domingo, 10 de julho de 2011

Diga aí Cabral

"Governador Sérgio Cabral: minha solidariedade. Fora a perda de um filho, nada dói mais do que ver um filho sofrer. Tenho um que perdeu a namorada em acidente de carro. E foi ele quem encontrou o corpo.



O senhor fez bem em licenciar-se do cargo para ficar ao lado do seu filho. Pezão, o vice, dá conta do recado. É eficiente. Está acostumado.





Só não escale Pezão para responder perguntas que apenas ao senhor cabe responder. Não são poucas. E estão na boca das pessoas que ainda se preocupam com as parcerias público-privadas entre políticos, seus amigos e benfeitores.





Sou do tempo em que os políticos escondiam amantes, tesoureiros de campanha e empresários do peito.





Amantes ainda são mantidas à sombra – embora algumas delas, de um tempo para cá, tenham protagonizado barulhentos escândalos. Outras morrem sem abrir o bico.





Tesoureiros? Esses se expõem ao sol sem o menor pudor. São reconhecidos em toda parte. E fingem que abdicaram de cometer antigos pecados. Pois sim! Acredite...





Quanto a empresários do peito... Liberou geral.





Direto ao ponto: por que o senhor viajou a Porto Seguro, acompanhado de parentes, em jatinho cedido por Eike Batista, dono de muitos negócios que dependem do interesse ou da boa vontade do governo do Rio de Janeiro?





Foi o senhor que pediu o jatinho emprestado? Foi Eike quem ofereceu? Se ele ofereceu como soube que o senhor precisava de um?





Há vôos comerciais diários para Porto Seguro. Por que não embarcou em um deles pagando do próprio bolso a sua passagem e as de seus familiares?





O jato de Eike decolou com o senhor do aeroporto Santos Dumont às 17h da última sexta-feira dia 17. O vôo 3917 da TAM decolou antes – às 10h15. Nele, o senhor teria chegado ao seu destino às 14h16.





Não considera indecoroso viajar a custa de um empresário que em 2010 doou para sua campanha R$ 750 mil? Um empresário beneficiado por isenções concedidas por seu governo?





Foi por isso que sua assessoria, no primeiro momento, negou que o senhor tivesse voado para Porto Seguro? Foi por isso que o senhor preferiu voltar em um jatinho alugado por seu governo?





Se a autoridade máxima de um Estado pede ou aceita favores de empresários não será compreensível que seus secretários também aceitem, igualmente os subsecretários, chefes de gabinetes, chefes de repartições – e assim por diante?





Que diferença existe entre um agrado feito com dinheiro e outro com gasolina e conforto?





O que o levou a Porto Seguro foi a comemoração de mais um aniversário do empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta Construções, cujos contratos abocanhados para obras durante seu governo valem em torno de R$ 1 bilhão. Somente no ano passado a Delta ganhou 18 contratos – 13 deles sem licitação.





Em momento algum o senhor imaginou que não pegaria bem comparecer a um evento promovido por quem tanto lhe deve?





Um homem público não deveria saber distinguir entre prestadores de serviços ao Estado e amigos pessoais? A mistura do público com o privado não acabaria por causar sérios danos à sua imagem?





Quem acreditará que Cabral, amigo de Cavendish, nada tem a ver com Cabral, governador do Rio e cliente de Cavendish?





E onde mesmo seria a festa de aniversário do empresário? No Jacumã Ocean Resort, de propriedade do piloto Marcelo Mattoso de Almeida – um ex-doleiro acusado de fraude cambial há 15 anos.





Marcelo foi dono da empresa First Class, acusada de ter cometido crime ambiental na praia do Iguaçu, na Ilha Grande, em Angra dos Reis.





Sinto muito, governador, mas é com esse tipo de gente que o senhor anda? É a esse tipo de gente que o senhor não se constrange em ficar devendo favores?





Eike Batista disse que cedeu seu jatinho ao senhor com “satisfação” e “orgulho”. E que é livre para selecionar suas amizades.





Lembrou-me a rainha francesa Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, mandando o povo comer brioches às vésperas da revolução que a guilhotinou.





Se quiser ser levado a sério, o homem público que deve seu mandato ao povo está proibido de desfrutar do mesmo grau de liberdade.





Reflita com calma a respeito, Cabral. E não deixe uma só dessas perguntas sem resposta".





Ricardo Noblat.





Em tempo: O vozesdaamerica está pubicando aqui uma matéria do Jornalista Ricardo Noblat direto de seu blog.

domingo, 29 de maio de 2011

POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?

POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?

DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA

Marcos Bagno

Universidade de Brasília

www.marcosbagno.com.br

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua. Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela — devidamente fossilizada e conservada em formol — que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles — se julgarem pertinente, adequado e necessário — possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?



sábado, 7 de maio de 2011

Ditadura Militar no Brasil (1964 - 85)


Cap. 1 - Questões internas



- Como vamos começar o trabalho? - perguntou Bia juntando suas folhas.


- Humm, acho que com uma introdução de como a Ditadura teve início. - Júlia disse.


- Tá, pode ser. Você fala e eu anoto. - sorriu.


- Você não sabe como começar não é Bia? - Júlia lançou um olhar de total rejeição para Bia. - Muito bem.. Essa história toda começa quando Jânio renuncia e Jango assume o poder. Como Jango era populista e de esquerda, preocupava aos conservadores brasileiros, como a elite, a igreja, etc; que o presidente fizesse alguma coisa muito drástica. Por isso, já indignados com as propostas de Jango, como as de reformas de base, os conservadores organizaram uma manifestação chamada "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", contra Jango. O governo de Jango se encontrava em um momento tenso e crítico, e no dia 31 de março, tudo isso explodiu. Quando as tropas de Minas e de São Paulo foram para as ruas, Jango saiu do país para evitar uma guerra e isso fez com que os militares assumissem o poder.


- Tá. Então foi isso que gerou o início da Ditadura.


- É. Você pediu pro senhor Sergio contar sobre a ditadura? - perguntou Júlia.


- Aham. Eu filmei tudinho. Toma. - Bia entregou um DVD para Júlia. Elas colocaram a gravação para rodar [...]



- Pronto! Já está gravando. - Bia se sentou no sofá que estava em frente à poltrona em que Sergio estava sentado. - Pode começar.


- Tudo bem... - começou Sergio. Ele tinha a voz rouca e desgastada, o que provava que já a tinha usado muito, e que também era bem velho. Além disso, Sergio era cego de um olho. - Eu nasci em 1943. No ano de 1964, quando a ditadura começou, eu tinha 19 anos. O primeiro militar a assumir o poder foi.. O Castelo Branco.


"A data em que os militares chegaram ao poder é dita como dia 31 de março. Mas eu me lembro.. Eu me lembro que nesse dia, as pessoas ainda estavam caminhando sobre a tênue linha que decidiria seus destinos. E eu me lembro, que foi somente no dia 1º de abril, que essa linha foi cortada.


