Uma das maiores preocupações de nosso tempo é o lixo. A cada dia milhares de toneladas do resto que não aproveitamos mais, ou simplesmente desperdiçamos mais, é despejado fora. Nos grandes centros urbanos os lixões representam um grande desafio para o poder público. Ao mesmo tempo que não sabemos lidar com aglomerados de sobras apodrecidas de todos os tipos, as populações mais pobres mergulham nesse sub universo e retiram dali aquilo que esnobamos.
O resultado social desta mazela é catastrófico. As urbes se enchem de restos e os restos enchem a barriga de quem vive a margem do desperdício. As autoridades fingem que isto é fruto dos tempos modernos e nós fingimos acreditar que a luta entre crianças e urubus é aceitável. Mas, ao largo desta realidade, o planeta não consegue mais fingir que a terra dá conta do lixo.
Porém lixo é também, no sentido metafórico, resto, sobra, aquilo que não presta para consumo humano, agressão ao paladar e ao olfato, putrefação. Lixo é excesso, produção em massa, volume de aberrações impróprias para a saúde cultural de um povo. E, igualmente ao outro tipo de lixo, o resultado desta mazela também é devastador. As cidades globalizadas e, em especial, os produtores deste tipo de lixo se enchem de glórias por fazerem menos que o óbvio e ser isto o suficiente para alistar um exército de mortos-vivos que “sai do chão” ao primeiro comando bahiano, ou ainda, “bata bundinha” fingindo-se “cachorra” ou “preparada”, ou ainda se emocionando com rimas paupérrimas onde coração se encontre com paixão e amor com dor, bastando isto para que se ganhe discos de platina num tedioso programa dominical, seja ele apresentado com sotaque paulista no Rio de Janeiro ou sem sotaque paulista em São Paulo.
Há duas coisas que o volume de lixos produz: uma é o chorume, líquido advindo do processos, somados com a ação da água das chuvas, se encarregam de lixiviar compostos orgânicos presentes nos aterros sanitários para o meio ambiente. Esse líquido pode resultado das misturas dos restos que não consumimos, era inicialmente apenas a substância gordurosa expelida pelo tecido adiposo da banha de um animal. Posteriormente, o significado da palavra foi ampliado e passou a significar o líquido poluente, de cor escura e odor nauseante, originado de processos biológicos, químicos e físicos da decomposição de resíduos orgânicos. Esses atingir os lençóis freáticos, de águas subterrâneas, poluindo esse recurso natural. A elevada carga orgânica presente no chorume faz com que ele seja extremamente poluente e danoso às regiões por ele atingidas. Dá-se o nome de necrochorume ao líquido produzido pela decomposição dos cadáveres nos cemitérios, composto sobretudo pela cadaverina, uma amina (C5H14N2) de odor repulsivo, subproduto da putrefação.
O outro resultado proveniente do lixo é o barulho, subproduto altamente tóxico que, pode aparecer no formato funk (fãnque), axé music (axé musique), pagode criuolouro, sertaneja ou nos formatos anglo-saxões indecifráveis para a maioria da população que mal fala seu próprio idioma.
O barulho produzido por este tipo de lixo é vergonhosamente incentivado pela mídia-urubu, que se refestela sob o nosso cadáver putrefato pelo consumo indiscriminado deste tipo de, perdoem-me, “música”. Comum ver mulheres voltando ao estágio puramente objeto-sexual, condição que a sociedade machista impôs ao longo de milhares de anos e que algumas destas fêmeas, num ato de puro devaneio subversivo, ousou quebrar nos idos anos sessenta. Mas agora parece que “tá dominado, tá tudo dominado” novamente e para o bem do status quo masculino, a manutenção de sua imutável ordem.
Não há classe social definida para o consumo deste lixo letal, o que se sabe é que nas montanhas de lixos culturais que nos empurram reside uma democracia imbecilizante, pois todos, indiscriminadamente, pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres se acotovelam para consumir o resto que destinaram para nos “educar”. Nutro uma grande admiração pelos urubus que, pelo menos neste caso, são seletivos.
A cultura de massa que enxovalha nossa dignidade é altamente perigosa, pois tem o poder de um Midas ao contrário, pois tudo que ela toca vira lixo e se formos por este raciocínio, estaremos respondendo uma das maiores indagações filosóficas de todos os tempos: o “para onde iremos?”, uma vez que necessariamente pararemos no Faustão, no Gugu, no Fantástico, ou num baile da Furacão 2000. Triste destino da humanidade... onde está o cataclismo nuclear? Onde está o choque da Terra com um grande cometa? Onde está o nosso fim, que serviria ao menos para nos redimir?
No caso do chorume, já há alternativas. A Alemanha, país europeu com a mais rígida regulamentação ambiental, tem inúmeras usinas a base de gás butano, num aproveitamento de quase 90% do lixo produzido naquele país. Esse é o futuro! E assim estaremos salvos!
No caso do fanque, axé musique, pagode crioulouro, sertaneja e outros drogas do gênero, a solução é mais distante, por simples que pareça. Em tese basta usar o “poder”, botão que consta na maioria dos controles remotos de aparelhos de TV e som, geralmente atende pelo nome de “power”, sempre que um programa imbecil estiver te tratando assim, como tal. Mas na realidade é muito difícil, pois a droga costuma transformar a morte em liberdade e faz deste meu discurso o ridículo. Assim estaremos mortos!
Tudo bem, talvez eu morra primeiro, talvez reme contra a maré, talvez seja insano o papel que faço aqui, talvez você nem leia isto que eu escreva (afinal este texto contém mais de dois parágrafos e para quem está contaminado com a ignorância, o tamanho de um texto é medido por milímetros); mas tenho algumas armas que não abro mão de usar agora: o fato de saber que o que eu consumo é consciente; que não me viciei em lixo e não será atolado nele que morrerei; que o gosto musical que tenho não é o melhor, pois isto é passível de boas discussões, mas está acima do chorume barulhento que rasteja para as entranhas da terra contaminando os seres vivos por onde passar; que sei que tenho o poder de mudar o que entenda e sobretudo, de fazer de mim algo que me orgulha quando olhar no espelho; a compreensão de que as mulheres são seres cerebrais, portanto indignas de diminuídas a uma bunda morena e outra loura onde o “chão” é o limite.
Pisamos todos os dias em chorumes, mas somos nós mesmos o necrochorume materializado. Produzimos desperdício, lixo que irá sufocar o planeta, mas suamos cadaverina quando balançamos nossos esqueletos descerebrados ao som de algo que não valha a pena qualificar como música. Devemos nos acostumar com o odor nauseante e virarmos nós mesmos subprodutos do lixo ou lutarmos contra o senso comum e sua geradora a grande mídia urubu? Responda você mesmo, se tiver coragem.
Ouvir as vozes da América, continente que testemunhou mais de 500 anos de exploração. Deixem os gritos dos excluídos entrar em suas almas e verão que o sangue derramado em nossos campos não fertilizaram a terra, que a soberba dos imperialistas se camufla em guerras ou globalização, que nosso povo pagou com suas vidas o alto preço dos lucros. A literatura e história são as nossas armas e com elas, havemos de continuar resistindo, recriando a latinidade.
sábado, 5 de julho de 2008
sábado, 28 de junho de 2008
Eu, 1996 e 2008. Esclarecimentos sobre a pesquisa realizada "Diários de Campo"
Os diários de campo publicados abaixo, foram frutos de uma pesquisa que fiz, junto com a equipe da Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ - em 1996 quando lá trabalhei na condição de pesquisador.
Naquela época, nos havia sido encomendado um trabalho que visava saber, pela ótica do usuário/paciente, qual o impacto do serviço público de saúde, se positivo ou se negativo para ele que, afinal de contas seria o maior beneficiado ou maior vítima das políticas públicas nesta área.
A observação no campo contou com uma equipe multidisciplinar, e a "observação participativa" foi o método que utilizamos. Varremos dois hospitais municipais: O Salgado Filho no Méier, portanto zona norte da cidade e o Miguel Couto na Gávea, zona sul.
Cobrimos todos os turnos - manhã, tarde, noite e madrugada - nos sete dias semanais, por vários meses. Atentos a tudo, tentávamos entrevistar pacientes desde que estivessem em mínimas condição de falar, além é claro, de todos os profissionais envolvidos na área de saúde.
O resultado pode ser conferido no formato dos "diários de campo" que foram publicados neste blog e as conclusões pertencem ao leitor. Mas lembre-se: Naquele ano de 1996 o prefeito era o mesmo César Maia de hoje, que tenta uma "reeleição" sob o nome de Solange Amaral, fiel escudeira do Imperador do Piranhão.
Na época deste trabalho o condidato de César Maia era o hoje seu desafeto Luiz Paulo Conde e a encomenda feita á Fiocruz visava dar números otimistas para alavancar a candidatura do fraquíssimo candidato, que para engrossar mais um triste capítulo da história recente do Rio de janeiro, fora eleito.
O discurso acadêmico burocrático e as teias que ligavam a Fiocruz à Prefeitura na época não permitiram que fosse publicado esses relatos que hoje exponho aqui no Vozes da América. Portanto, considero inéditas as publicações abaixo. Boa leitura!
Naquela época, nos havia sido encomendado um trabalho que visava saber, pela ótica do usuário/paciente, qual o impacto do serviço público de saúde, se positivo ou se negativo para ele que, afinal de contas seria o maior beneficiado ou maior vítima das políticas públicas nesta área.
A observação no campo contou com uma equipe multidisciplinar, e a "observação participativa" foi o método que utilizamos. Varremos dois hospitais municipais: O Salgado Filho no Méier, portanto zona norte da cidade e o Miguel Couto na Gávea, zona sul.
Cobrimos todos os turnos - manhã, tarde, noite e madrugada - nos sete dias semanais, por vários meses. Atentos a tudo, tentávamos entrevistar pacientes desde que estivessem em mínimas condição de falar, além é claro, de todos os profissionais envolvidos na área de saúde.
O resultado pode ser conferido no formato dos "diários de campo" que foram publicados neste blog e as conclusões pertencem ao leitor. Mas lembre-se: Naquele ano de 1996 o prefeito era o mesmo César Maia de hoje, que tenta uma "reeleição" sob o nome de Solange Amaral, fiel escudeira do Imperador do Piranhão.
Na época deste trabalho o condidato de César Maia era o hoje seu desafeto Luiz Paulo Conde e a encomenda feita á Fiocruz visava dar números otimistas para alavancar a candidatura do fraquíssimo candidato, que para engrossar mais um triste capítulo da história recente do Rio de janeiro, fora eleito.
O discurso acadêmico burocrático e as teias que ligavam a Fiocruz à Prefeitura na época não permitiram que fosse publicado esses relatos que hoje exponho aqui no Vozes da América. Portanto, considero inéditas as publicações abaixo. Boa leitura!
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - ÚLTIMA PARTE
Rio de Janeiro, 26 de junho de 1996.
Diário de Campo VI.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 22/06/96.
Horário: entre 22h e 00 horas
Especificidade do dia: UPT, Pediatria, Radiologia e PS.
Assim que chegamos, eu e Marcelo nos dirigimos para a entrada da Emergência, onde procuramos as acadêmicas de medicina ligadas ao projeto. Nos forneceram uma informação, para mim estarrecedora: não havia ortopedista nem pediatra na Emergência. Os pacientes que chegam com traumas, tiram Rx aqui e vão procurar Ortopedista no Carlos Chagas. É incrível conceber um hospital do porte do Salgado Filho, um dos poucos hospitais que “funcionam” no Estado, cujos casos de traumas são uma constante, não terem ortopedistas. E o pior, na visita que fizemos à Radiologia a Dra. Mônica nos confirmou que há mais de um mês, nos plantões de sábado de madrugada, o HMSF não conta com um Ortopedista. E por incrível que pareça tem mais! A mesma médica confirmou que o hospital chegou a ficar aproximadamente 1 ano sem Ortopedista aos sábados entre 95/96. Nenhuma mente por mais esforço de abstração que faça, consegue conceber algo tão surreal para um hospital como este, logo num sábado.
Após o contato inicial com as acadêmicas, fomos à UPT, onde contabilizamos 7 leitos e duas macas dividindo um espaço que sabemos, cabe desde politraumatizados até a mais virulenta doença. Destes 9 casos, dois eram de Coma total e outros dois, eram de suicídio, fato relativamente “comum” naquele hospital e inteiramente intrigante uma vez visto a raridade de repetições no Miguel Couto de casos assim.
A Internação de Pediatria estava tranqüila, apenas um caso de trauma por queda, do menino Argônio de 11 anos. Porém a auxiliar de enfermagem que nem tempo tivemos de perguntar seu nome, nos disse que “há dias, quando está muito cheio, chega a ficar duas crianças por leito”. E de pronto fomos interrompidos por uma emergência chegada às pressas: um recém nascido sufocado aos braços de um médico, buscando respirador.
Fomos então à Radiologia: a equipe - Dra. Monica (radiologista), Hildebrando e Amélia (técnicos) e Luis Carlos (Câmara escura) - estava reunida pelo baixo movimento naquele início de madrugada. A Dra. Monica, como já mencionei anteriormente, após dizer não ter Ortopedistas aos sábados... foi interrompida pelo Luis Carlos: “Se vier um caso muito grave, será atendido aqui. Caso contrário, não.” Indagamos sobre como o paciente buscaria outro atendimento, se era encaminhado ou se iria por conta própria. Quando a Técnica Amélia revelou conhecer um expediente que os bombeiros utilizam: “Eles ligam para cá a cada troca de plantão para saber sobre as equipes, quais estão completas ou quais estão deficientes. Acho que devem ligar para os demais hospitais também”.
Enfim, engolimos algumas tragadas de saliva, e nos dirigimos ao PS. Como sempre, cheio, insalubre, desleixado e com poucos profissionais de saúde. No “setor” masculino os 12 leitos cheios, e no feminino 15, entre leitos e macas esparsas. Presenciamos uma senhora que sofrera um acidente junino com fogos de artifício. Chegamos ao PS quase ao mesmo tempo que ela, que acompanhada de seu cunhado padeceu em espera, por não constar no Hall dos mais necessitados. É claro que entendo as regras de sobrevivência de um campo de batalha como aquele, onde um paciente politraumatizado por exemplo, tem com justiça prioridades em relação a um aparentemente simples caso com os fogos juninos. Mas convenhamos, a maior dor é aquela que se sente, independente da gravidade. E melhor não seria se ao menos houvesse médicos suficientes? Após algum tempo de espera, a médica responsável dispensou-os, aconselhando procurar o serviço do Hospital do Andaraí, onde muito provavelmente passariam pelos mesmos processos de espera, descaso... e como se não bastasse, outra micro relação os surpreendeu à saída: o maqueiro com uma má vontade expressa, foi puxando a cadeira de rodas que se encontrava a senhora para levá-la até a saída. O cunhado entrou então num bate-boca não permitindo que a cadeira de rodas fosse levada pelo maqueiro, se encarregando ele mesmo de fazê-lo. Naquele caldeirão não é difícil interpretar as diversidades de relações existentes, em que consistem, como se apresentam, o papel dos atores, etc. O difícil, é supor normal dada a atual crise na saúde brasileira.
Diário de Campo VI.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 22/06/96.
Horário: entre 22h e 00 horas
Especificidade do dia: UPT, Pediatria, Radiologia e PS.
Assim que chegamos, eu e Marcelo nos dirigimos para a entrada da Emergência, onde procuramos as acadêmicas de medicina ligadas ao projeto. Nos forneceram uma informação, para mim estarrecedora: não havia ortopedista nem pediatra na Emergência. Os pacientes que chegam com traumas, tiram Rx aqui e vão procurar Ortopedista no Carlos Chagas. É incrível conceber um hospital do porte do Salgado Filho, um dos poucos hospitais que “funcionam” no Estado, cujos casos de traumas são uma constante, não terem ortopedistas. E o pior, na visita que fizemos à Radiologia a Dra. Mônica nos confirmou que há mais de um mês, nos plantões de sábado de madrugada, o HMSF não conta com um Ortopedista. E por incrível que pareça tem mais! A mesma médica confirmou que o hospital chegou a ficar aproximadamente 1 ano sem Ortopedista aos sábados entre 95/96. Nenhuma mente por mais esforço de abstração que faça, consegue conceber algo tão surreal para um hospital como este, logo num sábado.
Após o contato inicial com as acadêmicas, fomos à UPT, onde contabilizamos 7 leitos e duas macas dividindo um espaço que sabemos, cabe desde politraumatizados até a mais virulenta doença. Destes 9 casos, dois eram de Coma total e outros dois, eram de suicídio, fato relativamente “comum” naquele hospital e inteiramente intrigante uma vez visto a raridade de repetições no Miguel Couto de casos assim.
A Internação de Pediatria estava tranqüila, apenas um caso de trauma por queda, do menino Argônio de 11 anos. Porém a auxiliar de enfermagem que nem tempo tivemos de perguntar seu nome, nos disse que “há dias, quando está muito cheio, chega a ficar duas crianças por leito”. E de pronto fomos interrompidos por uma emergência chegada às pressas: um recém nascido sufocado aos braços de um médico, buscando respirador.
Fomos então à Radiologia: a equipe - Dra. Monica (radiologista), Hildebrando e Amélia (técnicos) e Luis Carlos (Câmara escura) - estava reunida pelo baixo movimento naquele início de madrugada. A Dra. Monica, como já mencionei anteriormente, após dizer não ter Ortopedistas aos sábados... foi interrompida pelo Luis Carlos: “Se vier um caso muito grave, será atendido aqui. Caso contrário, não.” Indagamos sobre como o paciente buscaria outro atendimento, se era encaminhado ou se iria por conta própria. Quando a Técnica Amélia revelou conhecer um expediente que os bombeiros utilizam: “Eles ligam para cá a cada troca de plantão para saber sobre as equipes, quais estão completas ou quais estão deficientes. Acho que devem ligar para os demais hospitais também”.
