou se eternizar num cargo sem precisar trabalhar, foi demitido por mil votos a um, o dele. Ninguém queria o vagabundo na folha.
Quem paga boa parte dela é uma multinacional. A Mercedes-Benz garante quase R$ 500 mil mensais por várias peças e aquela famosa estrela dos veículos da marca.
Por isso, mesmo com toda turbulência, o pessoal sempre se esforça para manter o setor da estrelinha, virou xodó deles.
Um flash back de 2002: a Volvo também era cliente, mas cancelou seu contrato depois que soube que o comando da fábrica estava com o operariado. Mandou buscar os moldes das peças para trocar de fornecedor.
O Conselho não quis entregá-los. A assembléia apoiou a decisão. A Volvo então foi à Justiça, que mandou a polícia para a Cipla. Não adiantou: os operários se agarraram nos moldes. Aí a multinacional ajoelhou, com medo de parar em vários países por falta de peças: pagou R$ 500 mil, garantindo um Natal gordo no ano da ocupação.
Depois de quatro anos e meio sem patrão, a aventura ainda encanta o proletariado. Os capítulos da novela são acompanhados todos os dias pela rádio peão, o boca-a-boca nas fábricas de "Xoinfile", como pronunciam os descendentes alemães.
Por conta da experiência a Cipla virou pronto-socorro de crises. Quando trabalhadores de outras fábricas estão em dificuldades, pedem ajuda e know-how ao pessoal dela. Aí o comando despacha especialistas em manifestações e enfrentamentos, na teoria trotskista de exportar a revolução permanente.
No front interno, acabou aquela de corpo mole para escapar da exploração capitalista: "Sei que se não trabalhar serei eu o prejudicado", diz um operário. "Porque se a fábrica não é minha, o produto agora é".

Camaradas, leitores, amigos, liberais...
Este é um exemplo de que outro Brasil é possível, outro mundo é possível. Apesar de ter saído timidamente no Jornal do Brasil, a imprensa burguesa insiste em não publicar uma só linha sobre esta bem sucedida experiência comunista dentro de um país de alto potencial capitalista, segundo as expectativas de "G-20", "oitava economia do mundo"... E ainda assim, o operariado, por conta própria, de maneira leninlista, promove uma auto gestão. Imaginem todos os meios de produção (industrial, intelectual, artesanal) fazendo o mesmo. Imaginem trocarmos a ideia de riqueza individual pela ideia de riqueza coletiva. Imaginem a mudança radical da filosofia individualista que beneficia 1% da população pela filosofia coletivista de bem comum. A utopia marxista é possível. O Vozes da América agredece aos camaradas de Joinvile pelo exemplo.
"Ousar lutar, ousar vencer".

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sobre prostitutos e prostituições

Guapimirim, 2008.

Fazia um enorme calor na quarta-feira, enquanto vagava por Guapimirim e me surpreendia com cada armazém, com as casas de material de construção, com a única praça que expunha um papai Noel mecânico e epilético para as crianças que passavam sem admirá-lo.
A fim de gastar o tempo e almoço que ainda me incomodava, entrei numa barbearia, daquelas tradicionais, que se vê no subúrbio ou no interior, e esperei para ser atendido. Atento, ouvi uma conversa sobre a política local e me interessei. Um homem que cortava os cabelos, ao sentar já foi dizendo que seu cabelo era "ruim" num tom de brincadeira e o barbeiro, que lhe conhecia bem, puxou logo assunto sobre as eleições municipais do ano que vem.
O homem que desbastava sua já rala cabeleira desandou a falar mal do prefeito e de seus assessores, que já estava desiludido com política e que havia cansado de tentar disputar uma vaga para vereador desta pequena cidade sem alcançar sucesso. Até tudo indo. Até que, estimulado pelo responsável por sua estética capilar, começou a denunciar, ainda que sem querer, a podridão ética que nos encontramos. Disse que o salário de um vereador em Guapimirim é muito bom R$ 2.400,00, sem contar os adicionais - que confesso não ter entendido se estão dentro ou fora da legalidade - e que era um absurdo um vereador como fulano ter passado dois mandatos (ou seja 8 anos) e "não ter feito um patrimônio para sua família"!? Sobre a conivência concordata do seu interlocutor barbeiro, estava deflagrado ali, aos pés do pico do dedo de deus, a total ausência de ética com a coisa pública que tanto nos acostumamos a ouvir. Dois homens simples, que julgam ser pouco mais de dois mil reais um bom salário, exortando o desvio de dinheiro público para fins pessoais, valorizando vereadores que enriqueceram em um mandato e construíram imóveis e negócios que os seus salários não construiriam nunca. Engraçado como ninguém quer ser vereador para cuidar do bem coletivo, qual será a razão que nos leva a colocar o dinheiro acima do bem estar social?
Brasília. Eis uma das múltiplas explicações. O que assistimos no Senado da República é de uma melancolia atroz. Esta semana Renan Calheiros foi mais uma vez inocentado, mas não sem antes cumprir sua parte do acordo, renunciar de uma vez por todas a presidência da Casa. E aí sim, os senhores "homens bons" da república cumpriram sua parte na farsa.
O parlamento brasileiro é uma grande casa de prostituição, com uma ressalva honrosa: as mulheres e homens que vendem seus corpos por dinheiro, vendem somente os corpos e não a alma.