Para a classe média, aquele foi um dia de festa. Pessoas se abraçavam, choravam e bebiam nos bares, comemorando aliviadas o "fim da desordem".


Mas as pessoas simples, trabalhadores que suavam a camisa para conseguir o pão de cada dia.. Esses estavam com medo. Medo pelo que teriam de encarar dali para frente. E meus pais eram um deles..


Naquele tempo de ditadura, os militares eram diferenciados entre Linha Dura e Linha Moderada. Castelo foi um dos considerados linha moderada. Durante o governo dele, ocorreram várias cassações políticas. Os soldados prendiam milhares de pessoas, dentre elas; intelectuais, professores, alunos, jornalistas e até mesmo ex-presidentes como JK e Jango. Outra figura muito importante na época que foi cassada foi Luíz Carlos Prestes e claro, todos os comunistas. A ordem era silenciar toda e qualquer oposição ao regime militar. Tudo isso, com o total apoio das classes conservadores, inclusive da Igreja.


Com a ditadura, veio também a necessidade de criar novos meios de comandar o país. E isso gerou o nascimento dos Atos Institucionais. O primeiro deles, o AI-1 pôs um fim nas eleições para Presidência e para Governadores, tornando-as indiretas; além disso houve o fim das eleições para prefeitos de cidades estratégicas, porque assim ficava mais fácil para os militares controlarem essas cidades mais importantes, o poder de fechar a qualquer momento que o Congresso Nacional e o fim do pluripartidarismo."


- O fim do pluripartidarismo seria... - Bia interrompeu.


- Depois que os militares tinham feito as cassações políticas de "limpeza", só dois partidos, vamos dizer assim, restaram. Um deles era a ARENA e o outro o MDB, que era um tipo de oposição permitida. Ou seja, eles não representavam nenhum tipo de perigo para os militares.


- Ahhh, entendi. Ok, pode continuar. - Bia afirmou.


- Certo.. Também existiam as censuras. Censuras eram o meio que a ditadura tinha de filtrar as coisas que queriam falar mal dela. Tudo que pudesse difamar o governo de alguma forma, era censurado na hora. Mas, ainda no governo de Castelo, essa censura era mais branda e amadora. Depois, ela fica bem pior...


"Quando não era mais interessante que Médici, um linha moderada, ficasse no poder, ele foi retirado e em seu lugar entrou Costa e Silva, que era um linha dura.


No governo de Costa e Silva, a violência cresceu e consequentemente as prisões, torturas e mortes também se tornaram mais frequentes. Uma das maiores atrocidades cometida durante o governo dele, foi o caso do Édson Luís..


Eu estava lá naquele dia. Estávamos todos comendo calmamente no Calabouço, um restaurante frequentado por estudantes, quando os militares entraram. Estavam fazendo uma procura por, comunistas e pessoas suspeitas. Todos eles estavam armados e nos mandaram fazer silêncio. Claro que o pânico tomou conta do ambiente. Édson Luís era um estudante, assim como eu e meus amigos. Eu sabia dizer que o garoto era novo ali, porque a maioria dos rostos que vemos todos os dias, guardamos. O dele não, o dele era novidade. E foi justo com ele que aconteceu: No momento em que os militares entraram, Édson Luís se assustou e deu um pulo pra se levantar. Quando ele se levantou, um dos militares, que parecia tenso e despreparado, se assustou também..." - Os olhos de Sergio adquiriram um brilho diferente. Uma tristeza que não podia ser definida. Aquela, era a tristeza de uma pessoa que tinha presenciado uma morte inesperada. Naquela época, matar um jovem não era comum. Era algo berrante. - E quando o soldado se assustou.. Ele atirou no garoto, o Édson Luís...


- .... - Bia ficou alguns segundos em silêncio - E... O que aconteceu.. Depois..? - Ela perguntou incentivando Sergio a falar já que parecia que ele estava preso as lembranças do passado.


- Todos ficaram paralizados. Ninguém teve uma reação. Nem nós, nem os militares. Estávamos surpresos e espantados demais por termos visto o assassinato de um jovem completamente inocente. - O brilho nos olhos de Sergio mudaram de triste para indignados e raivosos - Mas nós protestamos. Nós fizemos o possível para que a morte daquele garoto, fosse reconhecida como um absurdo. E que os militares entendessem que isso tinha que parar.


"Mas... reação gera reação. Na missa do 7º dia na catedral da Candelária, os militares tiveram sua vingança. No meio da missa, começou a se ouvir o andar de cavalos. Muitos cavalos. E depois mais um barulho aqui e ali, cada vez mais perto da Candelária. Nisso, o padre interrompeu a missa e pediu para que todos se retirassem com calma porque o óbvio estava provado: eles estavam cercados. Quando o padre saiu, seguido de várias outras pessoas, ele percebeu que não tinha escapatória. A saída tinha sido fechada num caminho em V e as pessoas só conseguiriam passar por ali. A cada grupo de pessoas que saíam, um grupo de militares ia lá para puni-los. E nisso valia tudo. Chutes, pisões, pedradas, tiros.. Tudo. Foi uma confusão terrível. Eu não estava lá naquele dia, mas eu soube apenas pelas histórias e comentários de uns amigos, e pelo cadáver de outros...


E de novo, reação gera reação. Se os militares foram mais violentos, os jovens também responderiam com mais violência ainda. E foi o que fizemos. No episódio que ficou conhecido como Sangrento, estudantes fizeram uma manifestação que terminou com muitas mortes, feridos, presos e viaturas da polícia incendiadas.


Depois de tanta confusão por causa desse episódio, os militares acabaram permitindo que os estudantes fizessem uma manifestação. Essa manifestação foi chamada de Passeata dos Cem Mil por ter sido uma das maiores manifestações da história brasileira. A passeata foi organizada pela UNE, mas contou também com diferentes tipos de pessoas como artistas, intelectuais, etc.


Os militares estavam numa situação crítica e se aquilo continuasse, eles iam acabar perdendo o controle da situação. Se é que eles ainda tinham algum.


Mas nem mesmo com todas essas manifestações e insatisfações populares, os militares pararam. Pelo contrário, eles só ficaram ainda piores. As passeatas e os jovens "desordeiros" seriam silenciados diretamente com as armas de fogo. Não importava o quanto fosse tenebroso ou quantas mortes fossem ser causadas, o importante era, mais uma vez, silenciar toda e qualquer oposição.


Mas os militares precisavam de uma desculpa para lançar sua cartada final. E para isso, utilizaram o caso do discurso de um deputado do MDB, que recomendou que as mulheres não namorassem, casassem ou sequer se relacionassem com militares que estavam envolvidos com as atrocidades da ditadura.