Enfim, engolimos algumas tragadas de saliva, e nos dirigimos ao PS. Como sempre, cheio, insalubre, desleixado e com poucos profissionais de saúde. No “setor” masculino os 12 leitos cheios, e no feminino 15, entre leitos e macas esparsas. Presenciamos uma senhora que sofrera um acidente junino com fogos de artifício. Chegamos ao PS quase ao mesmo tempo que ela, que acompanhada de seu cunhado padeceu em espera, por não constar no Hall dos mais necessitados. É claro que entendo as regras de sobrevivência de um campo de batalha como aquele, onde um paciente politraumatizado por exemplo, tem com justiça prioridades em relação a um aparentemente simples caso com os fogos juninos. Mas convenhamos, a maior dor é aquela que se sente, independente da gravidade. E melhor não seria se ao menos houvesse médicos suficientes? Após algum tempo de espera, a médica responsável dispensou-os, aconselhando procurar o serviço do Hospital do Andaraí, onde muito provavelmente passariam pelos mesmos processos de espera, descaso... e como se não bastasse, outra micro relação os surpreendeu à saída: o maqueiro com uma má vontade expressa, foi puxando a cadeira de rodas que se encontrava a senhora para levá-la até a saída. O cunhado entrou então num bate-boca não permitindo que a cadeira de rodas fosse levada pelo maqueiro, se encarregando ele mesmo de fazê-lo. Naquele caldeirão não é difícil interpretar as diversidades de relações existentes, em que consistem, como se apresentam, o papel dos atores, etc. O difícil, é supor normal dada a atual crise na saúde brasileira.
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 6
Rio de Janeiro, 17 de junho de 1996.
Diário de Campo V.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 17/06/96.
Horário: entre 14h e 16 horas.
Especificidades do dia: Radiologia e PS.
Esse é um daqueles dias que podemos chamar de relativamente improdutivos. Isto por que era agoniante ver o hospital com um sem número de casos diferentes e não poder tirar proveito pelo excessivo número de gente circulante. A impressão que me perseguiu nas duas horas que por lá fiquei foi, a de atrapalhar.
Assim que cheguei, o profissional de Segurança Darciney, meu mais novo “colega”, veio me cumprimentar dizendo o quão horrível estava o hospital naquele dia. Me apontou duas macas postas no corredor por não haver espaço no PS e na UPT. O corredor estava intransitável. Me dirigi à porta de saída que se encontrava fechada por força da necessidade, onde estavam as macas “excessivas”, para conversar com o acompanhante do paciente. Reynaldo Fernandes, 18 anos, fora atropelado no méier. Teve os primeiros atendimentos mas agonizava de dor com fraturas múltiplas, escoriações e provavelmente outras lesões invisíveis ao leigo. Fico imaginando que se ali, estavam os casos mais contornáveis, como não estaria o PS hoje.
De fato, o PS e a UPT estavam abarrotados, sem a menor condição de transitar. Cheguei a pegar o acadêmico Alexandre, do PS, o mesmo que junto com Marcelo e Sueli travamos contato no dia 10/06, e que insiste em perguntar para os acadêmicos do projeto se somos X9 do César Maia, saindo do PS pois acabava seu plantão. Me deu um panorama geral do serviço naquele dia aconselhando não entrar nem no PS nem na UPT pelo inchaço que se encontravam.
Resolvi ir então, à Radiologia verificar os equipamentos e travar novos contatos. Tudo estava funcionando, inclusive a Tomografia Computadorizada que ontem quebrara. A Dra. Marise plantonista da radiologia, disse ser este o pior dia por ser segunda-feira. Disse a ela ter conversado com três pacientes antes de contacta-la, na espera de radiografia, que haviam chegado lá por volta das 10h e 30m e somente entraram para atendimento às 14h e 30m. Mas, também vi neste tempo que a aguardava, uma equipe ininterruptamente trabalhando. Me respondeu atribuindo “inchaço”, dizendo que nada mais poderia ser feito a não ser trabalhar sem parar de 8h às 18h quando, às segundas-feiras, este serviço começa a se tranqüilizar. “O CT voltou a funcionar apesar de ser um fusquinha em termos da necessidade do hospital. Essa máquina não dá conta do atendimento de Emergência, apenas do atendimento de rotina”, frisou ela me mostrando o equipamento e todo o suporte de infraestrutura que ele necessita. Aproveitei o fato de estarmos numa sala reservada, já que era onde se comandava as Tomografias, para cutucar sob as relações entre as equipes já que a radiologia acaba sendo um desembocador dos diversos setores que precisam daqueles serviços: “A relação entre as equipes é boa apesar das brigas constantes (sic). O PS diz ter os casos mais graves e pede preferência; a UPT idem; a Ortopedia a mesma coisa e assim por diante. O que falta na realidade para melhorar o atendimento, é aumentar o espaço físico. Por mim o HMSF só atenderia os casos de Emergência, o que mesmo assim não daria vazão. Não são as enfermeiras que tem má vontade, o problema é que elas são poucas para o montante de atendimento”. Relata a médica, que destaca o serviço de neurocirurgia como “excelente”. Considero muito proveitosa essa investida na Radiologia até para ter visões de pessoas diferentes confrontando opiniões sobre as mesmas polêmicas.
Diário de Campo V.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 17/06/96.
Horário: entre 14h e 16 horas.
Especificidades do dia: Radiologia e PS.
Esse é um daqueles dias que podemos chamar de relativamente improdutivos. Isto por que era agoniante ver o hospital com um sem número de casos diferentes e não poder tirar proveito pelo excessivo número de gente circulante. A impressão que me perseguiu nas duas horas que por lá fiquei foi, a de atrapalhar.
Assim que cheguei, o profissional de Segurança Darciney, meu mais novo “colega”, veio me cumprimentar dizendo o quão horrível estava o hospital naquele dia. Me apontou duas macas postas no corredor por não haver espaço no PS e na UPT. O corredor estava intransitável. Me dirigi à porta de saída que se encontrava fechada por força da necessidade, onde estavam as macas “excessivas”, para conversar com o acompanhante do paciente. Reynaldo Fernandes, 18 anos, fora atropelado no méier. Teve os primeiros atendimentos mas agonizava de dor com fraturas múltiplas, escoriações e provavelmente outras lesões invisíveis ao leigo. Fico imaginando que se ali, estavam os casos mais contornáveis, como não estaria o PS hoje.
De fato, o PS e a UPT estavam abarrotados, sem a menor condição de transitar. Cheguei a pegar o acadêmico Alexandre, do PS, o mesmo que junto com Marcelo e Sueli travamos contato no dia 10/06, e que insiste em perguntar para os acadêmicos do projeto se somos X9 do César Maia, saindo do PS pois acabava seu plantão. Me deu um panorama geral do serviço naquele dia aconselhando não entrar nem no PS nem na UPT pelo inchaço que se encontravam.
Resolvi ir então, à Radiologia verificar os equipamentos e travar novos contatos. Tudo estava funcionando, inclusive a Tomografia Computadorizada que ontem quebrara. A Dra. Marise plantonista da radiologia, disse ser este o pior dia por ser segunda-feira. Disse a ela ter conversado com três pacientes antes de contacta-la, na espera de radiografia, que haviam chegado lá por volta das 10h e 30m e somente entraram para atendimento às 14h e 30m. Mas, também vi neste tempo que a aguardava, uma equipe ininterruptamente trabalhando. Me respondeu atribuindo “inchaço”, dizendo que nada mais poderia ser feito a não ser trabalhar sem parar de 8h às 18h quando, às segundas-feiras, este serviço começa a se tranqüilizar. “O CT voltou a funcionar apesar de ser um fusquinha em termos da necessidade do hospital. Essa máquina não dá conta do atendimento de Emergência, apenas do atendimento de rotina”, frisou ela me mostrando o equipamento e todo o suporte de infraestrutura que ele necessita. Aproveitei o fato de estarmos numa sala reservada, já que era onde se comandava as Tomografias, para cutucar sob as relações entre as equipes já que a radiologia acaba sendo um desembocador dos diversos setores que precisam daqueles serviços: “A relação entre as equipes é boa apesar das brigas constantes (sic). O PS diz ter os casos mais graves e pede preferência; a UPT idem; a Ortopedia a mesma coisa e assim por diante. O que falta na realidade para melhorar o atendimento, é aumentar o espaço físico. Por mim o HMSF só atenderia os casos de Emergência, o que mesmo assim não daria vazão. Não são as enfermeiras que tem má vontade, o problema é que elas são poucas para o montante de atendimento”. Relata a médica, que destaca o serviço de neurocirurgia como “excelente”. Considero muito proveitosa essa investida na Radiologia até para ter visões de pessoas diferentes confrontando opiniões sobre as mesmas polêmicas.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Curtas da Nossa América
Congreso paraguayo analizará dimisión de presidente24.Junio.08Asunción. — El Congreso paraguayo se reune este martes en una sesión extraordinaria que prevé analizar la renuncia del presidente de la República, Nicanor Duarte, la cual ha dividido criterios tanto en la oposición como al interior del oficialismo.
• Abanderan campaña de alfabetización en Nicaragua24.Junio.08MANAGUA. — El presidente de Nicaragua, Daniel Ortega, abanderó la campaña de alfabetización "De Martí a Fidel" utilizando el método cubano "Yo sí puedo".
• Descartan ruptura política en proceso de cambio en Ecuador24.Junio.08QUITO. — Asambleístas del movimiento Acuerdo País (AP) descartaron una ruptura en esa organización o en el proceso de cambio que se impulsa en la Asamblea Constituyente, la cual elabora una nueva Carta Magna.
• Camión cae a barranco y deja 19 muertos en Bolivia23.Junio.08LA PAZ . — Un camión de carga se precipitó a un barranco y provocó la muerte de sus 19 ocupantes en una región montañosa del centro del país, informó el domingo la policía.
• Casi 300 muertos en Dominicana por descargas eléctricas23.Junio.08SANTO DOMINGO. — El año pasado casi 300 dominicanos murieron por lo que puede considerarse una pandemia provocada por la inflación y la pobreza: electrocutadas cuando trataban de conectarse de manera ilegal a la red energética.
• Ecuador amenaza con cortar diálogo UE por tema migratorio23.Junio.08QUITO Ecuador examinará la posibilidad de "cortar los diálogos" con la Unión Europea, que buscan suscribir un acuerdo con los países andinos, si no se escuchan los reparos a las nuevas normas europeas sobre los emigrantes, advirtió el presidente Rafael Correa.
• Decomisan en Venezuela una tonelada de marihuana23.Junio.08CARACAS. — Efectivos de la Guardia Nacional de la isla Margarita, perteneciente al estado venezolano Nueva Esparta, decomisaron hoy una tonelada de marihuana, informó el presidente de la Oficina Nacional Antidrogas, Néstor Reverol.
• Inicia visita oficial a México presidente uruguayo23.Junio.08MÉXICO . — El presidente de Uruguay, Tabaré Vazquez, iniciauna visita oficial de tres días a México, a donde arribó la víspera procedente de Cuba, segunda escala de una gira regional que incluyó además Panamá.
• Diputados latinoamericanos rechazan directiva antinmigrante23.Junio.08CARACAS, 22 de junio.— Diputados del Parlamento Latinoamericano (PARLATINO) criticaron hoy la directiva antinmigrante aprobada recientemente por el Parlamento Europeo, que consideraron discriminatoria, reportó PL.
• Notable ausentismo en referendo autonómico en región boliviana23.Junio.08TARIJA, Bolivia, 22 de junio.— El ausentismo constituyó una de las notas dominantes en el referendo autonómico que se desarrolló este domingo aquí, patrocinado por la derecha y declarado ilegal por el Gobierno y la Corte Nacional Electoral del país.
• Chávez advierte suspender petróleo a europeos por caso de inmigrantes20.Junio.08CARACAS . — El presidente Hugo Chávez advirtió con suspender el suministro de petróleo a los países europeos que apliquen la nueva norma para repatriar a los inmigrantes indocumentados, en tanto el mandatario boliviano Evo Morales dijo que la normativa puede desencadenar violencia en Europa y Latinoamérica.
• Embarazada argentina cavó su tumba antes de ser ejecutada20.Junio.08BUENOS AIRES. — Una joven prisionera embarazada cavó su propia tumba antes de ser ejecutada durante la última dictadura argentina (1976-83), reveló hoy un ex policía durante un juicio que se celebra en la provincia de Córdoba.
• México: presidente ya no comparecerá cada año al Congreso20.Junio.08MEXICO. — El Senado aprobó que el presidente de turno no deba comparecer anualmente al Congreso a rendir un informe de su gestión, el cual podrá presentar por escrito en virtud de la tensión que los últimos dos años impidieron presentarse a los gobernantes de turno.
• Presidente paraguayo promete integración a la Patria Grande20.Junio.08CARACAS . — El presidente electo de Paraguay, Fernando Lugo, prometió la integración plena de su país, sin desentonar, al sueño de la Patria Grande junto a los otros gobiernos progresistas de América Latina.
• Presidente Torrijos por diálogo para resolver paro del transporte20.Junio.08PANAMÁ . — El presidente de Panamá, Martín Torrijos, exhortó al diálogo para resolver el paro del transporte público que cumple dos días en la capital del país.
• Chávez confirma próxima junta con Uribe20.Junio.08CARACAS -. — El presidente venezolano, Hugo Chávez, confirmó que se reunirá próximamente con su par colombiano, Álvaro Uribe, y reiteró la voluntad de colaborar con el proceso de paz en el vecino país.
• Chile facilitará acceso marítimo a Bolivia por Iquique 18.Junio.08LA PAZ . — Chile aceptó la realización de "estudios técnicos" para facilitar el acceso de Bolivia al mar por Iquique y por el momento ha puesto a su servicio ese puerto ubicado en el norte chileno, informaron el martes los vicecancilleres de ambos países.
• Esperan en Ecuador a familiares de mexicanos muertos 18.Junio.08QUITO . — Familiares de los cuatro mexicanos muertos en un ataque colombiano a un campamento de las FARC en suelo ecuatoriano, son esperados en este país como parte de una gira regional que busca demostrar que los fallecidos no eran subversivos, se informó.
• Evo Morales pide a George Bush exigir explicaciones a USAID18.Junio.08LA PAZ. — El presidente boliviano, Evo Morales, solicitó a su homólogo norteamericano, George W. Bush, que exija explicaciones a la Agencia de Estados Unidos para el Desarrollo Internacional (USAID) por sus acciones subversivas en esta nación.
• Moratinos califica como exitosas reuniones oficiales en Venezuela18.Junio.08CARACAS, . — El canciller español, Miguel Ángel Moratinos, aseguró que su visita a Venezuela fue un éxito, y traslada a Bogotá un saludo cordial del presidente Hugo Chávez para su par colombiano, Álvaro Uribe.
• Paraguay se suma a una Latinoamérica social y progresista18.Junio.08QUITO . — El presidente electo paraguayo, Fernando Lugo, afirmó aquí que su nación se suma a la nueva América Latina social y progresista, en la cual hay que aprender de Ecuador.
• Denuncia Evo acciones subversivas de la USAID en Bolivia18.Junio.08LA PAZ, 17 de junio.–– El presidente boliviano, Evo Morales, solicitó hoy a su homólogo norteamericano, George W. Bush, que exija explicaciones a la Agencia de Estados Unidos para el Desarrollo Internacional (USAID) por sus acciones subversivas en esta nación, informó PL.
• Presidente electo paraguayo apuesta por una soberanía con equidad17.Junio.08QUITO.— El presidente electo de Paraguay, Fernando Lugo, apostó por construir un país soberano con equidad durante una visita realizada a la ciudad de Guaranda, capital de la central provincia ecuatoriana de Bolívar.
• Denuncian intento de complot golpista contra gobierno argentino17.Junio.08BUENOS AIRES.— El líder de la Federación por la Tierra y la Vivienda (FTV) de Argentina, Luis D'Elía, denunció un intento de golpe de Estado económico contra el gobierno de la presidenta Cristina Fernández.
• Un general y 13 policías rehenes de manifestantes en el sur de Perú17.Junio.08LIMA.—Miles de pobladores en huelga mantienen retenidos a un general de la policía y a 13 agentes, siete de ellos heridos, tras violentos enfrentamientos entre policías antimotines y huelguistas en la región peruana de Moquegua (sur), según informó el propio oficial retenido.
• Fortalecen sus relaciones Panamá y Uruguay17.Junio.08PANAMÁ.— Los presidente de Panamá y Uruguay, Martín Torrijos y Tabaré Vázquez, respectivamente, confirmaron el interés de ambos países de fortalecer sus nexos políticos, económicos, comerciales y culturales.
• Ejército destruye dos laboratorios de coca en frontera con Colombia17.Junio.08QUITO.— El Ejército de Ecuador destruyó dos laboratorios en los que se procesaba pasta de coca, ubicados en la provincia noroccidental de Esmeraldas, cerca de la frontera con Colombia, informó hoy esa institución en un comunicado.
• Destacan medios compras estadounidenses de gasolina barata en México17.Junio.08MÉXICO.— La masividad del ingreso de norteamericanos a México para comprar gasolina mucho más barata que en su país, destacaron medios informativos de esta capital.