Grito da Terra, clamor dos povos

Por Frei Betto

Os gregos antigos já haviam percebido: Gaia, a Terra, é um organismo vivo. E dela somos frutos, gerados em 13,7 bilhões de anos de evolução. Porém, nos últimos 200 anos, não soubemos cuidar dela e a transformamos em mercadoria, da qual se procura obter o máximo de lucro.
Hoje, a Terra perdeu 30% de sua capacidade de autorregeneração. Somente através de intervenção humana ela poderá ser recuperada. Nada indica, contudo, que os governantes das nações mais ricas estejam conscientes disso. Tanto que sabotaram a Conferência Ecológica de Copenhague, em dezembro de 2009.
A Terra, que deve possuir alguma forma de inteligência, decidiu expressar seu grito de dor através do vulcão da Islândia, exalando a fumaça tóxica que impediu o tráfego aéreo na Europa Ocidental, causando prejuízo de US$ 1,7 bilhão.
Em reação ao fracasso de Copenhague, Evo Morales, presidente da Bolívia, convocou, para os dias 19 a 23 de abril, a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Esperavam-se duas mil pessoas. Chegaram 30 mil, provenientes de 129 países! O sistema hoteleiro da cidade entrou em colapso, muitos tiveram de se abrigar em quartéis.
A Bolívia é um caso singular no cenário mundial. Com 9 milhões de habitantes, é o único país plurinacional, pluricultural e pluriespiritual governado por indígenas. Aymaras e quéchuas têm com a natureza uma relação de alteridade e complementaridade. Olham-na como Pachamama, a Mãe Terra, e o Pai Cosmo.
Líderes indígenas e de movimentos sociais, especialistas em meio ambiente e dirigentes políticos, ao expressar o clamor dos povos, concluíram que a vida no Planeta não tem salvação se perseverar essa mentalidade produtivista-consumista que degrada a natureza. Inútil falar em mudança do clima se não houver mudança de sistema. O capitalismo é ontologicamente incompatível com o equilíbrio ecológico.
Todas as conferências no evento enfatizaram a importância do aprender com os povos indígenas, originários, o sumak kawsay, expressão quéchua que significa “vida em plenitude”. É preciso criar “outros mundos possíveis” onde se possa viver, não motivado pelo mito do progresso infindável, e sim com plena felicidade, em comunhão consigo, com os semelhantes, com a natureza e com Deus.
Hoje, todas as formas de vida no Planeta estão ameaçadas, inclusive a humana (2/3 da população mundial sobrevivem abaixo da linha da pobreza) e a própria Terra. Evitar a antecipação do Apocalipse exige questionar os mitos da modernidade - como mercado, desenvolvimento, Estado uninacional - todos baseados na razão instrumental.
A conferência de Cochabamba decidiu pela criação de um Tribunal Internacional de Justiça Climática, capaz de penalizar governos e empresas vilões, responsáveis pela catástrofe ambiental. Cresce em todo o mundo o número de migrantes por razões climáticas. É preciso, pois, conhecer e combater as causas estruturais do aquecimento global.
Urge desmercantilizar a vida, a água, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaciável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado (como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu).
Os povos originários sempre foram encarados por nós, cara-pálidas, como inimigos do progresso. Ora, é a nossa concepção de desenvolvimento que se opõe a eles, e ignora a sabedoria de quem faz do necessário o suficiente e jamais impede a reprodução das espécies vivas. Temos muito a aprender com aqueles que possuem outros paradigmas, outras formas de conhecimento, respeitam a diversidade de cosmovisões, sabem integrar o humano e a natureza, e praticam a ética da solidariedade.
Cochabamba é, agora, a Capital Ecológica Mundial. Sugeri ao presidente Evo Morales reeditar a conferência, a exemplo do Fórum Social Mundial, porém mantendo-a sempre na Bolívia, onde se desenrola um processo social e político genuíno, singular, em condições de sinalizar alternativas à atual crise da civilização hegemônica. O próximo evento ficou marcado para 2011.
Pena que o governo brasileiro não tenha dado a devida importância ao evento, nem enviado qualquer representante. A exceção foi o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), que representou a Câmara dos Deputados.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade (Agir), entre outros livros. http://www.freibetto.org