Tendo o caso como pretexto, no dia 13 de dezembro de 1968, que por sinal era uma sexta-feira, o Ato Institucional nº 5, o AI-5, saiu. Ele foi um dos piores métodos de repressão já lançados. Com o AI-5, o militar que estivesse no poder poderia fazer quase qualquer coisa que quisesse, na hora que quisesse. Dentre as várias outras coisas, o AI-5 trouxe consigo: O fim do habeas corpus, suspensão dos direitos e liberdades individuais, poder de invadir casas e prender pessoas sem ter mandatos, a pena de morte, etc.


Quando Costa e Silva saiu do poder por causa de toda a crise política gerada por seu governo, Médici, outro linha dura, assume.


Se a ditadura já era ruim antes, imagina isso em dobro agora.”


- Pôôô! Em dobro?! - Bia se espantou - Tem coisa pior do que o que já aconteceu??


- As pessoas achavam que não, que tudo aquilo já tinha sido demais. Mas os militares conseguiram achar uma forma de piorar. E no caso de Médici foi o que aconteceu. Ele usou muito o AI-5, o que fez da vida das pessoas um caos total. Além disso, as censuras, antes amadoras e brandas, agora eram mais profissionais, qualificadas e claro, mais insuportáveis.


“Com isso, os intelectuais, artistas e outras pessoas contra a ditadura, tiveram que qualificar ainda mais os seus métodos de 'bater na ditadura'. As metáforas se tornaram mais complexas e o duplo sentido das coisas, mais escondido.


A partir daí também começaram algumas medidas para distrair o povo e desviar a atenção da ditadura, para o entretenimento. A Copa do mundo de 70 foi um exemplo disso. Uma das melhores seleções. Quando o Brasil ganhou a copa, a euforia foi grande.


Outra coisa que fez relativo sucesso naquela época e que servia como meio para alienar as pessoas, eram as músicas produzidas pela jovem guarda. Inclusive, tiveram grupos de pessoas que tentaram combater a alienação que essas músicas proporcionavam.


Além disso, também se criou a pornochanchada que descobriu alguns atores e atrizes que estão na fama desde aquele tempo. A pornochanchada também era outro modo de desviar a atenção do povo e aliená-los.


Apesar disso a resistência, até por meio da luta armada, não deixava de acontecer. As pessoas sentiam a repressão. E, principalmente os jovens, lutavam contra ela.


Existiam dois grupos diferentes que lutavam contra a repressão da ditadura militar. Aqueles que pegavam em armas, e aqueles que usavam a 'Luta Cultural', dando porrada na ditadura por meio da música, da poesia, da arte, do teatro, do cinema, etc. Os festivais eram bem populares e eram onde grandes pensadores e artistas mostravam suas obras. A MPB e o Samba eram bastante usados para lutar contra a ditadura também.


Em 1974, Costa e Silva foi substituído por Geisel. Apesar de ser considerado um Linha moderada, Geisel fez uso do AI-5 e por isso, também tinha alguma coisa de linha dura.


Surpreendentemente, o MDB, começou a ganhar muitos votos e a representar um perigo para a Arena. Isso porque durante as propagandas políticas do MDB, os candidatos em vez de fazer sua propaganda política, cantavam músicas, por exemplo. Não uma música qualquer. Músicas que eram usadas na Luta Cultural. E o que começou a acontecer foi que, quem entendia, votava no MDB. Desse jeito, eles foram ganhando muito mais atenção, tanto dos eleitores, quanto da Arena.


E foi aí que Geisel intercedeu, fazendo uso do AI-5, criando a Lei Falcão. Essa lei dizia que durante as propagandas políticas, os candidatos não poderiam.. Fazer sua propaganda política. Uma foto 3x4 do candidato seria mostrada e suas propostas, seriam lidas por um locutor. Isso, claro, foi uma armação. A propaganda eleitoral se tornava chata e maçante, por isso, as pessoas paravam de prestar atenção depois de algum tempo. A armação foi: Todos os candidatos pertencentes à Arena eram colocados primeiro e só no final, quando já não tinha mais ninguém prestando atenção, mostravam-se os candidatos do MDB.


Depois da Lei Falcão, Geisel utilizou novamente o AI-5 e lançou o Pacote de Abril que determinava que a Constituição poderia ser alterada com apenas metade dos votos dos participantes do Congresso e que parte dos senadores passariam a ser escolhidos indiretamente pelas Assembléias Legislativas. Com isso, a Arena ganhou grande vantagem e já tinha sua vitória contra o MDB, garantida.


E em 1978, Geisel decretou o fim do AI-5, principal motivo pelo qual ficou conhecido como linha moderada, e o que causou um alívio geral muito grande. Se ver livre do AI-5, um dos maiores causadores de repressões e medo, era uma felicidade.


Depois do fim do AI-5 e com a saída de Geisel do poder, Figueiredo, em 1979, assumiu o governo.


Ele era linha moderada, e era um presidente muito polêmico. Eu me lembro que ele dizia que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo.."


- Que pessoa bizarra.. - comentou Bia. - E o que aconteceu durante o governo de Figueiredo?


- Ele criou a Lei da Anistia que permitia que políticos, artistas e outros brasileiros exilados, retornassem ao Brasil. Já os militares de Linha Dura continuavam querendo a repressão. E fizeram uma contra-ofensiva: lançaram uma bomba no Rio Centro e colocaram cartas-bombas em órgãos como a OAB, entre outras coisas.


“Naqueles últimos anos da ditadura, grande parte da população fez parte da campanha das 'Diretas Já!' em que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano.


Mesmo com toda a euforia, a campanha não foi aprovada e as pessoas ficaram decepcionadas.


Mesmo assim, depois da última eleição indireta, a ditadura finalmente teve um fim."


- Nossa... - Bia suspirou - Ainda bem que as coisas se ajeitaram e a ditadura acabou.


Sergio balançou a cabeça lentamente em forma de negação. - Engano seu. A ditadura pode até ter acabado, mas as coisas jamais se ajeitarão. Vão ficar pra sempre marcada nas almas daqueles que já morreram, e no corpo e coração de quem ainda vive. As cicatrizes da ditadura são tão grandes, que nada parece poder curá-las. - Sergio completou com aquele olhar distante.




Cap. 2 - Questões externas



- Caham - Júlia pigarreou - Então está bem. Só o que falta é vermos qual era a situação externa enquanto a ditadura ocorria aqui.


- Sim. Vamos lá. - Bia se levantou e pegou algumas coisas em seu caderno. As duas estavam estranhamente quietas. A ditadura nunca vai poder ser apagada da memória das pessoas. Foi um período tão tenebroso que não tem mais volta. Isso foi o que Sergio tinha dito. E isso era a verdade que ninguém conseguia não perceber.


- Aqui está Bia. - entregou um papel pra ela - Lê em voz alta.


- Durante o governo de Costa e Silva, os EUA deram um apoio consolidado à ditadura militar. Depois da ameaça de ter o país quase governado por Jango, que poderia levar o Brasil para o lado dos comunistas; era favorável para os americanos bancarem a ditadura para ter um maior controle sobre a situação. Com a Guerra Fria, os EUA não podiam arriscar perder mais algum país, principalmente os que mais chamavam a atenção dele na América, para o socialismo.