• Bolivia y Chile firman históricos acuerdos en materia militar17.Junio.08LA PAZ.— Bolivia y Chile, que se enfrentaron en una guerra en 1879 y que carecen de relaciones diplomáticas desde hace más de un cuarto de siglo, firmaron este lunes acuerdos en materia militar considerados "históricos" por ambos gobiernos.
• Abanderan campaña de alfabetización en Nicaragua24.Junio.08MANAGUA. — El presidente de Nicaragua, Daniel Ortega, abanderó la campaña de alfabetización "De Martí a Fidel" utilizando el método cubano "Yo sí puedo".
• Descartan ruptura política en proceso de cambio en Ecuador24.Junio.08QUITO. — Asambleístas del movimiento Acuerdo País (AP) descartaron una ruptura en esa organización o en el proceso de cambio que se impulsa en la Asamblea Constituyente, la cual elabora una nueva Carta Magna.
• Camión cae a barranco y deja 19 muertos en Bolivia23.Junio.08LA PAZ . — Un camión de carga se precipitó a un barranco y provocó la muerte de sus 19 ocupantes en una región montañosa del centro del país, informó el domingo la policía.
• Casi 300 muertos en Dominicana por descargas eléctricas23.Junio.08SANTO DOMINGO. — El año pasado casi 300 dominicanos murieron por lo que puede considerarse una pandemia provocada por la inflación y la pobreza: electrocutadas cuando trataban de conectarse de manera ilegal a la red energética.
• Ecuador amenaza con cortar diálogo UE por tema migratorio23.Junio.08QUITO Ecuador examinará la posibilidad de "cortar los diálogos" con la Unión Europea, que buscan suscribir un acuerdo con los países andinos, si no se escuchan los reparos a las nuevas normas europeas sobre los emigrantes, advirtió el presidente Rafael Correa.
• Decomisan en Venezuela una tonelada de marihuana23.Junio.08CARACAS. — Efectivos de la Guardia Nacional de la isla Margarita, perteneciente al estado venezolano Nueva Esparta, decomisaron hoy una tonelada de marihuana, informó el presidente de la Oficina Nacional Antidrogas, Néstor Reverol.
• Inicia visita oficial a México presidente uruguayo23.Junio.08MÉXICO . — El presidente de Uruguay, Tabaré Vazquez, iniciauna visita oficial de tres días a México, a donde arribó la víspera procedente de Cuba, segunda escala de una gira regional que incluyó además Panamá.
• Diputados latinoamericanos rechazan directiva antinmigrante23.Junio.08CARACAS, 22 de junio.— Diputados del Parlamento Latinoamericano (PARLATINO) criticaron hoy la directiva antinmigrante aprobada recientemente por el Parlamento Europeo, que consideraron discriminatoria, reportó PL.
• Notable ausentismo en referendo autonómico en región boliviana23.Junio.08TARIJA, Bolivia, 22 de junio.— El ausentismo constituyó una de las notas dominantes en el referendo autonómico que se desarrolló este domingo aquí, patrocinado por la derecha y declarado ilegal por el Gobierno y la Corte Nacional Electoral del país.
• Chávez advierte suspender petróleo a europeos por caso de inmigrantes20.Junio.08CARACAS . — El presidente Hugo Chávez advirtió con suspender el suministro de petróleo a los países europeos que apliquen la nueva norma para repatriar a los inmigrantes indocumentados, en tanto el mandatario boliviano Evo Morales dijo que la normativa puede desencadenar violencia en Europa y Latinoamérica.
• Embarazada argentina cavó su tumba antes de ser ejecutada20.Junio.08BUENOS AIRES. — Una joven prisionera embarazada cavó su propia tumba antes de ser ejecutada durante la última dictadura argentina (1976-83), reveló hoy un ex policía durante un juicio que se celebra en la provincia de Córdoba.
• México: presidente ya no comparecerá cada año al Congreso20.Junio.08MEXICO. — El Senado aprobó que el presidente de turno no deba comparecer anualmente al Congreso a rendir un informe de su gestión, el cual podrá presentar por escrito en virtud de la tensión que los últimos dos años impidieron presentarse a los gobernantes de turno.
• Presidente paraguayo promete integración a la Patria Grande20.Junio.08CARACAS . — El presidente electo de Paraguay, Fernando Lugo, prometió la integración plena de su país, sin desentonar, al sueño de la Patria Grande junto a los otros gobiernos progresistas de América Latina.
• Presidente Torrijos por diálogo para resolver paro del transporte20.Junio.08PANAMÁ . — El presidente de Panamá, Martín Torrijos, exhortó al diálogo para resolver el paro del transporte público que cumple dos días en la capital del país.
• Chávez confirma próxima junta con Uribe20.Junio.08CARACAS -. — El presidente venezolano, Hugo Chávez, confirmó que se reunirá próximamente con su par colombiano, Álvaro Uribe, y reiteró la voluntad de colaborar con el proceso de paz en el vecino país.
• Chile facilitará acceso marítimo a Bolivia por Iquique 18.Junio.08LA PAZ . — Chile aceptó la realización de "estudios técnicos" para facilitar el acceso de Bolivia al mar por Iquique y por el momento ha puesto a su servicio ese puerto ubicado en el norte chileno, informaron el martes los vicecancilleres de ambos países.
• Esperan en Ecuador a familiares de mexicanos muertos 18.Junio.08QUITO . — Familiares de los cuatro mexicanos muertos en un ataque colombiano a un campamento de las FARC en suelo ecuatoriano, son esperados en este país como parte de una gira regional que busca demostrar que los fallecidos no eran subversivos, se informó.
• Evo Morales pide a George Bush exigir explicaciones a USAID18.Junio.08LA PAZ. — El presidente boliviano, Evo Morales, solicitó a su homólogo norteamericano, George W. Bush, que exija explicaciones a la Agencia de Estados Unidos para el Desarrollo Internacional (USAID) por sus acciones subversivas en esta nación.
• Moratinos califica como exitosas reuniones oficiales en Venezuela18.Junio.08CARACAS, . — El canciller español, Miguel Ángel Moratinos, aseguró que su visita a Venezuela fue un éxito, y traslada a Bogotá un saludo cordial del presidente Hugo Chávez para su par colombiano, Álvaro Uribe.
• Paraguay se suma a una Latinoamérica social y progresista18.Junio.08QUITO . — El presidente electo paraguayo, Fernando Lugo, afirmó aquí que su nación se suma a la nueva América Latina social y progresista, en la cual hay que aprender de Ecuador.
• Denuncia Evo acciones subversivas de la USAID en Bolivia18.Junio.08LA PAZ, 17 de junio.–– El presidente boliviano, Evo Morales, solicitó hoy a su homólogo norteamericano, George W. Bush, que exija explicaciones a la Agencia de Estados Unidos para el Desarrollo Internacional (USAID) por sus acciones subversivas en esta nación, informó PL.
• Presidente electo paraguayo apuesta por una soberanía con equidad17.Junio.08QUITO.— El presidente electo de Paraguay, Fernando Lugo, apostó por construir un país soberano con equidad durante una visita realizada a la ciudad de Guaranda, capital de la central provincia ecuatoriana de Bolívar.
• Denuncian intento de complot golpista contra gobierno argentino17.Junio.08BUENOS AIRES.— El líder de la Federación por la Tierra y la Vivienda (FTV) de Argentina, Luis D'Elía, denunció un intento de golpe de Estado económico contra el gobierno de la presidenta Cristina Fernández.
• Un general y 13 policías rehenes de manifestantes en el sur de Perú17.Junio.08LIMA.—Miles de pobladores en huelga mantienen retenidos a un general de la policía y a 13 agentes, siete de ellos heridos, tras violentos enfrentamientos entre policías antimotines y huelguistas en la región peruana de Moquegua (sur), según informó el propio oficial retenido.
• Fortalecen sus relaciones Panamá y Uruguay17.Junio.08PANAMÁ.— Los presidente de Panamá y Uruguay, Martín Torrijos y Tabaré Vázquez, respectivamente, confirmaron el interés de ambos países de fortalecer sus nexos políticos, económicos, comerciales y culturales.
• Ejército destruye dos laboratorios de coca en frontera con Colombia17.Junio.08QUITO.— El Ejército de Ecuador destruyó dos laboratorios en los que se procesaba pasta de coca, ubicados en la provincia noroccidental de Esmeraldas, cerca de la frontera con Colombia, informó hoy esa institución en un comunicado.
• Destacan medios compras estadounidenses de gasolina barata en México17.Junio.08MÉXICO.— La masividad del ingreso de norteamericanos a México para comprar gasolina mucho más barata que en su país, destacaron medios informativos de esta capital.
• Bolivia y Chile firman históricos acuerdos en materia militar17.Junio.08LA PAZ.— Bolivia y Chile, que se enfrentaron en una guerra en 1879 y que carecen de relaciones diplomáticas desde hace más de un cuarto de siglo, firmaron este lunes acuerdos en materia militar considerados "históricos" por ambos gobiernos.
Mais uma vergonha da imprensa!
(Ernesto Germano Parés)
Hoje, lendo os jornais, fiquei preocupado com as matérias dizendo que “Interpol comprova autenticidade dos arquivos apreendidos das Farc”. O Jornal do Brasil, em uma matéria secundária, chega a afirmar que os presidentes da Venezuela e do Equador estariam envolvidos.
Claro que isto me interessa e preocupa, motivo pelo qual resolvi pensar um pouco sobre a matéria e fazer algumas pesquisas na internet.
A primeira idéia que me passou pela cabeça foi fazer a seguinte pergunta: “É legal a denúncia feita pela Colômbia de que teria encontrado provas contra os dois presidentes em um computador de um guerrilheiro das FARC”?
Bem, comecei a imaginar: pelo que sabemos através dos próprios jornais, os tais computadores teriam sido pegos (roubados) pelo exército colombiano durante uma incursão aérea a território do Equador, sem permissão deste, durante a noite do dia 1 de março, bombardeando o acampamento de militantes das FARC e matando indiscriminadamente, inclusive uma estudante mexicana que fazia um trabalho universitário. Em outras palavras, os computadores foram pegos sem qualquer acompanhamento pericial ou ordem judicial. Qual tribunal, no mundo, aceitaria estas provas? Só o Bush, é claro!
Mas, então, passei para a segunda fase do meu estudo e resolvi pesquisar. Descobri que o tal relatório da Interpol está disponível, na íntegra (94 páginas), para quem entender espanhol. Basta acessar em: http://www.interpol.int/Public/ICPO/PressReleases/PR2008/pdfPR200817/ipPublicReportNoCoverES.pdf
Passei a ler o relatório (não terminei ainda) e encontrei contradições enormes entre o que nossa imprensa está noticiando e o texto dos peritos.
Em primeiro lugar, o chefe da Interpol deixa claro que “o conteúdo dos discos rígidos não foram analisados”. Os peritos apenas declaram que [b] os discos rígidos externos [/b] não foram alterados. Os “discos”, não o conteúdo!
Na página 31 do relatório, encontramos uma informação muito importante. Os técnicos da Interpol afirmam que “as autoridades colombianas manipularam os índices dos arquivos e as memórias do computador”, concluindo que “o acesso aos dados contidos nas citadas provas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas eletrônicas por parte de organismos encarregados da aplicação da lei”. Precisa dizer mais?
Algumas páginas adiante, o relatório da Interpol diz que os discos rígidos externos foram “apagados no dia 3 de março” (ou seja, dois dias depois do ataque), em horários diferentes. Os peritos dizem ainda que “os três discos rígidos externos e as três chaves USB haviam sido conectados a outro computador, entre 1 e 3 de março, sem que tenham sido feitas cópias prévias, com imagens forenses de seus conteúdos e sem ser empregado dispositivo de bloqueio de novas escritas (write-blokers)”.
Bem, agora cada um pode tirar sua conclusão dos fatos. Convido a lerem o relatório... É um pouco longo, mas não deixa dúvidas de mais uma armação de Bush, Uribe e Cia, com o apoio da nossa grande imprensa tão preocupada com a “liberdade de expressão”.
Hoje, lendo os jornais, fiquei preocupado com as matérias dizendo que “Interpol comprova autenticidade dos arquivos apreendidos das Farc”. O Jornal do Brasil, em uma matéria secundária, chega a afirmar que os presidentes da Venezuela e do Equador estariam envolvidos.
Claro que isto me interessa e preocupa, motivo pelo qual resolvi pensar um pouco sobre a matéria e fazer algumas pesquisas na internet.
A primeira idéia que me passou pela cabeça foi fazer a seguinte pergunta: “É legal a denúncia feita pela Colômbia de que teria encontrado provas contra os dois presidentes em um computador de um guerrilheiro das FARC”?
Bem, comecei a imaginar: pelo que sabemos através dos próprios jornais, os tais computadores teriam sido pegos (roubados) pelo exército colombiano durante uma incursão aérea a território do Equador, sem permissão deste, durante a noite do dia 1 de março, bombardeando o acampamento de militantes das FARC e matando indiscriminadamente, inclusive uma estudante mexicana que fazia um trabalho universitário. Em outras palavras, os computadores foram pegos sem qualquer acompanhamento pericial ou ordem judicial. Qual tribunal, no mundo, aceitaria estas provas? Só o Bush, é claro!
Mas, então, passei para a segunda fase do meu estudo e resolvi pesquisar. Descobri que o tal relatório da Interpol está disponível, na íntegra (94 páginas), para quem entender espanhol. Basta acessar em: http://www.interpol.int/Public/ICPO/PressReleases/PR2008/pdfPR200817/ipPublicReportNoCoverES.pdf
Passei a ler o relatório (não terminei ainda) e encontrei contradições enormes entre o que nossa imprensa está noticiando e o texto dos peritos.
Em primeiro lugar, o chefe da Interpol deixa claro que “o conteúdo dos discos rígidos não foram analisados”. Os peritos apenas declaram que [b] os discos rígidos externos [/b] não foram alterados. Os “discos”, não o conteúdo!
Na página 31 do relatório, encontramos uma informação muito importante. Os técnicos da Interpol afirmam que “as autoridades colombianas manipularam os índices dos arquivos e as memórias do computador”, concluindo que “o acesso aos dados contidos nas citadas provas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas eletrônicas por parte de organismos encarregados da aplicação da lei”. Precisa dizer mais?
Algumas páginas adiante, o relatório da Interpol diz que os discos rígidos externos foram “apagados no dia 3 de março” (ou seja, dois dias depois do ataque), em horários diferentes. Os peritos dizem ainda que “os três discos rígidos externos e as três chaves USB haviam sido conectados a outro computador, entre 1 e 3 de março, sem que tenham sido feitas cópias prévias, com imagens forenses de seus conteúdos e sem ser empregado dispositivo de bloqueio de novas escritas (write-blokers)”.
Bem, agora cada um pode tirar sua conclusão dos fatos. Convido a lerem o relatório... É um pouco longo, mas não deixa dúvidas de mais uma armação de Bush, Uribe e Cia, com o apoio da nossa grande imprensa tão preocupada com a “liberdade de expressão”.
domingo, 15 de junho de 2008
José Bispo Clementino dos Santos
O sábado não amanheceu no pomar do samba. Fruta doce e ácida, como a personalidade de seu xará, Jamelão foi um dos frutos mais nobres da Mangueira que não só dá manga.
Morreu ontem de falência múltipla dos órgãos o homem por trás da voz que embalou parte da história de uma das mais tradicionais escolas de samba do Brasil. Jamelão imortalizou suas interpretações mas constatou que ninguém consegue fugir da inevitabilidade do tempo e, agora, virou adubo para outros talentos não deixarem morrer de falência múltipla cultural nossa já tão combalida saúde musical.
Queria acreditar que esta noite tem roda de samba no céu. Num exercício de pura transgressão aos meus princípios, consigo ver uma grande mesa sorrir. Lá está Pixinguinha com seu olhar terno e seu pulmão a serviço do sopro entoando um solo enquanto todos se levantam em homenagem ao mais novo membro da equipe celestial do samba. Também vejo compositores imortais como Nelson Sargento, Silas de Oliveira, Cartola, Noel Rosa... Foi aí que Jacob do Bandolim começou a dedilhar as cordas e o dueto fez todos aplaudirem a história terrena de Jamelão. Tinha muito mais gente na minha divagação, mas o nosso intéprete, amarrou uma liga de borracha entre os dedos da mão esquerda e começou a cantar, contando com um coral de primeira como João Nogueira, Gonzaguinha, Clementina de Jesus...
"... quem me vê sorrindo
pensa que eu estou alegre
o meu sorriso é por consolação
por que sei conter, para ninguém ver
o pranto do meu coração..."
Que a terra fertilizada que Jamelão jaz, dê frutos não só na Mangueira, mas também na Portela, no Império Serrano, na Vila Isabel... e que desta forma o samba resista forte como o homem que nunca se dobrou e apenas aos 95 anos deixou o microfone emudecer, a espera de uma nova semente.
Morreu ontem de falência múltipla dos órgãos o homem por trás da voz que embalou parte da história de uma das mais tradicionais escolas de samba do Brasil. Jamelão imortalizou suas interpretações mas constatou que ninguém consegue fugir da inevitabilidade do tempo e, agora, virou adubo para outros talentos não deixarem morrer de falência múltipla cultural nossa já tão combalida saúde musical.