"Quando Geisel deixou o poder, os EUA já não estavam mais bancando a ditadura aqui na América. E isso foi um dos fatores determinantes para maiores crises surgirem. Naquele momento, os olhos dos americanos estavam focados no Oriente Médio, por causa do Petróleo e da crise mundial que estava acontecendo em volta dele.


Dessa forma, não só a ditadura no Brasil enfraqueceu, como também todas aquelas que estavam na América Latina e que tiveram o apoio dos EUA, retirados."


- Okay, é isso.


- Terminamos certo?! - perguntou Bia.


- Sim. Agora junta tudo e põe na mochila. Amanhã a gente entrega pro professor.


Nacional:


Era dia 1º de abril de 1964, todos os jornais anunciavam: Humberto Castelo Branco assume o governo, João Goulart perde o poder para os militares. Estava começando ali a ditadura militar. Um golpe covarde, pensei. Tomar o poder dessa maneira. Roubar covardemente o poder de um covarde. Tivessem feito isso com Getúlio, isso sim seria uma surpresa. Pouco sabia eu que esse ato de covardia ainda me surpreenderia muito.


O novo presidente diria futuramente que aquilo era apenas uma ditadura temporária, que brevemente teríamos novas eleições. Não vi o temporária da ditadura e nem o breve das eleições. A partir daquele momento se seguiriam longos 21 anos de repressão, torturas, mãos calando bocas, jovens criando novas bocas para falar. A partir daquele momento se seguiram, talvez, os 21 anos mais turbulentos da história do Brasil república.


Admito que não sabia se Castelo Branco havia mentido por mal. Não sabia nem se ele mesmo sabia do monstro que estava se criando em suas costas. Talvez Castelo Branco fosse só um boneco controlado por algo mais poderoso, assim como muitos outros que assumiriam depois dele. A verdade é que de nada sabia. Eu era apenas mais um jovem, no auge dos meus 20 anos, que nem sabia se algo mudaria. Acreditem: mudou.


O governo de Castelo Branco foi relativamente tranquilo se comparado ao que viria a seguir. Foi um dos chamados "linha moderada" da ditadura. Durou 3 anos, mais do que o próprio achava que duraria. Naquela época ainda não existia uma censura tão rigorosa, mas para não deixar nada mal entendido, enfatizo o relativo que botei antes do tranquilo. Nenhum momento da ditadura foi tranquilo, principalmente para os jovens, como eu, da UNE (união nacional dos estudantes, para os poucos conhecedores de nossa história) .


A UNE, onde jovens tinham ideias sempre saltando, onde o desejo de mudar o mundo era sempre crescente e onde aceitar não era uma palavra bem vinda, essa UNE, lutava ativamente contra a ditadura. Receber algo imposto, para nós que tínhamos acabado de conquistar a "liberdade" era completamente inadmissível. Nós lutávamos, íamos às ruas , GRITÁVAMOS, queríamos o que era nosso por direito, queríamos reinventar o nosso direito. O problema é que naquela época reinventar não era permitido. Lutar não era permitido. Naquela época, nós não éramos permitidos. Fomos perseguidos. E além de nós muitos outros foram. Uma espécie de limpeza do comunismo na política. Personalidades como JK, Jânio, Brizola e Prestes foram incansavelmente cassados.


Mas não parava por ai. Castelo Branco fez questão de ir um pouco mais além. Criou 4 atos institucionais (AIs) que introduziam o Brasil no terror que estava por vir. Esses atos declaravam o fim das eleições para presidente, governadores e prefeitos de cidades estratégicas, davam ao presidente o poder de fechar o Congresso Nacional e acabavam com o pluripartidarismo, iniciando o bipartidarismo, onde a oposição perdia todo o seu poder. De um lado estava o partido da situação, dos militares, a ARENA. Do outro estava a RIDICULA oposição consentida, o MDB.


Mas parece que Castelo Branco não estava agradando. Os militares aplicaram um golpe contra seu próprio presidente. Em 1967 Castello Branco saia do poder e entrava Costa e Silva.


Se Castelo Branco pudesse ser chamado de ruim pelo que fez seu sucessor Costa e Silva não tinha adjetivos. Era a própria encarnação do terror. Parece que Castelo Branco não estava satisfazendo com toda essa sua "bondade" (que por sinal só os militares viam). Parece que eles queriam alguém mais rigoroso. Pois bem: conseguiram, e de brinde levaram várias revoltas. Junto com a entrada de Costa e Silva, iniciava-se a "linha dura" da ditadura.


As revoltas, claro, foram 98% por culpa deles. Levando em conta que em março de 1968 um estudante foi morto sem motivo nenhum em pleno refeitório, posso afirmar que para os protestos não faltava motivo.


Esse estudante morto era Édson Luis, vindo do Nordeste para buscar melhor educação. Ele só queria oportunidades como nós tínhamos. Pouco ele sabia do que rolava aqui no Rio, de todas essas perseguições. Em um dia comum, indo almoçar, como ele iria pensar que o refeitório iria ser invadido por policiais. Nenhum de nós imaginaríamos. Édson não saberia como agir em uma situação dessas. Nunca teria nem se imaginado em uma situação dessas. Pois é, Édson não soube agir. E sua "atitude suspeita", ou talvez até falta de atitude, aliada a falta de experiência de um jovem policial, levaram à sua morte, e ao inicio de uma época de revoltas, mortes, mortes, mais mortes. Os estudantes estavam começando a pegar em armas.


O primeiro sinal de protesto ao caminho que a ditadura estava tomando foi a missa de 7º dia de Édson na igreja da Candelária, onde eu, como muitos outros estudantes da UNE, estava presente. O lugar estava lotado, abarrotado de gente chocada, revoltada, inconformada. Por todo o lado se viam cartazes dizendo: "Bala mata fome?", "Os velhos no poder, os jovens no caixão" e "Mataram um estudante. E se fosse seu filho?". O clima era de revolta. A missa foi realizada tranquilamente, algo que me pareceu estranho. A estranheza durou pouco. Assim que começamos a sair da igreja vimos que os militares começaram a formar um corredor, como um funil. "Recuem, recuem aqui ninguém passa!" Era isso que ouvíamos. Quando chegávamos ao seu final a maioria de nós era agredido. O saldo de feridos foi gigante. Via meus braços sangrando, via meus amigos apanhando e não sabia o que fazer. Parece que nenhum deles sabia também. Pensei apenas em sair rapidamente dali. Naquele dia nós nos revoltávamos, mas ainda éramos poucos, ainda éramos NADA.


Voltamos para casa com sede de vingança. Fazíamos curativos pensando na hora de refazê-los. Queríamos SIM ir a luta, queríamos SIM ir às ruas, queríamos SIM ter voz.


Em uma sexta fomos as ruas. Na mesma sexta, sujamos as ruas. Mais uma tentativa de protesto foi controlada. Controlada, acabada, morta, como você preferir. O sangue de muitos de nós que fomos às ruas protestar ficou na rua. "Lavou as ruas ". A sexta-feira Sangrenta mostrou que os militares não estavam ali para brincar. Nós queríamos mostrar que também não estávamos. Queríamos afastar de vez esse CALE-SE que teimava em reinar no pais.


É certo que muita gente não enxergava a situação do Brasil. É certo que muita gente preferia se iludir por meio da nojenta mídia de musicas, filmes e artes babacas que rolavam por ai. É certo que muita gente queria aceitar que aquilo era bom. É certo que muita gente se deixava iludir. Era certo para nós, mostrar que os cegos não eram maioria. Queríamos mostrar, que ainda tinha gente ai querendo enxergar. E querer, para nós, significava poder, custasse o que custasse.


No dia 26 de junho de 1968, as 14h, fomos novamente as ruas, em um protesto que havia sido consentido, talvez por culpa dos corpos que caíram mortos na sexta-feira sangrenta. O protesto foi vigiado por mais de 10mil policiais e contava com a presença de artistas, religiosos e intelectuais, personalidades raramente vistas nesses eventos. Antes do protesto começar nosso líder Vladimir Palmeira falou para todos:


"Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a Policia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a policia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo."


Iniciamos o protesto com 50 mil pessoas, mas o número rapidamente se duplicou. Vínhamos todos pelas ruas, impondo respeito. Paramos em frente a candelária para lembrar de Édson Luis. Ouvimos novamente belas palavras de nosso líder.


"Este lugar tem um significado muito grande para nós. Na missa de Édson, foi aqui que fomos violentamente reprimidos. Hoje o panorama é diferente. Prova de que a potencialidade de luta popular é maior do que as forças da repressão. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retomar a praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam."


Seguíamos pelas ruas carregando nossa grande faixa: "Abaixo a Ditadura. O Povo no poder". Estávamos sentindo que finalmente, tínhamos alguma voz. Passavam das cinco da tarde quando queimamos uma bandeira americana em frente do Palácio Tiradentes. Ali mesmo Vladimir retomou a palavra para encerrar a manifestação num tom de advertência, dizendo:


"Voltaremos sempre para exigir nossos direitos. Pacificamente, se não formos reprimidos pela Polícia. Agressivamente, se tentarem nos agredir, como fizeram algumas vezes.”


Ao fim do protesto dois lideres estudantis foram falar com o presidente, pedindo a liberação dos estudantes presos e o fim da censura. Uma grande ousadia, que não levou a nada. No dia 2 de agosto, nosso líder, Vladimir Palmeira foi preso. Logo em seguida, outros 650 estudantes foram para a cadeia. No dia 4 mais 300 alunos foram detidos em São Paulo. Nesse mesmo mês, o governo militar proibiu qualquer manifestação pública no país, o que gerou a prisão e mortes de vários outros estudantes. Nesse momento, comecei a pensar comigo mesmo e com meus colegas: Até onde isso iria?



Não precisamos pensar muito. Logo não iria mais a lugar nenhum. Já tínhamos chegado. Como aumento da repressão foi criado o AI5 .


O AI5 era chamado por muitos como o mais terrível dos AIs, e tinha motivos para ser chamado assim. Esse ato tirava todos os nossos direitos, toda a nossa privacidade. Esse ato tirava tudo de nosso que ainda podíamos ter. Nem nós éramos nossos. Não tínhamos mais identidade, éramos o que queriam que fossemos. O problema era que nós também queríamos ser.


O AI5 além de nos retirar todos os direitos civis e liberdades individuais, permitindo que a qualquer hora nossas casas fossem invadidas, nossas mochilas revistadas, nossos corpos botados dentro de celas sem motivos aparentes, também introduzia no Brasil a pena de morte e o fim do habeas corpus.


O AI5 levou nossas reuniões para a clandestinidade, deixou nossa revolta escondida em versos de música, deixou nossos sussurros cada vez mais baixos. Como o bom Chico Buarque diria : "O que será, que será ?" . Ninguém sabia o que era. Ninguém sabia mais nada. Os que soubessem, estavam presos, estavam mortos, estavam torturados. Todos estávamos, todos ouvíamos, todos entendíamos, mas ninguém sabia de nada.


No fim de 1969 Costa e Silva deixava o poder, motivo de felicidade para uns mas de preocupação para muitos outros, afinal, não sabíamos se o que viria depois seria melhor ou pior. Na época, deixaram como motivo para a renuncia uma suposta doença do presidente, mas muitos de nós, estudantes da UNE, que tínhamos uma pequena noção do que se rolava dentro das entranhas da ditadura, suspeitávamos que o real motivo eram intrigas que estavam rolando entre o presidente e seu vice, que era um civil.


Costa e Silva foi substituído temporariamente por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica). Um trio de militares nojentos.


Obviamente nós, da oposição, não gostamos da entrada desses 3 militares no poder e, a oposição armada rapidamente armou um "protesto" contra essa situação.


Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência que foi aceita.


Porém, como um vingança, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional que decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". Estávamos cada vez mais presos.


No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo. Estávamos todos sendo perseguidos




O motivo da preocupação, antes mencionado, foi concretizado e os grupos mais ligados à chamada “linha dura” acabaram aprovando o nome de Emílio Garrastazu Médici, para ser o novo presidente do Brasil, substituindo a junta militar, que não ficou no poder nem por 2 meses .


Médici extrapolou em todos os sentidos . Ficou 5 anos no poder, anos esses que pareciam intermináveis, anos esses que ficaram conhecidos como "anos de chumbo". Usou de maneira demasiada o AI5 e tornou a censura e a repressão mais "profissionais", mais "apuradas". Criou aparelhos de repressão. Todas essas medidas começaram a obrigar os músicos, poetas e escritores a se apoiarem cada vez mais em metáforas, tornando as mensagens cada vez mais ocultas. As poucas reuniões de estudantes que ainda existiam eram feitas em total sigilo. Não se sabia mais quem era ninguém dentro daqueles quartos de reunião. A maioria dos nossos lideres tinham sido cassados. A maioria de nós estavam presos, sendo torturados, exilados, ou até mortos. Eu e meu grupo de companheiros tivemos sorte em não sermos pegos junto aos outros. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores estavam sendo constantemente investigados, presos, torturados ou exilados do país.


Na época de Médici aconteceu também uma grande tentativa de alienação. As mídias exibiam para o povo desinformado uma falsa sensação de felicidade com a vitória do Brasil na copa de 70, fato que só fazia a maioria esquecer da situação nacional. Exibiam também programas como o da Jovem Guarda, que passavam para o público uma música oca, sem sentido, sem mensagem, uma música "POP". Redes como a Record e a Rede Globo, que andavam de mãos dadas com a ditadura, controlavam o que chegava ao povo, e faziam questão de que tudo que chegasse passasse uma imagem boa da ditadura. Até a pornochanchada, um filme pornô misturado como comédia, foi usada para a distração do publico.