Queria acreditar que esta noite tem roda de samba no céu. Num exercício de pura transgressão aos meus princípios, consigo ver uma grande mesa sorrir. Lá está Pixinguinha com seu olhar terno e seu pulmão a serviço do sopro entoando um solo enquanto todos se levantam em homenagem ao mais novo membro da equipe celestial do samba. Também vejo compositores imortais como Nelson Sargento, Silas de Oliveira, Cartola, Noel Rosa... Foi aí que Jacob do Bandolim começou a dedilhar as cordas e o dueto fez todos aplaudirem a história terrena de Jamelão. Tinha muito mais gente na minha divagação, mas o nosso intéprete, amarrou uma liga de borracha entre os dedos da mão esquerda e começou a cantar, contando com um coral de primeira como João Nogueira, Gonzaguinha, Clementina de Jesus...
"... quem me vê sorrindo
pensa que eu estou alegre
o meu sorriso é por consolação
por que sei conter, para ninguém ver
o pranto do meu coração..."
Que a terra fertilizada que Jamelão jaz, dê frutos não só na Mangueira, mas também na Portela, no Império Serrano, na Vila Isabel... e que desta forma o samba resista forte como o homem que nunca se dobrou e apenas aos 95 anos deixou o microfone emudecer, a espera de uma nova semente.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Saudades...
Chico Mamão
Há cinco anos sinto falta dos almoços de domingo, regado a gargalhadas e repetitivas histórias de uma Mossoró que parece resistir romântica enquanto escrevo.Há cinco anos não planejo abrir o carnaval no sábado de desfile do Cordão do Bola Preta, para mais uma vez chegar acompanhado e voltar sozinho, ainda que feliz.Há cinco anos não ouço despudorados elogios à quadrilha que saqueou os cofres públicos nacionais em tempos ditatoriais.Há cinco anos não vejo se repetir a rotina de brigas conjugais no dia 1º de Maio, quando mais um outono matrimonial completava seu ciclo.Há cinco anos não tiro o carro da garagem para ir te buscar no botequim num sábado ensolarado e também não fui mais recebido de braços abertos, entre gargalhadas desproporcionais e assuntos irrelevantes, naquilo que se convencionou chamar de "Senado".Há cinco anos não tomo àqueles esporros clássicos que misturavam passado, presente e futuro, mas que me deixavam entre o ridículo e o enraivecido.Há cinco anos não presencio cenas de carinho bronco.Há cinco anos minhas narinas não são tomadas pelo impregnante cheiro de peixe que entranhava seus poros desde o Ceasa.Há cinco anos não testemunho sua introspecção preenchendo velhos formulários rosados, pedidos de caixas plásticas, que virariam nossa renda mensal.Há cinco anos não sentamos juntos à mesa de um bar para celebrarmos a vida, mas não sem antes jogar aquele curioso "abre trabalhos" numérico parecido com bingo, que mesmo chato, era mais tradicional nesse tipo de encontro do que o brinde entre copos.Há cinco anos tantas coisas são diferentes...A saudade corrói enquanto o monitor embaçado arremete luzes que não estavam aqui quando cheguei. Sinto muita falta do pai que me ensinou tantas coisas, mas que não conseguiu me ensinar a controlar minha dor.Saliva que se engole, olhos que se esfregam, vida que segue.
Há cinco anos sinto falta dos almoços de domingo, regado a gargalhadas e repetitivas histórias de uma Mossoró que parece resistir romântica enquanto escrevo.Há cinco anos não planejo abrir o carnaval no sábado de desfile do Cordão do Bola Preta, para mais uma vez chegar acompanhado e voltar sozinho, ainda que feliz.Há cinco anos não ouço despudorados elogios à quadrilha que saqueou os cofres públicos nacionais em tempos ditatoriais.Há cinco anos não vejo se repetir a rotina de brigas conjugais no dia 1º de Maio, quando mais um outono matrimonial completava seu ciclo.Há cinco anos não tiro o carro da garagem para ir te buscar no botequim num sábado ensolarado e também não fui mais recebido de braços abertos, entre gargalhadas desproporcionais e assuntos irrelevantes, naquilo que se convencionou chamar de "Senado".Há cinco anos não tomo àqueles esporros clássicos que misturavam passado, presente e futuro, mas que me deixavam entre o ridículo e o enraivecido.Há cinco anos não presencio cenas de carinho bronco.Há cinco anos minhas narinas não são tomadas pelo impregnante cheiro de peixe que entranhava seus poros desde o Ceasa.Há cinco anos não testemunho sua introspecção preenchendo velhos formulários rosados, pedidos de caixas plásticas, que virariam nossa renda mensal.Há cinco anos não sentamos juntos à mesa de um bar para celebrarmos a vida, mas não sem antes jogar aquele curioso "abre trabalhos" numérico parecido com bingo, que mesmo chato, era mais tradicional nesse tipo de encontro do que o brinde entre copos.Há cinco anos tantas coisas são diferentes...A saudade corrói enquanto o monitor embaçado arremete luzes que não estavam aqui quando cheguei. Sinto muita falta do pai que me ensinou tantas coisas, mas que não conseguiu me ensinar a controlar minha dor.Saliva que se engole, olhos que se esfregam, vida que segue.
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 5
Uma visita ao Inferno!
Rio de Janeiro, 17 de junho de 1996.
Diário de Campo IV.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 16/06/96.
Horário: entre 17h e 19 horas
Especificidade do dia: UPT, PS, Sutura e Radiologia.
Chegamos ao hospital, eu e Marcelo, como se não tivéssemos por lá pisado antes, afinal era o primeiro fim de semana que cobríamos, e pelo menos eu, não tinha a menor idéia das peculiaridades que encontraríamos.
De princípio, não observei nada de anormal a não ser a abordagem da equipe de acadêmicos de medicina à serviço do projeto, que se queixava insistentemente do profissional de segurança chamado Carlos, que estaria “atrapalhando” o trabalho por eles realizado. A queixa não era vã. O segurança não respeitava o “acordo” tácito feito anteriormente que rezava a permissão da equipe ou na sala de feitura das fichas de entrada dos pacientes ou na recepção de triagem médica, se dirigindo segundo a equipe com extrema grosseria. Fomos até à chefia da emergência do dia e, pelo menos aparentemente, o problema foi contornado.
Após ajudarmos a apagar esse pequeno incêndio, fomos à UPT - Unidade do Politraumatizados, cuja ocupação transbordava à normalidade. Parecia um choupana de guerra daqueles filmes americanos de quinta categoria por mais duro que seja adjetivar assim, e o pior de tudo é que ainda se dava ao luxo de ficar abandonada, pois não vimos mais que um profissional de branco circulando, em um dos ventrículos do coração da Emergência.
Partimos então ao PS, o que nessa altura do campeonato já me representa overdose de adrenalina. Tudo bem que não sou nenhum exemplo de fortaleza no que se refere a hospitais, mais convenhamos... No pronto socorro vimos de aproximadamente 10 leitos, sete idosos, sendo apenas uma maca de causa externa que teria sido operado na ortopedia. Duas coisas nos chamou a atenção: primeiro, o fato de um paciente ter sido operado na ortopedia e estar agora no PS; e, segundo, a constância de idosos neste setor. Foi aí que interpelamos mais um bom contato, a auxiliar de enfermagem Margarida. De pronto, sem nenhuma cerimônia, após a apresentação, já foi nos despejando sua versão sobre o funcionamento tanto do PS quanto da UPT, logo que estimulada: “... a UPT é para os casos de emergência e o PS é o depósito. Eles jogam os pacientes aqui. Se pintar uma vaga, os pacientes sobem, se não, ficam por aqui mesmo”. Ora não quero crer que seja sintomático o fato de termos sempre um número expressivo de idosos, no “depósito”, digo, no PS. Por que assim cresse, teria que admitir a hipótese de ali ser para além de um “depósito”, uma sala de espera para a eternidade. Resolvemos abaixar nossa adrenalina, ou será só a minha? Logo, saímos deste setor. Porém, antes indagamos Margarida à respeito de quatro macas que se encontravam no corredor de acesso a todos os setores da Emergência, e ela nos disse que ali se encontravam por não haver mais espaço na UPT, e na medida que fosse chegando casos graves, iria se retirando os “pacientes mais ou menos estabilizados” e os colocando no corredor.
Passamos então à Radiologia, setor que muito é acionado dado o número de demanda. Contatamos a Dra. Mônica, radiologista especialista em tomografia computadorizada, que ao mesmo tempo se mostrava num misto de reticência com colaboracionismo. Ratificou o que de fato pudemos observar nesse tempo de Campo, o setor funciona bem apesar da grande demanda. “O setor público tem deficiências aqui, ou em qualquer outro hospital. Porém, é a única coisa que essa gente tem”. Quando indagada quanto a manutenção dos aparelhos, ela coloca depender do problema do aparelho para reparo. Deu como exemplo o CT, que estava sem funcionamento por um problema “simples” na maca, e em casos assim, os pacientes eram encaminhados ao Souza Aguiar. Por fim definiu assim o Setor Público: “...equipamentos antigos, falta maqueiros, entretanto os profissionais que trabalham aqui são bons”. Deduzo além do visível quanto ao quadro geral da saúde pública, uma referência clara a equipe da radiologia, sempre aludida por ela na sua fala. Isto para mim, trás no seu interior uma discussão mais profunda sobre as interrelações das equipes que forma o Todo da Emergência no Salgado Filho, e fica mais claro com o passar das entrevistas.
Vejamos então, o caso do acadêmico de medicina Rui, dois meses de Salgado Filho, que trabalha no setor de Suturas. Há mais ou menos 20 casos de suturas por causas externas em cada plantão, começa Rui para logo desfilar conceitos a cerca do serviço público: “faltam recursos materiais como xilocaína, fios, etc. Mas o que me deixa mais P. não é nem isso. É o pessoal da enfermagem, que são muito displicentes quanto o atendimento. Para pegar o material, temos que ir até a enfermeira por conta da burocracia do hospital - para evitar roubo de material... - e quase nunca eles estão lá. São verdadeiros MORCEGOS!”. Mais uma vez, um profissional do hospital toca na tecla de disputa inter equipes. Começo a dar mais atenção quanto a observação feita logo nas primeiras investidas, pela auxiliar de enfermagem importada do Souza Aguiar, Nildéia que sentenciava: “falta calor humano”.
Outro ponto apontado pelo acadêmico, gira em torno do compromisso dos chefes da Emergência, e dos médicos plantonistas, nas trocas dos plantões. Diz Rui que, sempre ( pelo menos nos seus plantões ) mais ou menos 30 minutos antes do fim dos plantões tanto noturno quanto diurno, ninguém mais aparece no PS deixando os casos lá sem atendimento, sem atenção, até a troca de plantão. “... se eu plantonista, entrar ali nesse período de troca sem médico para monitorar, fico doidinho, não temos a menor condição. O PS é um inferno. Um bando de paciente gritando atendimento”. E finaliza dizendo-se “impotente” frente a falta de vagas nos ambulatórios e nos leitos da emergência.
Rio de Janeiro, 17 de junho de 1996.
Diário de Campo IV.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 16/06/96.
Horário: entre 17h e 19 horas
Especificidade do dia: UPT, PS, Sutura e Radiologia.
Chegamos ao hospital, eu e Marcelo, como se não tivéssemos por lá pisado antes, afinal era o primeiro fim de semana que cobríamos, e pelo menos eu, não tinha a menor idéia das peculiaridades que encontraríamos.
De princípio, não observei nada de anormal a não ser a abordagem da equipe de acadêmicos de medicina à serviço do projeto, que se queixava insistentemente do profissional de segurança chamado Carlos, que estaria “atrapalhando” o trabalho por eles realizado. A queixa não era vã. O segurança não respeitava o “acordo” tácito feito anteriormente que rezava a permissão da equipe ou na sala de feitura das fichas de entrada dos pacientes ou na recepção de triagem médica, se dirigindo segundo a equipe com extrema grosseria. Fomos até à chefia da emergência do dia e, pelo menos aparentemente, o problema foi contornado.
Após ajudarmos a apagar esse pequeno incêndio, fomos à UPT - Unidade do Politraumatizados, cuja ocupação transbordava à normalidade. Parecia um choupana de guerra daqueles filmes americanos de quinta categoria por mais duro que seja adjetivar assim, e o pior de tudo é que ainda se dava ao luxo de ficar abandonada, pois não vimos mais que um profissional de branco circulando, em um dos ventrículos do coração da Emergência.
Partimos então ao PS, o que nessa altura do campeonato já me representa overdose de adrenalina. Tudo bem que não sou nenhum exemplo de fortaleza no que se refere a hospitais, mais convenhamos... No pronto socorro vimos de aproximadamente 10 leitos, sete idosos, sendo apenas uma maca de causa externa que teria sido operado na ortopedia. Duas coisas nos chamou a atenção: primeiro, o fato de um paciente ter sido operado na ortopedia e estar agora no PS; e, segundo, a constância de idosos neste setor. Foi aí que interpelamos mais um bom contato, a auxiliar de enfermagem Margarida. De pronto, sem nenhuma cerimônia, após a apresentação, já foi nos despejando sua versão sobre o funcionamento tanto do PS quanto da UPT, logo que estimulada: “... a UPT é para os casos de emergência e o PS é o depósito. Eles jogam os pacientes aqui. Se pintar uma vaga, os pacientes sobem, se não, ficam por aqui mesmo”. Ora não quero crer que seja sintomático o fato de termos sempre um número expressivo de idosos, no “depósito”, digo, no PS. Por que assim cresse, teria que admitir a hipótese de ali ser para além de um “depósito”, uma sala de espera para a eternidade. Resolvemos abaixar nossa adrenalina, ou será só a minha? Logo, saímos deste setor. Porém, antes indagamos Margarida à respeito de quatro macas que se encontravam no corredor de acesso a todos os setores da Emergência, e ela nos disse que ali se encontravam por não haver mais espaço na UPT, e na medida que fosse chegando casos graves, iria se retirando os “pacientes mais ou menos estabilizados” e os colocando no corredor.
Passamos então à Radiologia, setor que muito é acionado dado o número de demanda. Contatamos a Dra. Mônica, radiologista especialista em tomografia computadorizada, que ao mesmo tempo se mostrava num misto de reticência com colaboracionismo. Ratificou o que de fato pudemos observar nesse tempo de Campo, o setor funciona bem apesar da grande demanda. “O setor público tem deficiências aqui, ou em qualquer outro hospital. Porém, é a única coisa que essa gente tem”. Quando indagada quanto a manutenção dos aparelhos, ela coloca depender do problema do aparelho para reparo. Deu como exemplo o CT, que estava sem funcionamento por um problema “simples” na maca, e em casos assim, os pacientes eram encaminhados ao Souza Aguiar. Por fim definiu assim o Setor Público: “...equipamentos antigos, falta maqueiros, entretanto os profissionais que trabalham aqui são bons”. Deduzo além do visível quanto ao quadro geral da saúde pública, uma referência clara a equipe da radiologia, sempre aludida por ela na sua fala. Isto para mim, trás no seu interior uma discussão mais profunda sobre as interrelações das equipes que forma o Todo da Emergência no Salgado Filho, e fica mais claro com o passar das entrevistas.
Vejamos então, o caso do acadêmico de medicina Rui, dois meses de Salgado Filho, que trabalha no setor de Suturas. Há mais ou menos 20 casos de suturas por causas externas em cada plantão, começa Rui para logo desfilar conceitos a cerca do serviço público: “faltam recursos materiais como xilocaína, fios, etc. Mas o que me deixa mais P. não é nem isso. É o pessoal da enfermagem, que são muito displicentes quanto o atendimento. Para pegar o material, temos que ir até a enfermeira por conta da burocracia do hospital - para evitar roubo de material... - e quase nunca eles estão lá. São verdadeiros MORCEGOS!”. Mais uma vez, um profissional do hospital toca na tecla de disputa inter equipes. Começo a dar mais atenção quanto a observação feita logo nas primeiras investidas, pela auxiliar de enfermagem importada do Souza Aguiar, Nildéia que sentenciava: “falta calor humano”.
Outro ponto apontado pelo acadêmico, gira em torno do compromisso dos chefes da Emergência, e dos médicos plantonistas, nas trocas dos plantões. Diz Rui que, sempre ( pelo menos nos seus plantões ) mais ou menos 30 minutos antes do fim dos plantões tanto noturno quanto diurno, ninguém mais aparece no PS deixando os casos lá sem atendimento, sem atenção, até a troca de plantão. “... se eu plantonista, entrar ali nesse período de troca sem médico para monitorar, fico doidinho, não temos a menor condição. O PS é um inferno. Um bando de paciente gritando atendimento”. E finaliza dizendo-se “impotente” frente a falta de vagas nos ambulatórios e nos leitos da emergência.
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 4
Um Domingo, uma grávida um descaso...
Rio de janeiro, 12 de junho de 1996.
Diário de Campo III
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 11/06/96
Muito embora tenha ido obstinado a iniciar uma observação, desta vez sem a ajuda do Marcelo ou da Sueli, pegando por ordem os trâmites daqueles que chegam à Emergência do Hospital, fui pela conjuntura lá apresentada, obrigado a iniciar fora da ordem pré-estabelecida. Isto por que, feito um apanhado geral, verifiquei que a fila para atendimento na Emergência, estava pequena, tranqüila e somente de casos clínicos naquela tarde por volta das 13h e 30m. Sendo esta, a primeira estada dos pacientes que buscam atendimento emergente e não encontrando condições propícias, busquei fazer uma reconhecida geral por dentro dos setores que nos dizem respeito: a enfermagem de pediatria estava como da última visita, calma com casos de bronquite, diarréia e outros clínicos. Conversei um tempo com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que como se não lembrasse de nossa última conversa ratificou de “negligência” o episódio do atropelamento de uma criança no domingo - já relatado em um diário anterior - e completou dizendo não ser esse um único caso; a internação de pediatria também não merecia atenção específica pois as crianças estavam em repouso e avaliei atrapalhar caso insistisse em interpelar a única enfermeira que lá estava; a sala de sutura estava cheia pois lá havia um caso recém chegado, de um paciente bastante ferido; a radiografia e a tomografia computadorizada estavam funcionando normalmente e a média de tempo de espera era aproximadamente de 20 a 30 minutos, com uma sala de mais ou menos 6 pessoas. O Pronto Socorro (PS) e a Unidade de Politraumatizados (UPT) estavam como sempre, mesmo não presenciando desta vez óbito no PS, e em relação às segundas-feiras, o UPT não estava abarrotado muito embora estivesse lotado.