Mas quem acha que nós nos calaríamos em relação a isso estava completamente enganado. Rapidamente começamos a travar uma luta armada, por meio, por exemplo, da ação popular, que antes começara moderada, mas que com o passar do tempo acabou vendo que a luta armada estava se tornando necessária, da POLOP (organização de esquerda da Política Operária), do MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro) e do Var-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Além disso, travávamos também lutas culturais, na música por meio dos Festivais, que ressaltavam o poder da MPB e do Samba, que traziam grandes compositores como Vandré e Chico Buarque, grandes críticos da ditadura, que chegaram até a serem perseguidos, presos e exilados do pais. No teatro criamos o Teatro do Oprimido, o teatro opinião e o teatro arena. No cinema, nossos protestos vinham por meio do Cinema Novo. Tentávamos atacar a censura por todos os cantos, tentávamos mostrar cada vez mais nossa revolta e ao mesmo tempo tentávamos cada vez mais nos esconder. Vivíamos uma das épocas mais complicadas da ditadura, mas que graças a todas essas complicações nos rendeu ótimos frutos no meio artístico.


Após esses 5 longos anos sob o Governo do Presidente Médici, em 1974, assumia o presidente Ernesto Geisel que começou um lento processo de transição rumo à democracia. E bote lento nesse processo.



Sob o governo de Geisel a economia brasileira chegou ao seu ponto mais critico. O preço dos alimentos estava altíssimo, nós reclamávamos cada vez mais por ter que pagar preços absurdos pela alimentação básica.



Mas mesmo em meio a tantas crises foi no governo de Geisel em que nós opositores finalmente conseguimos conquistar espaço dentro da política. Nas eleições de 1974, nosso partido, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Estávamos mostrando para Geisel e para quem quisesse ver que juntos podíamos ganhar poder.


O problema começou quando começaram a ver força demais nas nossas conquistas. Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, que propunha uma ditadura mais leve, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Alguns de nossos membros e de nossos principais líderes foram assassinados. A situação que parecia melhor mostrou que estava apenas mais calma, e que se precisasse, se revoltava, como um mar em ressaca.


O mar quis ficar calmo daquela vez. O mar quis ficar calmo por bastante tempo. Em 1978, Geisel acabou com o AI-5 e abriu caminho para a volta da democracia no Brasil. Abriu caminho para a esperança. O grande aumento da oposição e as vitórias do MDB nas eleições levaram a redemocratização a acontecer de maneira cada vez mais rápida.


Em 1979 assumiu o governo no lugar de Geisel o presidente "eu amo cavalos" Figueiredo. O ultimo presidente da ditadura militar foi um presidente extremamente polêmico. Chegou a dizer publicamente que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo e que quem não aceitasse a democracia era preso e "arrebentado".


O governo do general Figueiredo foi marcado por uma enorme crise econômica pelo processo de reabertura política do país. Uma das principais medidas tomadas por esse novo governo foi abolir o sistema bipartidário, voltando com o antigo pluripartidarismo e realizar a anistia política dos militares e perseguidos políticos.


O projeto inicial da anistia não previa o beneficiamento de todos os envolvidos com crimes políticos, mas o projeto de lei acabou sofrendo alterações que perdoavam todos os acusados de praticar tortura e devolvia direitos políticos plenos aos exilados. Muitos amigos meus estavam voltando para casa. Muitas pessoas cheias de histórias dos campos de tortura, muitas pessoas vindas de outros países. Muitas histórias a serem contadas e principalmente, uma grande esperança a ser restabelecida. A ditadura parecia finalmente estar chegando ao fim.


Alguns militares de linha dura continuavam com a repressão clandestina, atacando sem piedade muitos opositores. Cartas-bomba foram colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explodiu durante um show no centro de convenções do Rio Centro. Não se tinha prova de que os atentados tenham sido provocados pelos “linhas duras”, mas a maior suspeita caia em cima deles. Eles não queriam que aquilo chegasse ao fim. O que nós mais queríamos era que aquilo chegasse ao fim. Estávamos claramente no meio de um conflito.


Nos últimos anos do governo militar, nosso país ainda apresenta vários problemas como a inflação que estava alta e a recessão também.


Mas algo bom também estava ocorrendo: a oposição ganhava cada vez mais terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos.


Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já! Aquilo era a maior exposição de pressão no governo para uma mudança rápida! O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. O movimento era favorável à fazer a voz do povo ser ouvida. O movimento era favorável principalmente ao povo, mas para decepção desse mesmo povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados.


Algum tempo depois, em janeiro de 1985, já não me lembro mais ao certo o dia, o Colégio Eleitoral escolheu o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal.


Era o fim do regime militar. Tancredo Neves ficou doente antes de assumir e acabou falecendo. Assumiu o seu cargo o vice-presidente José Sarney.


Em 1988 foi aprovada uma nova constituição para o Brasil, que apagou completamente os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país.


Em 1985 acabava o terrível período chamado de ditadura. A essa altura já estava no auge dos meus 40 anos, mas posso dizer, felizmente, que fiz parte da história de luta do povo por um país melhor. Posso dizer hoje, que fiz parte da história desse pa´ss, assim como muitos outros jovens, alguns que até morreram lutando.


Com o fim da ditadura veio o medo de seu recomeço, mas veio principalmente a esperança de poder dedicar à nossos filhos o pais melhor que havíamos conquistado. Havíamos conquistado aquilo principalmente por eles e por todas as futuras gerações que ainda viriam. Nossa luta contra a ditadura foi pensando sempre no futuro. Hoje me pergunto até que ponto podemos afirmar que a ditadura acabou. Até que ponto podemos afirmar que ainda não existe uma ditadura ai fora.





Internacional:


Lembra quando falei que achava que existia algo maior por trás de toda essa história da ditadura? Pois esse algo maior era um gigante chamado Estados Unidos da América. O senhor do capitalismo, até respirar te custa algo naquele lugar. Pessoas expiram, inspiram, transpiram e aspiram dinheiro todo o tempo.


Esse poderoso tinha interesses no Brasil. Sempre teve. Desde a época em que Getulio ameaçava com seu suposto "comunismo" os Estados Unidos já planejavam essa ditadura. Os Estados Unidos já planejavam controlar o país.


O desejo de controle tinha um motivo: A formação de uma rivalidade que posteriormente levaria a guerra fria. Estados Unidos e União Soviética lutavam com unhas e dentes por cada nação conquistada, no caso dos EUA, com o capitalismo e da URSS, com o socialismo.