Nessas andanças de avaliação dos setores de atendimento, fui interpelado enquanto me dirigia à UPT - onde viria a depositar maiores atenções pouco mais tarde - pelo profissional de Segurança Darciney. Este fora interpretado por mim e até discutido com Marcelo, como um dos “responsáveis” não só pelos outros colegas Seguranças, mas como também uma espécie de “chefe triador”, na triagem da fila antes mesmo de chegarem os pacientes a entrar no hospital. No corredor de acessos, a voz firme que indagava os transeuntes, me alcança: “Pois não Senhor? O que deseja?”. Me identifiquei, falei do meu trabalho ali e como que de repente, o tom da voz mesmo que continuasse firme, muda de sonoridade e Darciney se mostra solicito, um ‘gentleman’. Iniciava-se aí o primeiro contato com ele. No meio do corredor com olhares divididos entre seu trabalho e as pessoas do hospital que transitavam, segundo ele curiosos em saber sobre nossa conversa, vacilante no início bem passageiro, apontava com os olhos as pessoas que nos observavam numa quase paranóia, talvez típica do trabalho que realiza.
Falador, pouco à pouco foi se soltando. Desandou a tecer críticas à Saúde Pública, qualificando como “falida”, e afirmando não ser o Salgado Filho uma exceção. Ao entrar no assunto da triagem feita pelos Seguranças antes da triagem médica, dei uma certa volta dizendo que havia escutado algumas queixas neste sentido um dia destes, e creio que isso o credenciou a me responder também em voltas. Afirmou que os pacientes sofriam uma única triagem, a médica. Fui um pouco mais incisivo, e gradativamente inserindo outros assuntos e retornado, ele foi abrindo o jogo: “Fazemos uma triagem sim. E não me sinto capacitado para isso, mesmo sabendo que faço um trabalho melhor do que muitos médicos daqui”. E então porque você faz? perguntei - “Por me preocupar com meus irmãos”, respondeu circulando o dedo indicador pelo quatro cantos do hospital. E por fim, sentenciou: “...e tem mais se faço, é porque o hospital é conivente”, finaliza. Ora, se é fato que esse foi um primeiro contato, é verdade também que suas declarações são pesadas. O que seria mais grave, ter um segurança como primeiro triador àqueles que buscam a Emergência do Salgado Filho, ou ouvir que mesmo esse tipo de profissional trataria melhor os pacientes do que um próprio profissional da Saúde? E sob que aspecto essa “conivência” se apresenta em relação ao Hospital, seria oficiosa ou oficial? São questionamentos que não se encerram aqui, ao contrário, hoje se iniciam. Mas ao menos para mim, profissional de uma outra área, me recai tais declarações como uma explícita revelação de que enquanto uns de nós brincam de fazer Saúde, outros de nós aceitamos passivamente, referendando mais um mosáico da farsa capitalista.
Busquei em seguida contato com as acadêmicas de medicina e bolsistas da Fiocruz, que se encontravam na porta do atendimento de emergência, ou seja, na triagem médica. Relataram que ao menos naquele dia, o atendimento estava razoável, mais que pelo que elas observam, as pessoas serão melhores atendidas, se quem fizer o atendimento for um acadêmico, já que a experiência dos plantões que elas cobrem estava demarcando bem isso. Pedi para identificar um caso a pretexto de se tornar mais claro, e o relato foi igualmente impressionante: Domingo passsado, dia 09/06/96, chegou uma paciente buscando a Emergência, que acabara de parir no carro que a transportava. Para surpresa delas que estavam ali na triagem médica, a médica responsável na hora, uma pediatra, recusou o caso, mandando a mãe procurar um outro hospital ou atendimento. E completou, quando a paciente se resignara juntos dos familiares e resolveu buscar outro atendimento sem ao menos ter cortado o cordão umbilical, “Graças à Deus já foram!”. Será que Darciney, está completamente com a razão?
Por fim travei contato com o Dr. Vitor, na UPT, setor que me dirigia antes de ser abordado pelo Segurança. Médico “intensivista”, é responsável pela revisão de todos os pacientes da UPT em todas as tardes da semana. Atribuiu ao inchaço tanto deste setor como do PS, a desorganização, uma vez que faltam profissionais específicos para o acompanhamento dos casos lá registrados, já que sem acompanhamento, a dinâmica do atendimento é de ir deixando os pacientes ficando, pelo fato de o Hospital ir se perdendo no controle daqueles que devem ir para a UTI, aqueles que devem ir para ambulatórios, para o PS ou a UPT, os que devem ter alta, os que podem ser removidos, etc. Nosso contato foi breve pois senti que se perdurasse, eu o atrapalharia. Mas deu para sentir de sua parte um grande esforço para cooperar conosco com o que tiver ao seu alcance, e talvez seja ele um excelente profissional a ser entrevistado quando estivermos nesta fase.
Rio de janeiro, 12 de junho de 1996.
Diário de Campo III
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 11/06/96
Muito embora tenha ido obstinado a iniciar uma observação, desta vez sem a ajuda do Marcelo ou da Sueli, pegando por ordem os trâmites daqueles que chegam à Emergência do Hospital, fui pela conjuntura lá apresentada, obrigado a iniciar fora da ordem pré-estabelecida. Isto por que, feito um apanhado geral, verifiquei que a fila para atendimento na Emergência, estava pequena, tranqüila e somente de casos clínicos naquela tarde por volta das 13h e 30m. Sendo esta, a primeira estada dos pacientes que buscam atendimento emergente e não encontrando condições propícias, busquei fazer uma reconhecida geral por dentro dos setores que nos dizem respeito: a enfermagem de pediatria estava como da última visita, calma com casos de bronquite, diarréia e outros clínicos. Conversei um tempo com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que como se não lembrasse de nossa última conversa ratificou de “negligência” o episódio do atropelamento de uma criança no domingo - já relatado em um diário anterior - e completou dizendo não ser esse um único caso; a internação de pediatria também não merecia atenção específica pois as crianças estavam em repouso e avaliei atrapalhar caso insistisse em interpelar a única enfermeira que lá estava; a sala de sutura estava cheia pois lá havia um caso recém chegado, de um paciente bastante ferido; a radiografia e a tomografia computadorizada estavam funcionando normalmente e a média de tempo de espera era aproximadamente de 20 a 30 minutos, com uma sala de mais ou menos 6 pessoas. O Pronto Socorro (PS) e a Unidade de Politraumatizados (UPT) estavam como sempre, mesmo não presenciando desta vez óbito no PS, e em relação às segundas-feiras, o UPT não estava abarrotado muito embora estivesse lotado.
Nessas andanças de avaliação dos setores de atendimento, fui interpelado enquanto me dirigia à UPT - onde viria a depositar maiores atenções pouco mais tarde - pelo profissional de Segurança Darciney. Este fora interpretado por mim e até discutido com Marcelo, como um dos “responsáveis” não só pelos outros colegas Seguranças, mas como também uma espécie de “chefe triador”, na triagem da fila antes mesmo de chegarem os pacientes a entrar no hospital. No corredor de acessos, a voz firme que indagava os transeuntes, me alcança: “Pois não Senhor? O que deseja?”. Me identifiquei, falei do meu trabalho ali e como que de repente, o tom da voz mesmo que continuasse firme, muda de sonoridade e Darciney se mostra solicito, um ‘gentleman’. Iniciava-se aí o primeiro contato com ele. No meio do corredor com olhares divididos entre seu trabalho e as pessoas do hospital que transitavam, segundo ele curiosos em saber sobre nossa conversa, vacilante no início bem passageiro, apontava com os olhos as pessoas que nos observavam numa quase paranóia, talvez típica do trabalho que realiza.
Falador, pouco à pouco foi se soltando. Desandou a tecer críticas à Saúde Pública, qualificando como “falida”, e afirmando não ser o Salgado Filho uma exceção. Ao entrar no assunto da triagem feita pelos Seguranças antes da triagem médica, dei uma certa volta dizendo que havia escutado algumas queixas neste sentido um dia destes, e creio que isso o credenciou a me responder também em voltas. Afirmou que os pacientes sofriam uma única triagem, a médica. Fui um pouco mais incisivo, e gradativamente inserindo outros assuntos e retornado, ele foi abrindo o jogo: “Fazemos uma triagem sim. E não me sinto capacitado para isso, mesmo sabendo que faço um trabalho melhor do que muitos médicos daqui”. E então porque você faz? perguntei - “Por me preocupar com meus irmãos”, respondeu circulando o dedo indicador pelo quatro cantos do hospital. E por fim, sentenciou: “...e tem mais se faço, é porque o hospital é conivente”, finaliza. Ora, se é fato que esse foi um primeiro contato, é verdade também que suas declarações são pesadas. O que seria mais grave, ter um segurança como primeiro triador àqueles que buscam a Emergência do Salgado Filho, ou ouvir que mesmo esse tipo de profissional trataria melhor os pacientes do que um próprio profissional da Saúde? E sob que aspecto essa “conivência” se apresenta em relação ao Hospital, seria oficiosa ou oficial? São questionamentos que não se encerram aqui, ao contrário, hoje se iniciam. Mas ao menos para mim, profissional de uma outra área, me recai tais declarações como uma explícita revelação de que enquanto uns de nós brincam de fazer Saúde, outros de nós aceitamos passivamente, referendando mais um mosáico da farsa capitalista.
Busquei em seguida contato com as acadêmicas de medicina e bolsistas da Fiocruz, que se encontravam na porta do atendimento de emergência, ou seja, na triagem médica. Relataram que ao menos naquele dia, o atendimento estava razoável, mais que pelo que elas observam, as pessoas serão melhores atendidas, se quem fizer o atendimento for um acadêmico, já que a experiência dos plantões que elas cobrem estava demarcando bem isso. Pedi para identificar um caso a pretexto de se tornar mais claro, e o relato foi igualmente impressionante: Domingo passsado, dia 09/06/96, chegou uma paciente buscando a Emergência, que acabara de parir no carro que a transportava. Para surpresa delas que estavam ali na triagem médica, a médica responsável na hora, uma pediatra, recusou o caso, mandando a mãe procurar um outro hospital ou atendimento. E completou, quando a paciente se resignara juntos dos familiares e resolveu buscar outro atendimento sem ao menos ter cortado o cordão umbilical, “Graças à Deus já foram!”. Será que Darciney, está completamente com a razão?
Por fim travei contato com o Dr. Vitor, na UPT, setor que me dirigia antes de ser abordado pelo Segurança. Médico “intensivista”, é responsável pela revisão de todos os pacientes da UPT em todas as tardes da semana. Atribuiu ao inchaço tanto deste setor como do PS, a desorganização, uma vez que faltam profissionais específicos para o acompanhamento dos casos lá registrados, já que sem acompanhamento, a dinâmica do atendimento é de ir deixando os pacientes ficando, pelo fato de o Hospital ir se perdendo no controle daqueles que devem ir para a UTI, aqueles que devem ir para ambulatórios, para o PS ou a UPT, os que devem ter alta, os que podem ser removidos, etc. Nosso contato foi breve pois senti que se perdurasse, eu o atrapalharia. Mas deu para sentir de sua parte um grande esforço para cooperar conosco com o que tiver ao seu alcance, e talvez seja ele um excelente profissional a ser entrevistado quando estivermos nesta fase.
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 3
Diário de Campo III
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 11/06/96
Muito embora tenha ido obstinado a iniciar uma observação, desta vez sem a ajuda do Marcelo ou da Sueli, pegando por ordem os trâmites daqueles que chegam à Emergência do Hospital, fui pela conjuntura lá apresentada, obrigado a iniciar fora da ordem pré-estabelecida. Isto por que, feito um apanhado geral, verifiquei que a fila para atendimento na Emergência, estava pequena, tranqüila e somente de casos clínicos naquela tarde por volta das 13h e 30m. Sendo esta, a primeira estada dos pacientes que buscam atendimento emergente e não encontrando condições propícias, busquei fazer uma reconhecida geral por dentro dos setores que nos dizem respeito: a enfermagem de pediatria estava como da última visita, calma com casos de bronquite, diarréia e outros clínicos. Conversei um tempo com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que como se não lembrasse de nossa última conversa ratificou de “negligência” o episódio do atropelamento de uma criança no domingo - já relatado em um diário anterior - e completou dizendo não ser esse um único caso; a internação de pediatria também não merecia atenção específica pois as crianças estavam em repouso e avaliei atrapalhar caso insistisse em interpelar a única enfermeira que lá estava; a sala de sutura estava cheia pois lá havia um caso recém chegado, de um paciente bastante ferido; a radiografia e a tomografia computadorizada estavam funcionando normalmente e a média de tempo de espera era aproximadamente de 20 a 30 minutos, com uma sala de mais ou menos 6 pessoas. O Pronto Socorro (PS) e a Unidade de Politraumatizados (UPT) estavam como sempre, mesmo não presenciando desta vez óbito no PS, e em relação às segundas-feiras, o UPT não estava abarrotado muito embora estivesse lotado.
Nessas andanças de avaliação dos setores de atendimento, fui interpelado enquanto me dirigia à UPT - onde viria a depositar maiores atenções pouco mais tarde - pelo profissional de Segurança Darciney. Este fora interpretado por mim e até discutido com Marcelo, como um dos “responsáveis” não só pelos outros colegas Seguranças, mas como também uma espécie de “chefe triador”, na triagem da fila antes mesmo de chegarem os pacientes a entrar no hospital. No corredor de acessos, a voz firme que indagava os transeuntes, me alcança: “Pois não Senhor? O que deseja?”. Me identifiquei, falei do meu trabalho ali e como que de repente, o tom da voz mesmo que continuasse firme, muda de sonoridade e Darciney se mostra solicito, um ‘gentleman’. Iniciava-se aí o primeiro contato com ele. No meio do corredor com olhares divididos entre seu trabalho e as pessoas do hospital que transitavam, segundo ele curiosos em saber sobre nossa conversa, vacilante no início bem passageiro, apontava com os olhos as pessoas que nos observavam numa quase paranóia, talvez típica do trabalho que realiza.
Falador, pouco à pouco foi se soltando. Desandou a tecer críticas à Saúde Pública, qualificando como “falida”, e afirmando não ser o Salgado Filho uma exceção. Ao entrar no assunto da triagem feita pelos Seguranças antes da triagem médica, dei uma certa volta dizendo que havia escutado algumas queixas neste sentido um dia destes, e creio que isso o credenciou a me responder também em voltas. Afirmou que os pacientes sofriam uma única triagem, a médica. Fui um pouco mais incisivo, e gradativamente inserindo outros assuntos e retornado, ele foi abrindo o jogo: “Fazemos uma triagem sim. E não me sinto capacitado para isso, mesmo sabendo que faço um trabalho melhor do que muitos médicos daqui”. E então porque você faz? perguntei - “Por me preocupar com meus irmãos”, respondeu circulando o dedo indicador pelo quatro cantos do hospital. E por fim, sentenciou: “...e tem mais se faço, é porque o hospital é conivente”, finaliza. Ora, se é fato que esse foi um primeiro contato, é verdade também que suas declarações são pesadas. O que seria mais grave, ter um segurança como primeiro triador àqueles que buscam a Emergência do Salgado Filho, ou ouvir que mesmo esse tipo de profissional trataria melhor os pacientes do que um próprio profissional da Saúde? E sob que aspecto essa “conivência” se apresenta em relação ao Hospital, seria oficiosa ou oficial? São questionamentos que não se encerram aqui, ao contrário, hoje se iniciam. Mas ao menos para mim, profissional de uma outra área, me recai tais declarações como uma explícita revelação de que enquanto uns de nós brincam de fazer Saúde, outros de nós aceitamos passivamente, referendando mais um mosáico da farsa capitalista.
Busquei em seguida contato com as acadêmicas de medicina e bolsistas da Fiocruz, que se encontravam na porta do atendimento de emergência, ou seja, na triagem médica. Relataram que ao menos naquele dia, o atendimento estava razoável, mais que pelo que elas observam, as pessoas serão melhores atendidas, se quem fizer o atendimento for um acadêmico, já que a experiência dos plantões que elas cobrem estava demarcando bem isso. Pedi para identificar um caso a pretexto de se tornar mais claro, e o relato foi igualmente impressionante: Domingo passsado, dia 09/06/96, chegou uma paciente buscando a Emergência, que acabara de parir no carro que a transportava. Para surpresa delas que estavam ali na triagem médica, a médica responsável na hora, uma pediatra, recusou o caso, mandando a mãe procurar um outro hospital ou atendimento. E completou, quando a paciente se resignara juntos dos familiares e resolveu buscar outro atendimento sem ao menos ter cortado o cordão umbilical, “Graças à Deus já foram!”. Será que Darciney, está completamente com a razão?