O Brasil, como o bom país continental que é, tinha um papel importantíssimo nessa disputa. Quando estávamos sob o governo de Getulio, JK, Jânio e Jango o Brasil constantemente oscilava entre o lado socialista e o capitalista, algo inaceitável para os EUA. Eles tinham que solucionar isso. E solucionaram. Começaram a financiar econômica e militarmente a futura ditadura militar que ocorreria aqui no Brasil, que tornaria o pais totalmente capitalista e, portanto, um aliado na Guerra Fria.


Durante a maioria dos anos da ditadura o Brasil continuou com o apoio dos EUA até que eles resolveram "girar" seus espaços políticos e econômicos para o Oriente Médio, em função da grande crise mundial do petróleo, petróleo que por acaso era encontrado em abundância naquela região. Com essa mudança de foco, a atuação dos EUA na América Latina e principalmente no Brasil diminuiu drasticamente. O investimento da ditadura se cessou, levando ela a um declínio, que originou seu fim.



Zazá

Estamos de volta!

Caros leitores,

Estamos de volta. O mundo é nossa fonte de inspiração e também de renúncia, de silêncio. Os mesmos acontecimentos que nos motiva a publicar ideias, nos paralisa.
Mas com muito prazer, o Vozes da América retorna de um longo inverno dando voz a alunos que fizeram de seus pensamentos, obras. Transformaram-se em executores e não apenas ouvintes e assim produziram o material que lerão a seguir. O tema proposto foi a tenebrosa Ditadura Militar e Civil brasileira de 1964 e aí vão alguns trabalhos. Mas não sem antes lembrarmos que o grande barato de dar aula é quando o aluno supera o mestre.
Com vocês, duas dos muitos grandes alunos que temos, Andressa e Zazá.

Boa leitura, sempre!

domingo, 6 de junho de 2010

Terrorismo de Estado

O mundo em lágrimas - 02/06/2010

O governo de Israel é belicoso e, ao praticar terrorismo de Estado, estimula reações em todo o mundo. O Reino Unido e a Austrália expulsaram diplomatas israelenses depois de apurarem que Israel falsificara passaportes britânicos e australianos utilizados pelos assassinos de um líder do Hamas. Os planos de Israel para construir um novo assentamento judaico em terras ocupadas no Leste de Jerusalém provocaram duras críticas até dos EUA, em março.
Uma investigação das Nações Unidas culpou os governantes daquele país por crimes de guerra durante ofensiva na Faixa de Gaza, em 2008 e 2009. Israel, único país com arsenal atômico no Oriente Médio, é cobrado para assinar o Tratado de Não ProliferaçãoNuclear (TNP).
Sectário, resiste às pressões e isola-se. Agora, o ataque à chamada Flotilha da Liberdade, expedição humanitária à Faixa de Gaza foi repudiado tanto por países islâmicos como por europeus e latino-americanos.
No último domingo (30/05), em águas internacionais, soldados israelenses, como piratas, desceram de helicópteros por cordas no deck do principal navio de um comboio de seis embarcações, e abriram fogo contra civis desarmados, que natural e corajosamente tentavam conter o criminoso assalto com suas próprias mãos. Montado por organizações internacionais, o comboio transportava dez mil toneladas de brinquedos, material escolar, de construção e alimentos, além de 700 pessoas de 38 nações, inclusive uma brasileira, a cineastaIara Lee. Também estavam a bordo a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Maired Corrigan Maguire, da Irlanda do Norte, e o escritor sueco HenningMankell, além de vários parlamentares.
A alta comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillary, destacou que nada pode justificar o resultado terrível da operação, classificando o bloqueio a Gaza como desumano e ilegal. O relator especial sobre Direitos Humanos nos territórios palestinos, RichardFalk, afirmou que Israel é culpado por um comportamento chocante, usando armas contra civis em navios em alto-mar, onde há liberdade denavegação. Há, até agora, nove mortos e trinta feridos. A ação foi tão sinistra que nem mesmo a identificação total das vítimas já foi feita.
Não há que se confundir a ação de um governo com a de um povo, que precisa reagir e substituir, urgentemente, a esse governo. Registro nesta Casa a contundente Carta ao Governo Israelense, do amigo e grande cineasta Silvio Tendler:
"Senhores que me envergonham: Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente Médio. As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vêm tornando, cotidianamente, a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.
Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos?
Vergonha, três vezes vergonha!Proponho que Shimon Peres devolva seu Prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid. Considero o atual governo, com todos os seus membros, sem exceção, merecedores, por consenso universal, do Prêmio Jim Jones, por estarem conduzindo todo um país para o suicídio coletivo. A continuar a política genocida do atual governo nem os bons sobreviverão e Israel perecerá sob o desprezo de todo o mundo.O Sr. Lieberman, que trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um Tribunal de Nuremberg. Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.
Abaixo o fascismo!Paz Já!"

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 02 de junho de 2010.

Chico AlencarDeputado Federal, PSOL/RJ

domingo, 23 de maio de 2010

Esses milicos só podem estar sofrendo de saudades ou de Alzheimer

O Vozes da América agradece a colaboração do excelente cavaquinista, bandolinista e outras cordas, Bruno Eschenazi, pela matéria abaixo.
Os militares saudosistas, assim como a elite civil que lucrou com o golpe e nos escombros dele ainda se deleitam, cometem nessa entrevista (e em tantas outras) uma série de aberrações históricas. Mas destacamos duas que fogem a lógica racional, descambam para o ridículo e desaguam nos mares tortuosos da mais pura sacanagem: Primeiro foi dizer que a imprensa na ditadura militar era "amplamente livre"; Segundo, afirmar para termos cuidado pois o Brasil ruma para uma "ditadura totalitária comunista". Ou esse milico é limitadíssimo do ponto de vista intelectual ou é de uma grandeza ideologicamente fascista das raias da estupidez. Seja como for, é necessário manter uma distância de segurança.

Governo Lula quer implantar ditadura totalitária no país

General pivô de polêmica defende que ditadura de 1964 foi autoritária, mas não totalitária, e deixou imprensa "amplamente livre"
RESPONSÁVEL até fevereiro deste ano pelo Departamento de Pessoal do Exército, o general Maynard Marques Santa Rosa, 65, disse à Folha que está em andamento um processo para transformar o Brasil numa "ditadura totalitária comunista" e que o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos é parte dessa estratégia.
Ele afirma que "com certeza" há exagero quando se fala em tortura na ditadura militar (1964-85). "Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então, foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiu que saíssem [no Brasil]."
LUCAS FERRAZDA SUCURSAL DE BRASÍLIA
ELIANE CANTANHÊDE COLUNISTA DA FOLHA