Por fim travei contato com o Dr. Vitor, na UPT, setor que me dirigia antes de ser abordado pelo Segurança. Médico “intensivista”, é responsável pela revisão de todos os pacientes da UPT em todas as tardes da semana. Atribuiu ao inchaço tanto deste setor como do PS, a desorganização, uma vez que faltam profissionais específicos para o acompanhamento dos casos lá registrados, já que sem acompanhamento, a dinâmica do atendimento é de ir deixando os pacientes ficando, pelo fato de o Hospital ir se perdendo no controle daqueles que devem ir para a UTI, aqueles que devem ir para ambulatórios, para o PS ou a UPT, os que devem ter alta, os que podem ser removidos, etc. Nosso contato foi breve pois senti que se perdurasse, eu o atrapalharia. Mas deu para sentir de sua parte um grande esforço para cooperar conosco com o que tiver ao seu alcance, e talvez seja ele um excelente profissional a ser entrevistado quando estivermos nesta fase.
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 11/06/96
Muito embora tenha ido obstinado a iniciar uma observação, desta vez sem a ajuda do Marcelo ou da Sueli, pegando por ordem os trâmites daqueles que chegam à Emergência do Hospital, fui pela conjuntura lá apresentada, obrigado a iniciar fora da ordem pré-estabelecida. Isto por que, feito um apanhado geral, verifiquei que a fila para atendimento na Emergência, estava pequena, tranqüila e somente de casos clínicos naquela tarde por volta das 13h e 30m. Sendo esta, a primeira estada dos pacientes que buscam atendimento emergente e não encontrando condições propícias, busquei fazer uma reconhecida geral por dentro dos setores que nos dizem respeito: a enfermagem de pediatria estava como da última visita, calma com casos de bronquite, diarréia e outros clínicos. Conversei um tempo com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que como se não lembrasse de nossa última conversa ratificou de “negligência” o episódio do atropelamento de uma criança no domingo - já relatado em um diário anterior - e completou dizendo não ser esse um único caso; a internação de pediatria também não merecia atenção específica pois as crianças estavam em repouso e avaliei atrapalhar caso insistisse em interpelar a única enfermeira que lá estava; a sala de sutura estava cheia pois lá havia um caso recém chegado, de um paciente bastante ferido; a radiografia e a tomografia computadorizada estavam funcionando normalmente e a média de tempo de espera era aproximadamente de 20 a 30 minutos, com uma sala de mais ou menos 6 pessoas. O Pronto Socorro (PS) e a Unidade de Politraumatizados (UPT) estavam como sempre, mesmo não presenciando desta vez óbito no PS, e em relação às segundas-feiras, o UPT não estava abarrotado muito embora estivesse lotado.
Nessas andanças de avaliação dos setores de atendimento, fui interpelado enquanto me dirigia à UPT - onde viria a depositar maiores atenções pouco mais tarde - pelo profissional de Segurança Darciney. Este fora interpretado por mim e até discutido com Marcelo, como um dos “responsáveis” não só pelos outros colegas Seguranças, mas como também uma espécie de “chefe triador”, na triagem da fila antes mesmo de chegarem os pacientes a entrar no hospital. No corredor de acessos, a voz firme que indagava os transeuntes, me alcança: “Pois não Senhor? O que deseja?”. Me identifiquei, falei do meu trabalho ali e como que de repente, o tom da voz mesmo que continuasse firme, muda de sonoridade e Darciney se mostra solicito, um ‘gentleman’. Iniciava-se aí o primeiro contato com ele. No meio do corredor com olhares divididos entre seu trabalho e as pessoas do hospital que transitavam, segundo ele curiosos em saber sobre nossa conversa, vacilante no início bem passageiro, apontava com os olhos as pessoas que nos observavam numa quase paranóia, talvez típica do trabalho que realiza.
Falador, pouco à pouco foi se soltando. Desandou a tecer críticas à Saúde Pública, qualificando como “falida”, e afirmando não ser o Salgado Filho uma exceção. Ao entrar no assunto da triagem feita pelos Seguranças antes da triagem médica, dei uma certa volta dizendo que havia escutado algumas queixas neste sentido um dia destes, e creio que isso o credenciou a me responder também em voltas. Afirmou que os pacientes sofriam uma única triagem, a médica. Fui um pouco mais incisivo, e gradativamente inserindo outros assuntos e retornado, ele foi abrindo o jogo: “Fazemos uma triagem sim. E não me sinto capacitado para isso, mesmo sabendo que faço um trabalho melhor do que muitos médicos daqui”. E então porque você faz? perguntei - “Por me preocupar com meus irmãos”, respondeu circulando o dedo indicador pelo quatro cantos do hospital. E por fim, sentenciou: “...e tem mais se faço, é porque o hospital é conivente”, finaliza. Ora, se é fato que esse foi um primeiro contato, é verdade também que suas declarações são pesadas. O que seria mais grave, ter um segurança como primeiro triador àqueles que buscam a Emergência do Salgado Filho, ou ouvir que mesmo esse tipo de profissional trataria melhor os pacientes do que um próprio profissional da Saúde? E sob que aspecto essa “conivência” se apresenta em relação ao Hospital, seria oficiosa ou oficial? São questionamentos que não se encerram aqui, ao contrário, hoje se iniciam. Mas ao menos para mim, profissional de uma outra área, me recai tais declarações como uma explícita revelação de que enquanto uns de nós brincam de fazer Saúde, outros de nós aceitamos passivamente, referendando mais um mosáico da farsa capitalista.
Busquei em seguida contato com as acadêmicas de medicina e bolsistas da Fiocruz, que se encontravam na porta do atendimento de emergência, ou seja, na triagem médica. Relataram que ao menos naquele dia, o atendimento estava razoável, mais que pelo que elas observam, as pessoas serão melhores atendidas, se quem fizer o atendimento for um acadêmico, já que a experiência dos plantões que elas cobrem estava demarcando bem isso. Pedi para identificar um caso a pretexto de se tornar mais claro, e o relato foi igualmente impressionante: Domingo passsado, dia 09/06/96, chegou uma paciente buscando a Emergência, que acabara de parir no carro que a transportava. Para surpresa delas que estavam ali na triagem médica, a médica responsável na hora, uma pediatra, recusou o caso, mandando a mãe procurar um outro hospital ou atendimento. E completou, quando a paciente se resignara juntos dos familiares e resolveu buscar outro atendimento sem ao menos ter cortado o cordão umbilical, “Graças à Deus já foram!”. Será que Darciney, está completamente com a razão?
Por fim travei contato com o Dr. Vitor, na UPT, setor que me dirigia antes de ser abordado pelo Segurança. Médico “intensivista”, é responsável pela revisão de todos os pacientes da UPT em todas as tardes da semana. Atribuiu ao inchaço tanto deste setor como do PS, a desorganização, uma vez que faltam profissionais específicos para o acompanhamento dos casos lá registrados, já que sem acompanhamento, a dinâmica do atendimento é de ir deixando os pacientes ficando, pelo fato de o Hospital ir se perdendo no controle daqueles que devem ir para a UTI, aqueles que devem ir para ambulatórios, para o PS ou a UPT, os que devem ter alta, os que podem ser removidos, etc. Nosso contato foi breve pois senti que se perdurasse, eu o atrapalharia. Mas deu para sentir de sua parte um grande esforço para cooperar conosco com o que tiver ao seu alcance, e talvez seja ele um excelente profissional a ser entrevistado quando estivermos nesta fase.
domingo, 1 de junho de 2008
Faz frio dentro de mim. E de você?
Hoje é um Domingo típico outonal. Faz frio, chove fino. Olho pela fresta de uma porta insistentemente fechada e vejo o silêncio. Ouço o vazio da bola que não corre, das pipas que não voam, dos cães que não ladram pela pura falta de gente a pertubar-lhes o instinto.
Penso na vida e cruzo os meus braços, apertando-lhes ao meu corpo para produzir mais calor. Mas basta um lapso de racionalidade para consumir em indignação e estupefação, ao lembrar que num país de tantas terras, sobra latifúndio para poucos e fome para tantos. O frio que esbarra na solidão suburbana deste fim de semana Austral, deve está congelando o restante das esperanças de milhares de sem terras que, agora, além das dores cotidianas e seculares, ainda carregam os ossos pesados e a pele arrepiada até que as flores desabrochem a Primavera.
Penso na vida e cruzo os meus braços, apertando-lhes ao meu corpo para produzir mais calor. Mas basta um lapso de racionalidade para consumir em indignação e estupefação, ao lembrar que num país de tantas terras, sobra latifúndio para poucos e fome para tantos. O frio que esbarra na solidão suburbana deste fim de semana Austral, deve está congelando o restante das esperanças de milhares de sem terras que, agora, além das dores cotidianas e seculares, ainda carregam os ossos pesados e a pele arrepiada até que as flores desabrochem a Primavera.
Funeral de um Lavrador (Chico Buarque)
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca
domingo, 25 de maio de 2008
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 2
Este texto foi escrito originalmente em Junho de 1996. Porém, sua atualidade é espantosa e tragicamente contemporânea. Isto certamente tem várias explicações sociológicas, mas de uma não devemos fugir: o Prefeito da cidade é o mesmo.
Diário de Campo I
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 06/06/96.
“Bem vindos ao Paraíso!” Foi assim que fomos recebidos pelo Dr. Fábio, chefe Geral da emergência naquele dia, para se referir ao nosso novo locus de trabalho, também já classificado de nomes menos sugestivos ao literalmente proposto, mas próximo a ironia de quem vive o dia-a-dia daquela emergência, como “Bósnia”, “Vietnã”, ou outro qualquer caldeirão em efervescência.
Estávamos lá, eu, Marcelo e Sueli percorrendo em primeiro apanhado geral todo o centro nervoso da emergência. Iniciamos pela enfermagem de pediatria onde tivemos a grata e espontânea colaboração de uma, pouco a pouco revelada descontente, auxiliar de enfermagem. Nildéia veio transferida há três meses do Souza Aguiar, considerado por muitos como o mais complexo e trabalhoso hospital do Rio de Janeiro pelo seus excessivos números de casos e pela sua absoluta falta de recursos, onde trabalhara por 13 anos. Qual não foi minha surpresa quando entre olhares preocupados com as crianças em nebulização, na sala onde conversávamos, em alternância da tonalidade da voz, se posicionava “desambientalizada” com o novo local de trabalho. Apesar de morar perto do hospital e isso ser um atenuante ao desconforto, ela insistentemente marcava como diferença fundamental a “falta de calor humano” que ali imperava em detrimento do Souza Aguiar, numa para mim, clara alusão a falta de solidariedade entre os profissionais de saúde daquele hospital, que se transformava para ela como implicador à sua permanência, falando inclusive em retornar para seu hospital, digamos, de “origem”. Mas acredito que o que de mais importante ela nos forneceu, foi o que até aquele instante era uma grande impressão, mesmo que calcada nas mais explícitas ações observáveis por qualquer transeunte pouco desapercebido: a triagem dos que serão e dos que não serão atendidos pela emergência no Salgado Filho, seria feita por profissionais de Segurança, e terceirizados pelo sucateamento do serviço público: “Eles foram treinados para tomar conta de patrimônio. Cumprem um papel que não é deles, por interferência do hospital, e acabam por não tomar conta do patrimônio”. Óbvio que isso não nos é suficiente para afirmar com precisão o grau de influência e poder desses profissionais, mas com certeza nos abre flancos para aprofundar tais relações, o que avalio ser de suma importância para a pesquisa.
Prosseguimos passando para a sala de internação de pediatria, onde travamos contato com uma enfermeira cuja identificação perdemos, mas que nos falou comovida de um caso de atropelamento de uma criança no domingo, atendida pela equipe que fazia parte, que deixou o plantão com o caso aparentemente controlado, mas fora surpreendida com o óbito desta criança ao chegar ao hospital. Chegou a falar em “negligência”. Fui remetido de pronto as últimas falas do primeiro encontro com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que dizia “no caso de acidentes graves não é bom procurar o Salgado Filho, mas sim o Souza Aguiar”. Dado interessante não só pelo visível, mas também pelo subjetivo, já que parece possível haver um certo “xodó” por parte daqueles profissionais de saúde que vestem a camisa do hospital que trabalham e gostam. E acredito ainda que o fator “negligência” nos será também outra constante a ser perseguida, uma vez que será impossível nos deparar com os casos de óbito sem deixar vir à cabeça tal preocupação.
Os setores mais pesados, que hão de nos dizer mais a respeito, são a UPT - Unidade de Politraumatizados, e o PS - Pronto Socorro. A primeira vista, além de assustador me pareceu um tanto confuso, já que em meio de politraumatizados de toda espécie, óbitos, PAF’s... encontra-se também intoxicados, casos clínicos graves como pneumonia, etc. Esses dois setores merecerão olhares atentos e minunciosos, pela aparente complexidade de elementos objetivos e subjetivos que exploraremos em novas visitas, pois não acredito ser fácil, por exemplo, para o paciente - trauma - do leito 6 da UPT, ter que se encobrir para não ver o esforço concentrado no leito 1 em um idoso caso clínico que acabou por ir à óbito. Só não será possível nem para o leito 6 nem para os demais leitos evitar o sonido da voz : “vamos fazer o pacote” ou “vamos puxar ele”.
Diário de Campo I
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 06/06/96.
“Bem vindos ao Paraíso!” Foi assim que fomos recebidos pelo Dr. Fábio, chefe Geral da emergência naquele dia, para se referir ao nosso novo locus de trabalho, também já classificado de nomes menos sugestivos ao literalmente proposto, mas próximo a ironia de quem vive o dia-a-dia daquela emergência, como “Bósnia”, “Vietnã”, ou outro qualquer caldeirão em efervescência.
Estávamos lá, eu, Marcelo e Sueli percorrendo em primeiro apanhado geral todo o centro nervoso da emergência. Iniciamos pela enfermagem de pediatria onde tivemos a grata e espontânea colaboração de uma, pouco a pouco revelada descontente, auxiliar de enfermagem. Nildéia veio transferida há três meses do Souza Aguiar, considerado por muitos como o mais complexo e trabalhoso hospital do Rio de Janeiro pelo seus excessivos números de casos e pela sua absoluta falta de recursos, onde trabalhara por 13 anos. Qual não foi minha surpresa quando entre olhares preocupados com as crianças em nebulização, na sala onde conversávamos, em alternância da tonalidade da voz, se posicionava “desambientalizada” com o novo local de trabalho. Apesar de morar perto do hospital e isso ser um atenuante ao desconforto, ela insistentemente marcava como diferença fundamental a “falta de calor humano” que ali imperava em detrimento do Souza Aguiar, numa para mim, clara alusão a falta de solidariedade entre os profissionais de saúde daquele hospital, que se transformava para ela como implicador à sua permanência, falando inclusive em retornar para seu hospital, digamos, de “origem”. Mas acredito que o que de mais importante ela nos forneceu, foi o que até aquele instante era uma grande impressão, mesmo que calcada nas mais explícitas ações observáveis por qualquer transeunte pouco desapercebido: a triagem dos que serão e dos que não serão atendidos pela emergência no Salgado Filho, seria feita por profissionais de Segurança, e terceirizados pelo sucateamento do serviço público: “Eles foram treinados para tomar conta de patrimônio. Cumprem um papel que não é deles, por interferência do hospital, e acabam por não tomar conta do patrimônio”. Óbvio que isso não nos é suficiente para afirmar com precisão o grau de influência e poder desses profissionais, mas com certeza nos abre flancos para aprofundar tais relações, o que avalio ser de suma importância para a pesquisa.
Prosseguimos passando para a sala de internação de pediatria, onde travamos contato com uma enfermeira cuja identificação perdemos, mas que nos falou comovida de um caso de atropelamento de uma criança no domingo, atendida pela equipe que fazia parte, que deixou o plantão com o caso aparentemente controlado, mas fora surpreendida com o óbito desta criança ao chegar ao hospital. Chegou a falar em “negligência”. Fui remetido de pronto as últimas falas do primeiro encontro com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que dizia “no caso de acidentes graves não é bom procurar o Salgado Filho, mas sim o Souza Aguiar”. Dado interessante não só pelo visível, mas também pelo subjetivo, já que parece possível haver um certo “xodó” por parte daqueles profissionais de saúde que vestem a camisa do hospital que trabalham e gostam. E acredito ainda que o fator “negligência” nos será também outra constante a ser perseguida, uma vez que será impossível nos deparar com os casos de óbito sem deixar vir à cabeça tal preocupação.
Os setores mais pesados, que hão de nos dizer mais a respeito, são a UPT - Unidade de Politraumatizados, e o PS - Pronto Socorro. A primeira vista, além de assustador me pareceu um tanto confuso, já que em meio de politraumatizados de toda espécie, óbitos, PAF’s... encontra-se também intoxicados, casos clínicos graves como pneumonia, etc. Esses dois setores merecerão olhares atentos e minunciosos, pela aparente complexidade de elementos objetivos e subjetivos que exploraremos em novas visitas, pois não acredito ser fácil, por exemplo, para o paciente - trauma - do leito 6 da UPT, ter que se encobrir para não ver o esforço concentrado no leito 1 em um idoso caso clínico que acabou por ir à óbito. Só não será possível nem para o leito 6 nem para os demais leitos evitar o sonido da voz : “vamos fazer o pacote” ou “vamos puxar ele”.
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 1
Este texto foi escrito originalmente em Março de 1996. Porém, sua atualidade é espantosa e tragicamente contemporânea. Isto certamente tem várias explicações sociológicas, mas de uma não devemos fugir: o Prefeito da cidade é o mesmo.
Rio de janeiro, 15 de março de 1996.
Primeiro Diário de Campo - Zona Sul
Visita ao Hospital Municipal Miguel Couto, em 14 de Março.
Nesse dia, aliás o primeiro dia em minha nova experiência, estava eu acompanhado e monitorado da professora Sueli, coordenadora do projeto, ancioso com a projeção que fazia do que estava por vir. Esperava um hospital logo de cara satisfazendo as pequenas informações já recebidas e as impressões de quem até então muito embora não tenha feito uso de uma emergência pública, sempre ficou atento ao compromisso de Instituições governamentais, principalmente no que tange educação e saúde.
Qual não fora minha surpresa, quando logo na entrada nos deparamos com a comitiva oficial municipal, chefiada pelo máximo representante do poder executivo, o prefeito. Sem dúvida a presença de César Maia significava um dia, no mínimo atípico se comparado com a rotina daquele hospital, esbravejado aos quatro cantos do estado como o “melhor embora haja problemas...”. Os bochichos da entrada e as rodas que se formavam, me soavam como prenúncio de que ao menos naquele dia, ou ao menos naquela manhã as coisas por lá andaram maquiadamente melhor.
Driblamos os aglomerados e fomos então fazer o percurso dos pacientes que chegam em condições de se locomover à emergência daquele hospital. De pronto pude observar uma fila na entrada de casos visivelmente deslocados de um atendimento emergente, arrisco dizer que no pouco tempo de observação daquela fila, a maioria absoluta de casos assim se enquadravam, o que resultará sem dúvida em inchaço desse serviço. Porém da mesma forma que assumi arriscar diagnosticar, assim também o faz , na maioria das vezes o primeiro atendimento do hospital, já que a triagem feita nos instantes que ali permanecíamos era por profissionais de segurança, vigilantes, terceirizados. Dali o paciente será atendido de acordo com a gravidade: caso seja alocado em “pequenas emergências” permanece no primeiro andar e aí será indicado de acordo com o tipo de caso, oftalmologia, odontologia,etc. Caso o paciente esteja enquadrado nas “grandes emergências” ele sobe para o segundo andar.
Ao passo que mais e mais informações eram fornecidas pela Sueli e ilustradas pelas circunstâncias, fui apresentado ao percurso daqueles que só chegam ao Miguel Couto em alguma viatura e, como se fosse de propósito, eis que chega um custodioso. Algemado, escoltado e posto numa maca de qualquer maneira, cria assim mesmo um certo alvoroço nos profissionais de saúde e de fato não é para menos, porque se é verdade que tais profissionais não devam fazer qualquer pré-julgamento, também é verdade a possibilidade objetiva de um resgate a trinta ou qualquer coisa parecida. Não o vimos mais.
Subimos à emergência que servirá de laboratório nesta fase da pesquisa. Fui recomendado “respirar fundo e dar uma segurada”, e de fato precisei. De saída entrevistamos um caso de mutilamento por granada e o relato de uma mãe cuja a única razão de permanecer em pé, a mais de 24 horas sem comer, mesmo portando crachá de acompanhante, era sua desenfreada fé evangélica Universal que lhe explicava para àquele fato a luta incessante de Satanás com Jesus Cristo, que culminou na derrota do primeiro, mesmo que tenha levado seu braço. Vale dizer que por menos tempo permanecido ali, mesmo em dia de visita oficial, não foi só esse desleixo com a D. Malvina que saltou aos olhos de tão gritante. Ao irmos entrevistá-la em sala pouco mais reservada que a enfermaria da emergência, somos surpreendidos por uma mulher de mais ou menos 30 anos, sentada de calcinha e sutiã, num sofá da sala da chefia da enfermagem, com sua roupa pressionada ao corpo e toda urinada, chorando muito. Fora um medicamento aplicado minutos antes sem acompanhamento profissional. E para encerrar o dia de intensa multiplicidade de casos concentrado, o relato de uma idosa, D. Alda Vitória, 77, que por mais corriqueiro que nos possa parecer sua internação pelo avançado de sua idade, uma queda no banheiro após banhar-se, não é sequer tragável o fato de estar com a “comadre” cheia pelo tempo que com ela permanecemos - aproximadamente 30 minutos - e outros tantos que ela dizia para mais de hora.
O contraste nas entrevistas ficou claro quando a fizemos com um médico de 22 anos de Miguel Couto, participante de reuniões da Diretoria, que pelas manhãs cobre o “setor” de triagem rendendo os seguranças terceirizados. Aí, o discurso oficial colide com a observação participativa, e é regido pela cartilha do “apesar das dificuldades, este é o único hospital público capacitado ao atendimento...”, que, ao que me parece está intimamente ligado com o afã publicitário de auto promoção do Diretor deste hospital, e do próprio chefe do Executivo.
Todavia, esse relato é fruto de uma primeira visita ao setor de emergência de um dos dois hospitais públicos que estudaremos e claro, pode trazer numa primeira análise, equívoco. O que me pareceu pertubador foi imaginar que mesmo a D. Malvina esperando uma hora e meia para que seu filho fosse atendido depois de penarem em dois hospitais sem atendimento; Mesmo D. Alda aguardando que a limpassem e fosse assim retirado sua “comadre” onde já havia até moscas sob seu cobertor, cuja maior preocupação era se o hospital podia pô-la na rua a qualquer momento; Mesmo vendo um grande contigente de acadêmicos de medicina atendendo os pacientes naquele setor internado, e não os médicos responsáveis; é este Miguel Couto, considerado o melhor hospital da rede pública do Estado do Rio de Janeiro.
Rio de janeiro, 15 de março de 1996.
Primeiro Diário de Campo - Zona Sul
Visita ao Hospital Municipal Miguel Couto, em 14 de Março.
Nesse dia, aliás o primeiro dia em minha nova experiência, estava eu acompanhado e monitorado da professora Sueli, coordenadora do projeto, ancioso com a projeção que fazia do que estava por vir. Esperava um hospital logo de cara satisfazendo as pequenas informações já recebidas e as impressões de quem até então muito embora não tenha feito uso de uma emergência pública, sempre ficou atento ao compromisso de Instituições governamentais, principalmente no que tange educação e saúde.
Qual não fora minha surpresa, quando logo na entrada nos deparamos com a comitiva oficial municipal, chefiada pelo máximo representante do poder executivo, o prefeito. Sem dúvida a presença de César Maia significava um dia, no mínimo atípico se comparado com a rotina daquele hospital, esbravejado aos quatro cantos do estado como o “melhor embora haja problemas...”. Os bochichos da entrada e as rodas que se formavam, me soavam como prenúncio de que ao menos naquele dia, ou ao menos naquela manhã as coisas por lá andaram maquiadamente melhor.
Driblamos os aglomerados e fomos então fazer o percurso dos pacientes que chegam em condições de se locomover à emergência daquele hospital. De pronto pude observar uma fila na entrada de casos visivelmente deslocados de um atendimento emergente, arrisco dizer que no pouco tempo de observação daquela fila, a maioria absoluta de casos assim se enquadravam, o que resultará sem dúvida em inchaço desse serviço. Porém da mesma forma que assumi arriscar diagnosticar, assim também o faz , na maioria das vezes o primeiro atendimento do hospital, já que a triagem feita nos instantes que ali permanecíamos era por profissionais de segurança, vigilantes, terceirizados. Dali o paciente será atendido de acordo com a gravidade: caso seja alocado em “pequenas emergências” permanece no primeiro andar e aí será indicado de acordo com o tipo de caso, oftalmologia, odontologia,etc. Caso o paciente esteja enquadrado nas “grandes emergências” ele sobe para o segundo andar.
Ao passo que mais e mais informações eram fornecidas pela Sueli e ilustradas pelas circunstâncias, fui apresentado ao percurso daqueles que só chegam ao Miguel Couto em alguma viatura e, como se fosse de propósito, eis que chega um custodioso. Algemado, escoltado e posto numa maca de qualquer maneira, cria assim mesmo um certo alvoroço nos profissionais de saúde e de fato não é para menos, porque se é verdade que tais profissionais não devam fazer qualquer pré-julgamento, também é verdade a possibilidade objetiva de um resgate a trinta ou qualquer coisa parecida. Não o vimos mais.
Subimos à emergência que servirá de laboratório nesta fase da pesquisa. Fui recomendado “respirar fundo e dar uma segurada”, e de fato precisei. De saída entrevistamos um caso de mutilamento por granada e o relato de uma mãe cuja a única razão de permanecer em pé, a mais de 24 horas sem comer, mesmo portando crachá de acompanhante, era sua desenfreada fé evangélica Universal que lhe explicava para àquele fato a luta incessante de Satanás com Jesus Cristo, que culminou na derrota do primeiro, mesmo que tenha levado seu braço. Vale dizer que por menos tempo permanecido ali, mesmo em dia de visita oficial, não foi só esse desleixo com a D. Malvina que saltou aos olhos de tão gritante. Ao irmos entrevistá-la em sala pouco mais reservada que a enfermaria da emergência, somos surpreendidos por uma mulher de mais ou menos 30 anos, sentada de calcinha e sutiã, num sofá da sala da chefia da enfermagem, com sua roupa pressionada ao corpo e toda urinada, chorando muito. Fora um medicamento aplicado minutos antes sem acompanhamento profissional. E para encerrar o dia de intensa multiplicidade de casos concentrado, o relato de uma idosa, D. Alda Vitória, 77, que por mais corriqueiro que nos possa parecer sua internação pelo avançado de sua idade, uma queda no banheiro após banhar-se, não é sequer tragável o fato de estar com a “comadre” cheia pelo tempo que com ela permanecemos - aproximadamente 30 minutos - e outros tantos que ela dizia para mais de hora.
O contraste nas entrevistas ficou claro quando a fizemos com um médico de 22 anos de Miguel Couto, participante de reuniões da Diretoria, que pelas manhãs cobre o “setor” de triagem rendendo os seguranças terceirizados. Aí, o discurso oficial colide com a observação participativa, e é regido pela cartilha do “apesar das dificuldades, este é o único hospital público capacitado ao atendimento...”, que, ao que me parece está intimamente ligado com o afã publicitário de auto promoção do Diretor deste hospital, e do próprio chefe do Executivo.
Todavia, esse relato é fruto de uma primeira visita ao setor de emergência de um dos dois hospitais públicos que estudaremos e claro, pode trazer numa primeira análise, equívoco. O que me pareceu pertubador foi imaginar que mesmo a D. Malvina esperando uma hora e meia para que seu filho fosse atendido depois de penarem em dois hospitais sem atendimento; Mesmo D. Alda aguardando que a limpassem e fosse assim retirado sua “comadre” onde já havia até moscas sob seu cobertor, cuja maior preocupação era se o hospital podia pô-la na rua a qualquer momento; Mesmo vendo um grande contigente de acadêmicos de medicina atendendo os pacientes naquele setor internado, e não os médicos responsáveis; é este Miguel Couto, considerado o melhor hospital da rede pública do Estado do Rio de Janeiro.
Mídias alternativas
Raros leitores,
A lista de sítios que segue abaixo, são de endereços alternativos a esta mídia amestrada pelos interesses internacionais e da própria elite brasileira. Mas devo lembrá-los: São apenas alternativas de informação e não fonte da mais pura verdade. Quem vende notícias distorcidas como se verdade fosse, são os grandes canais de comunicação de massa, com o objetivo de espalhar a epidemia de ignorância citada no retorno desta página a ação.
Portanto, boas leituras!
www.abi.bo
www.cartamaior.uol.com.br
www.prensa-latina.cu
www.casla.com.br
www.midiaindependente.org.br
www.cubasocialista.cu
www.el-latinoamericano.com
www.ezln.org.mx
www.granma.cu
www.diplo.uol.com.br
www.lainsignia.org
www.midiasemmascara.com.br
www.wallacecamargo.blogspot.com
www.diariomardeajo.com.ar
www.rnv.gov.ve
www.rebelion.org
www.reporterbrasil.com.br
www.ecuador.indymedia.org
www.asambleapopulardeoaxaca.com
www.radiomundoreal.fm
www.pcb.org.br
www.pstu.org.br
A lista de sítios que segue abaixo, são de endereços alternativos a esta mídia amestrada pelos interesses internacionais e da própria elite brasileira. Mas devo lembrá-los: São apenas alternativas de informação e não fonte da mais pura verdade. Quem vende notícias distorcidas como se verdade fosse, são os grandes canais de comunicação de massa, com o objetivo de espalhar a epidemia de ignorância citada no retorno desta página a ação.
Portanto, boas leituras!
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Caros amigos
Estamos retornando a atividade, depois de um longo e rigoroso verão, repleto de epidemias que desafiaram a lógica do bom senso. Em Janeiro sofremos com a febre amarela e toda a população correu para os postos de saúde que não davam conta da demanda. Logo em seguida o mesmo aedes egypti aterrorizou o país inteiro com sua picada, muitas vezes fatal. Mas a pior de todas as epidemias, a mais mortal, aquela que não tem mês específico para aparecer, nem tampouco ano, é a ignorância. Cuidado! Pois ela assola o mundo inteiro e no nosso caso, insiste em aparecer diariamente sob os mais diversos formatos, mas em especial, este ano, ela aflorará deixando mais vítimas que de costume, pois é um ano eleitoral.
Todas as outras epidemias poderiam ser evitadas se esta, a mais letal, não existisse. O Vozes da América está de volta para gritar, até mesmo por entender que o grito é um de seus antídotos, e convidamos mais gritos a ser juntar aos nossos.
Sigamos!
Canción con todos
Salgo a caminar, por la cintura cósmica del sur.
Piso en la región más vegetal del viento y de la luz.
Siento al caminar toda la piel de América en mi piel.
Y anda en mi sangre un río que libera en mi voz su caudal
Sol de alto Perú, rostro Bolivia, estaño y soledad.
Un verde Brasil besa mi Chile cobre y mineral.
Subo desde el sur hacia la entraña América y total.
Pura raiz de un grito destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces, todas.
Todas las manos, todas.
Toda la sangre puedeser canción en el viento
Canta conmigo, canta,
hermano americano.
Libera tu esperanza
con un grito en la voz.
(Tejada Gomez / César Isella)
Solo vocal inesquecível: Mercedes Sosa.
Todas as outras epidemias poderiam ser evitadas se esta, a mais letal, não existisse. O Vozes da América está de volta para gritar, até mesmo por entender que o grito é um de seus antídotos, e convidamos mais gritos a ser juntar aos nossos.
Sigamos!
Canción con todos
Salgo a caminar, por la cintura cósmica del sur.
Piso en la región más vegetal del viento y de la luz.
Siento al caminar toda la piel de América en mi piel.
Y anda en mi sangre un río que libera en mi voz su caudal
Sol de alto Perú, rostro Bolivia, estaño y soledad.
Un verde Brasil besa mi Chile cobre y mineral.
Subo desde el sur hacia la entraña América y total.
Pura raiz de un grito destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces, todas.
Todas las manos, todas.
Toda la sangre puedeser canción en el viento
Canta conmigo, canta,
hermano americano.
Libera tu esperanza
con un grito en la voz.
(Tejada Gomez / César Isella)
Solo vocal inesquecível: Mercedes Sosa.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Pensata: O aniversário do Justo
Está chegando o Natal. E, a cada ano que passa, os que já o viram chegar outras vezes acham-no bastante mudado. E se perguntam, como Machado de Assis: mudaria o Natal, ou mudei eu?
Machado de Assis sabia que ambos tinham mudado. A dificuldade está em extrair as conseqüências da enorme diferença nos ritmos da mudança. Enquanto o nosso genial escritor mudava na escala de uns míseros 70 anos, na escala de uma vida humana, o Natal, a celebração do nascimento de Cristo, vem se transformando ao longo de dois milênios.
Inicialmente, a celebração passou a ser, como era inevitável, um elemento que afirmava a identidade própria de um grupo. Entrou em cena um punhado de dissidentes judeus, que ansiavam por mostrar uma grande novidade religiosa: os Evangelhos.
Embora a fixação da data de nascimento do Cristo seja bastante discutível, a celebração prevaleceu. Não importava que a data fosse incerta. O que era essencial era que o aniversariante não fosse esquecido.
Um Deus nascido numa manjedoura e morto pregado na cruz era uma figura que comovia muito e dava muito o que pensar. Cresceu o número de pessoas que, mesmo quando não reconheciam nele o filho de Deus, reverenciavam-no como um justo.
Organizados na forma de uma assembléia (ecclesia), os discípulos do Cristo, desconfiados, tentaram evitar os males da propriedade privada, adotando - voluntariamente - a propriedade coletiva. Mas o crescimento e o fortalecimento da ecclesia obrigaram o movimento popular dos cristãos a recuar.
Durante a Idade Média, a fonte do poder era a propriedade da terra, e a Igreja se tornou uma grande proprietária de terra. Fazia parte dos beneficiários do sistema feudal.
Depois, veio a espertíssima classe dos burgueses e submeteu toda a sociedade à lógica do mercado. Tudo vira mercadoria, tudo se vende e se compra.
O Natal se transformou e continua se transformando. Nem sempre para o bem, ouso dizer.
Não me identifico com nenhuma religião, não sou cristão, mas o fato de ser um observador externo dos fenômenos religiosos não me impede de acompanhar, com simpatias e antipatias, os avanços e recuos dos cristãos.
Às vezes, me impaciento um pouco. Seria ridículo fazer campanha contra Papai Noel. Ele não tem culpa pelo que fazem com sua figura pitoresca, com seu carro puxado por renas voadoras, com o saco cheio de presentes para as crianças boazinhas. Não tem culpa pela risada que lhe foi atribuída, aquele som horrível: Hô-hô-hô.
Talvez, porém, seja menos inocente quando se associa à febre consumista da passagem do ano. Respeito o entusiasmo do Bom Velhinho pelos panetones e rabanadas. Porém, acho estranho vê-lo caminhar à frente de vitrinas hiperiluminadas, fazendo propaganda de carros, geladeiras e apartamentos, discutindo a cotação do dólar. Nem o sistema de pagamentos em módicas prestações vai me convencer a aceitar os truques da modernidade.