FOLHA - Qual é sua opinião sobre o governo Lula?
MAYNARD MARQUES SANTA ROSA - Acho o presidente uma pessoa simpática, tem empatia com o público e sensibilidade em detectar os anseios da massa. O que é diferente da linha governamental que ele segue. Está rodeado de pessoas impregnadas de preconceito e ideologia. O governo tem várias caras. Ideologicamente, é intolerante, autoritário. Para ser mais preciso, tem anseio totalitário.
FOLHA - O Lula?
SANTA ROSA - O governo. O presidente, não. Não sei se ele é usado ou se ele usa esse grupo para promover seus interesses.
FOLHA - O que caracteriza o autoritarismo do governo?
SANTA ROSA - A intolerância com opiniões contrárias. Quem examinar o Programa Nacional de Direitos Humanos vai interpretar o que digo. Aquilo é um tratado ideológico de extrema intolerância, onde se pretende regular uma sociedade inteira. Adota o tal princípio da transversalidade. Na medida em que se têm intenções que transcendem Legislativo e Judiciário, são pretensões que transcendem até preceitos da Constituição, portanto, totalitárias.
FOLHA - Em que parte o 3º PNDH transcende Legislativo e Judiciário?
SANTA ROSA - Quando propõe a institucionalização de mecanismos ilegais. Ingerir no processo judicial de reintegração de posse transcende a lei e na estimulação da degradação dos costumes à revelia da tradição cristã que temos, ao estimular a homoafetividade.
FOLHA - Totalitarismo não é o contrário, exigir que todos tenham o mesmo comportamento?SANTA ROSA - Querer consertar isso com outra penada mais totalitária é que é o erro. Temos de deixar fluir a natureza, inclusive nas relações sociais.
FOLHA - Os dois planos elaborados no governo FHC já não continham basicamente os mesmos pontos.
SANTA ROSA - O primeiro plano não choca ninguém. Embora tenha bandeiras polêmicas, obedece ao princípio da naturalidade, não faz a sociedade civil engolir pontos que não lhe pertencem, diferentemente do de agora, fabricado de fora.
FOLHA - De fora? De onde?
SANTA ROSA - Se você pesquisar a similitude entre a Constituição venezuelana, e também a equatoriana e a boliviana, que são clones adaptados aos seus países, vai verificar qual é a origem. Isso tudo é uma composição organizada, é uma conspiração internacional.
FOLHA - Durante seus 49 anos no Exército, o sr. conheceu muitos gays nas Forças Armadas? SANTA ROSA - Não, existe uma rejeição inata da estrutura militar contra isso. O problema é que existe uma articulação, no sentido de transformar a sociedade, colocar uma nova cultura goela abaixo na classe média, e isso é apenas uma fase preliminar para depois se implementar o que se quiser.
FOLHA - E o que se quer?
SANTA ROSA - Uma ditadura totalitária.
FOLHA - Comunista?
SANTA ROSA - Exatamente. Primeiro, transformar os costumes da sociedade, para, por último, implementar o sistema totalitário. Falar isso no século 21 é quase uma aberração.
FOLHA - Após 21 anos de ditadura, a democracia não é irreversível?
SANTA ROSA - Não acho. O povo não reage, está numa situação letárgica. Nosso povo não tem opinião, e quem tem se cala. Estamos anestesiados.
FOLHA - No seu e-mail contra o plano não havia nada disso.
SANTA ROSA - O nosso foco era a defesa da instituição militar.
FOLHA - Nosso? De quem?
SANTA ROSA - Meu. O foco militar era porque, se se conseguisse abrir a Comissão da Verdade, o resto seria facilmente alastrado. Houve uma reação institucional à qual até o próprio ministro [Nelson Jobim] aderiu, reconhecendo que iria causar uma desarmonia grande. Então, ele contrapôs aquele protesto que levou o presidente a flexibilizar a redação do plano.
FOLHA - Que nota o sr. dá para o ministro Nelson Jobim?
SANTA ROSA - Para o momento, é o melhor que se tem. É preparado, foi ministro do STF, da Justiça, tem relacionamentos de alto nível e é inteligente. O Ministério da Defesa é uma necessidade, faz parte da modernidade do Estado.
FOLHA - Como o sr. define o regime de 1964?
SANTA ROSA - Um regime emergencial, um mal que livrou o país de um mal maior.
FOLHA - E a tortura?
SANTA ROSA - Nunca foi institucionalizada, é um subproduto do conflito. A tortura começou com os chamados subversivos. Inúmeros foram justiçados e torturados por eles próprios, porque queriam mudar de opinião. A tortura nunca foi oficial.
FOLHA - O sr. critica que o plano está transportando para o país um regime autoritário, mas não foi justamente o de 1964?
SANTA ROSA - Foi autoritário, mas não totalitário.
FOLHA - Qual é a diferença?
SANTA ROSA - A imprensa, por exemplo, foi amplamente livre.
FOLHA - Como?!
SANTA ROSA - Só teve censura no momento de pico, a partir do AI-5 [1968]. Se não houvesse um enrijecimento político naquela oportunidade, poderia se perder o controle. Considero isso tudo um mal, mas um mal menor e necessário.
FOLHA - O sr. aceita um militar torturando uma pessoa indefesa, um jovem, uma mulher, desarmados?
SANTA ROSA - Nenhum militar torturou ninguém. Se houve, foi no Dops [Departamento de Ordem Política e Social, oficialmente vinculado à polícia].
FOLHA - Não é covardia matar pessoas e torturar rapazes e moças, algumas grávidas, depois de presas?
SANTA ROSA - Sinceramente, não sei de nenhum caso. O que existe é produto de imaginação. FOLHA - O sr. tem dúvida? A própria ex-ministra Dilma Rousseff foi presa e torturada.
SANTA ROSA - Ela diz que foi torturada, mas... Só no Brasil, a pessoa que sobrevive, e está com boa saúde, alega a tortura para ganhar os benefícios, sejam políticos ou de pensão.
FOLHA - É mentira que houve tortura?
SANTA ROSA - Com certeza absoluta. Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Ou chinês? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiram que saíssem [no Brasil]. Institucionalmente, legalmente, não houve [tortura]. Não posso afirmar que, fora do controle, não tenha havido.
FOLHA - Não é justo, portanto, ter uma Comissão da Verdade para apurar se houve ou não houve?
SANTA ROSA - Seria justo se os dois lados dissessem a verdade. Se você perguntar a Dilma Rousseff quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou...
FOLHA - Até onde se sabe, ela não matou ninguém.
SANTA ROSA - É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima.
FOLHA - Qual é a sua opinião sobre José Serra? Ele foi presidente da UNE, exilado no Chile... SANTA ROSA - É um administrador competente, um gestor público excelente, tanto que, se voltar para São Paulo, se reelege. Mas eu estou me atendo ao produto do trabalho dele.
FOLHA - E a Marina Silva?
SANTA ROSA - Tem uma visão da Amazônia igual à da Fundação Ford, igual à dos americanos. É uma visão internacionalista.
FOLHA - O sr. vota em quem?
SANTA ROSA - Na Dilma não voto de jeito nenhum, mas não é fácil engolir o Serra.

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.שלום לכולם

Bruno Eschenazi.