Nunca entendi qual é o vínculo desse ancião robusto com o Natal. Já tentaram me explicar que o veterano usuário do carro das renas é, de fato, um certo São Nicolaus, do qual pouco se sabe. Por isso, muitos norte-americanos e ingleses não falam em Papai Noel, como nós. Falam em Santaclaus.
Acho, sinceramente, que nenhum Santaclaus, cantando Jingle bell, vai convencer a humanidade de que as atuais formas de celebração do nascimento de Cristo incorporam e absorvem a festa de Papai Noel. E acho, também, que os festejos natalinos - expressões legítimas da alegria do povo - não têm (nem devem ter) a pretensão de absorver e incorporar a sua dinâmica peculiar a celebração do aniversário de Jesus.
No início da nova era, os escravos fizeram diversas tentativas revolucionárias de derrubar o Império Romano (lembremos de Espártaco). Os judeus também se insurgiram contra Roma, em Masada. O fracasso desses levantes sugere que o caminho revolucionário, naquelas condições, era inviável.
Cristo mobilizou pessoas que, na maioria, eram pobres. Não podendo acabar com a pobreza, encaminhou um programa de valorização da dignidade e de conquista da auto-estima. O movimento de massas desencadeado pelos cristãos era uma reação de sincero nojo contra a corrupção crescente, uma enérgica revolta contra o cinismo demoníaco das classes dominantes.
Como descrente respeitoso que sou - marxista convicto, irrecuperável - quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santaclaus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo.
Machado de Assis sabia que ambos tinham mudado. A dificuldade está em extrair as conseqüências da enorme diferença nos ritmos da mudança. Enquanto o nosso genial escritor mudava na escala de uns míseros 70 anos, na escala de uma vida humana, o Natal, a celebração do nascimento de Cristo, vem se transformando ao longo de dois milênios.
Inicialmente, a celebração passou a ser, como era inevitável, um elemento que afirmava a identidade própria de um grupo. Entrou em cena um punhado de dissidentes judeus, que ansiavam por mostrar uma grande novidade religiosa: os Evangelhos.
Embora a fixação da data de nascimento do Cristo seja bastante discutível, a celebração prevaleceu. Não importava que a data fosse incerta. O que era essencial era que o aniversariante não fosse esquecido.
Um Deus nascido numa manjedoura e morto pregado na cruz era uma figura que comovia muito e dava muito o que pensar. Cresceu o número de pessoas que, mesmo quando não reconheciam nele o filho de Deus, reverenciavam-no como um justo.
Organizados na forma de uma assembléia (ecclesia), os discípulos do Cristo, desconfiados, tentaram evitar os males da propriedade privada, adotando - voluntariamente - a propriedade coletiva. Mas o crescimento e o fortalecimento da ecclesia obrigaram o movimento popular dos cristãos a recuar.
Durante a Idade Média, a fonte do poder era a propriedade da terra, e a Igreja se tornou uma grande proprietária de terra. Fazia parte dos beneficiários do sistema feudal.
Depois, veio a espertíssima classe dos burgueses e submeteu toda a sociedade à lógica do mercado. Tudo vira mercadoria, tudo se vende e se compra.
O Natal se transformou e continua se transformando. Nem sempre para o bem, ouso dizer.
Não me identifico com nenhuma religião, não sou cristão, mas o fato de ser um observador externo dos fenômenos religiosos não me impede de acompanhar, com simpatias e antipatias, os avanços e recuos dos cristãos.
Às vezes, me impaciento um pouco. Seria ridículo fazer campanha contra Papai Noel. Ele não tem culpa pelo que fazem com sua figura pitoresca, com seu carro puxado por renas voadoras, com o saco cheio de presentes para as crianças boazinhas. Não tem culpa pela risada que lhe foi atribuída, aquele som horrível: Hô-hô-hô.
Talvez, porém, seja menos inocente quando se associa à febre consumista da passagem do ano. Respeito o entusiasmo do Bom Velhinho pelos panetones e rabanadas. Porém, acho estranho vê-lo caminhar à frente de vitrinas hiperiluminadas, fazendo propaganda de carros, geladeiras e apartamentos, discutindo a cotação do dólar. Nem o sistema de pagamentos em módicas prestações vai me convencer a aceitar os truques da modernidade.
Nunca entendi qual é o vínculo desse ancião robusto com o Natal. Já tentaram me explicar que o veterano usuário do carro das renas é, de fato, um certo São Nicolaus, do qual pouco se sabe. Por isso, muitos norte-americanos e ingleses não falam em Papai Noel, como nós. Falam em Santaclaus.
Acho, sinceramente, que nenhum Santaclaus, cantando Jingle bell, vai convencer a humanidade de que as atuais formas de celebração do nascimento de Cristo incorporam e absorvem a festa de Papai Noel. E acho, também, que os festejos natalinos - expressões legítimas da alegria do povo - não têm (nem devem ter) a pretensão de absorver e incorporar a sua dinâmica peculiar a celebração do aniversário de Jesus.
No início da nova era, os escravos fizeram diversas tentativas revolucionárias de derrubar o Império Romano (lembremos de Espártaco). Os judeus também se insurgiram contra Roma, em Masada. O fracasso desses levantes sugere que o caminho revolucionário, naquelas condições, era inviável.
Cristo mobilizou pessoas que, na maioria, eram pobres. Não podendo acabar com a pobreza, encaminhou um programa de valorização da dignidade e de conquista da auto-estima. O movimento de massas desencadeado pelos cristãos era uma reação de sincero nojo contra a corrupção crescente, uma enérgica revolta contra o cinismo demoníaco das classes dominantes.
Como descrente respeitoso que sou - marxista convicto, irrecuperável - quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santaclaus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo.
Pensata: O aniversário do Justo
Leandro Konder - Filósofo
Extraído do Jornal do Brasil de 22 de Dezembro de 2007
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Dica, apenas uma dica.
Raros amigos,
Chegou enfim o natal e com ele um grande problema. Primeiro do ponto de vista filosófico, pois em essência, comemora-se o nascimento de Cristo, partindo do pressuposto que é filho de Deus e desvenda o rosário da era cristã. Ainda assim, se você for temente a Deus, nos deparamos com o conceito de religião ao qual você segue, uma vez que o natal só é concebido como tal se o entendermos dentro de uma perspectiva cristã, fato que reduz ainda mais o espectro do seu significado religioso.
O segundo problema transcende a isto e para pior, pois a análise é mercadológica. Supondo a filosofia cristã como referência, o que se deveria comemorar era a fraternidade e a solidariedade, marcas deixadas pelo messias em sua curta passagem pela terra. Mas não. O que se vê é o desenfreado consumo de coisas e pessoas, pois antropofagicamente, o sistema capitalista não tem o menor pudor em fazer-nos comermos uns aos outros em troca de um presente de natal. Vale tudo. Nos consumirmos sob a forma de dívidas no cheque especial, nos cartões de crédito, só não vale "não se lembrar das pessoas que amamos", diria qualquer propaganda piegas neste tempo.
Bem, seja qual for seu motivo de comemoração, sua religião e sua predisposição às tentações da propaganda, segue abaixo uma lista de sebos da cidade do Rio de Janeiro, que além de vender excelentes presentes, serve para qualquer mês do ano e razão para se presentear de forma barata e eficaz.
Chegou enfim o natal e com ele um grande problema. Primeiro do ponto de vista filosófico, pois em essência, comemora-se o nascimento de Cristo, partindo do pressuposto que é filho de Deus e desvenda o rosário da era cristã. Ainda assim, se você for temente a Deus, nos deparamos com o conceito de religião ao qual você segue, uma vez que o natal só é concebido como tal se o entendermos dentro de uma perspectiva cristã, fato que reduz ainda mais o espectro do seu significado religioso.
O segundo problema transcende a isto e para pior, pois a análise é mercadológica. Supondo a filosofia cristã como referência, o que se deveria comemorar era a fraternidade e a solidariedade, marcas deixadas pelo messias em sua curta passagem pela terra. Mas não. O que se vê é o desenfreado consumo de coisas e pessoas, pois antropofagicamente, o sistema capitalista não tem o menor pudor em fazer-nos comermos uns aos outros em troca de um presente de natal. Vale tudo. Nos consumirmos sob a forma de dívidas no cheque especial, nos cartões de crédito, só não vale "não se lembrar das pessoas que amamos", diria qualquer propaganda piegas neste tempo.
Bem, seja qual for seu motivo de comemoração, sua religião e sua predisposição às tentações da propaganda, segue abaixo uma lista de sebos da cidade do Rio de Janeiro, que além de vender excelentes presentes, serve para qualquer mês do ano e razão para se presentear de forma barata e eficaz.
Relação de sebos no Rio de Janeiro
A origem do apanhado derivou de um comentário meu na lista sobre a dificuldade de encontrarmos livros de poesia, mesmo de poetas consagrados. Daí eu acrescentei que, além da Internet, eram os sebos que me salvavam. Nestes locais encontrei verdadeiros tesouros:
1. Na rua Dois de Dezembro tem um ótimo ao ar livre, a banca da Alda.
2. No Largo do Machado, ao lado da saída do Metrô Catete, colada à segunda saída da Sendas, tem uma lojinha pequena onde se vendem livros novos e usados.
3. Na Praça José de Alencar, ao ar livro (errinho intencional), as bancas do Sr. Firmino e do Sr. Sílvio, de grande variedade.
4. Na rua Buarque de Macedo, bem no início, um excelente, com poltrona, mesinha. O dono é um rapaz de cabelos compridos, óculos, cara de intelectual consumado. Ele é muito atencioso.
5. Sebo "João do Rio", altura do número cento e oitenta e poucos, da Rua do Catete, próximo à Silveira Martins, o maior de todos. Muita coisa mesmo. O único inconveniente é que fica num sobrado daqueles antigos e é preciso subir um lance de escada. Esse já foi até objeto de matéria na TV.
6. No antigo prédio da UNE, logo na entrada, vendem-se livros novos e usados, mas o preço às vezes é um pouco mais salgado. Fica no coração da rua do Catete.
E sempre há o recurso de pegar o Metrô e ir para o Centro da Cidade, onde o que não falta é sebo:
a) "São José" - Um dos mais famosos, uma loja imensa, com dois andares de livros. Fica na Rua do Carmo, 61. Telefone: 242-1613. Há muitos anos entrevistei o dono desse sebo para escrever uma matéria sobre o assunto para o jornal Perspectiva Universitária, onde então trabalhava. b) "Sebão" - Visconde do Rio Branco, 34 c) "Elizart" - Rua Marechal Floriano, 63, telefone: 233-6024. Muito conhecido, também. d) "Tiradentes" - Rua da Carioca, próximo à Praça Tiradentes. e) "Fenac"- Rua da Quitanda, 31 (próximo à estação Cinelândia, do Metrô) f) "Antiquário" - Rua Sete de Setembro, 207 g) "Alberjano Torres" - Rua Visconde de Inahaúma, 109 (seqüência da Rua Marechal Floriano, onde existe o "Elizart") - telefone: 581-9289 h) "Winston" - Rua Buenos Aires, 83 - telefone: 224-3310 i) "O Velho Livreiro" - Rua da Assembléia, 85, telefone: 222-1385 l) No Edifício Avenida Central, sobreloja, há um muito conhecido, mas o nome agora me foge. O Edifício fica ao lado da Estação Carioca, do Metrô. Além do sebo, lá existem duas livrarias da Ciência Moderna, bem grandes, especializadas em livros de Informática. Aliás, o Avenida Central possui inúmeras lojas de "soft" e "hard", além de três andares de "stands" onde se vende de tudo relativo ao mundo dos computadores.
A origem do apanhado derivou de um comentário meu na lista sobre a dificuldade de encontrarmos livros de poesia, mesmo de poetas consagrados. Daí eu acrescentei que, além da Internet, eram os sebos que me salvavam. Nestes locais encontrei verdadeiros tesouros:
1. Na rua Dois de Dezembro tem um ótimo ao ar livre, a banca da Alda.
2. No Largo do Machado, ao lado da saída do Metrô Catete, colada à segunda saída da Sendas, tem uma lojinha pequena onde se vendem livros novos e usados.
3. Na Praça José de Alencar, ao ar livro (errinho intencional), as bancas do Sr. Firmino e do Sr. Sílvio, de grande variedade.
4. Na rua Buarque de Macedo, bem no início, um excelente, com poltrona, mesinha. O dono é um rapaz de cabelos compridos, óculos, cara de intelectual consumado. Ele é muito atencioso.
5. Sebo "João do Rio", altura do número cento e oitenta e poucos, da Rua do Catete, próximo à Silveira Martins, o maior de todos. Muita coisa mesmo. O único inconveniente é que fica num sobrado daqueles antigos e é preciso subir um lance de escada. Esse já foi até objeto de matéria na TV.
6. No antigo prédio da UNE, logo na entrada, vendem-se livros novos e usados, mas o preço às vezes é um pouco mais salgado. Fica no coração da rua do Catete.
E sempre há o recurso de pegar o Metrô e ir para o Centro da Cidade, onde o que não falta é sebo:
a) "São José" - Um dos mais famosos, uma loja imensa, com dois andares de livros. Fica na Rua do Carmo, 61. Telefone: 242-1613. Há muitos anos entrevistei o dono desse sebo para escrever uma matéria sobre o assunto para o jornal Perspectiva Universitária, onde então trabalhava. b) "Sebão" - Visconde do Rio Branco, 34 c) "Elizart" - Rua Marechal Floriano, 63, telefone: 233-6024. Muito conhecido, também. d) "Tiradentes" - Rua da Carioca, próximo à Praça Tiradentes. e) "Fenac"- Rua da Quitanda, 31 (próximo à estação Cinelândia, do Metrô) f) "Antiquário" - Rua Sete de Setembro, 207 g) "Alberjano Torres" - Rua Visconde de Inahaúma, 109 (seqüência da Rua Marechal Floriano, onde existe o "Elizart") - telefone: 581-9289 h) "Winston" - Rua Buenos Aires, 83 - telefone: 224-3310 i) "O Velho Livreiro" - Rua da Assembléia, 85, telefone: 222-1385 l) No Edifício Avenida Central, sobreloja, há um muito conhecido, mas o nome agora me foge. O Edifício fica ao lado da Estação Carioca, do Metrô. Além do sebo, lá existem duas livrarias da Ciência Moderna, bem grandes, especializadas em livros de Informática. Aliás, o Avenida Central possui inúmeras lojas de "soft" e "hard", além de três andares de "stands" onde se vende de tudo relativo ao mundo dos computadores.
Polêmica - Por trás do jejum de Dom Cappio
Leonardo Boff provoca: "O bispo encarna uma postura ética. O amor ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma de conduta". Rodrigo Guéron rebate: "o gesto moralista não questionou a obra, nem as misérias do capitalismo — mas a democracia e os desejos da multidão"
Por uma justiça maiorO amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida (Por Leonardo Boff)
A fome de miséria do bispo Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte (Por Rodrigo Guéron)
Por uma justiça maior
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida
Leonardo Boff
Muitos de nós estamos acabrunhados com o resultado do Supremo Tribunal Federal, concedendo campo livre para o governo implementar a transposição do rio São Francisco.
O debate naquela corte suprema foi mal colocado. A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver. O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta.
Aqui se dá o confronto de duas posições: a do governo e a do bispo Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).
O governo busca um crescimento que, segundo os dados acima referidos, atende primeiramente aos interesses dos poderosos e secundariamente às necessidades do povo sofredor, o que configura falta de eqüidade. Esta posição é chamada de modernização conservadora, teórica e práticamente superada.
Em função de um projeto que prioriza o povo há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco
O bispo Dom Capppio encarna uma postura ética dando centralidade ao social e à vida, especialmente dos milhões de condenados e ofendidos do semi-árido, com os quais ele trabalha há mais de 20 anos. Em função deste projeto social, que prioriza o povo e a vida e que não nega outros usos da água, há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco.
A justiça legal consagrou o projeto de crescimento do governo. Mas a justiça não é tudo numa sociedade, especialmente como a nossa, marcada por profundas desigualdades e conflitos de interesses que debilitam fortemente a nossa democracia.
O que sustenta a posição do bispo é outro tipo de justiça, aquela originária que antecede à justiça legal, justiça que garante o direito da vida, especialmente daqueles condenados a terem menos vida e por isso a morrerem antes do tempo. A larga tradição da ética cristã, racionalmente fundada em Aritóteles e em Santo Tomás de Aquino afirma aquela justiça originária e alimenta ainda hoje modernos projetos de ética mundial. Ela sustenta que acima da justiça está o amor à humanidade e a todos os seres. Lamentavelmente, não foi isso que se ouviu no arrazoado dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A justiça maior de que fala Jesus tributa amor e respeito Àquele Grande Outro, Deus
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida, como o está fazendo o bispo Dom Cappio, figura de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco. Esta é a justiça maior de que fala Jesus, porque tributa amor e respeito Àquele que se esconde atrás do outro que é o Grande Outro, Deus. O povo brasileiro em sua profunda religiosidade é sensível a esse argumento.
Para entender a posição e a atitude profética do bispo, precisamos compreender este tipo de fundamentação. É perversa a tentativa de desqualificar sua figura considerando-o autoritário e falto de base popular. Ele está ancorado nos milhões que geralmente não são ouvidos porque são tidos por incuravelmente ignorantes, zeros econômicos e óleo queimado. Mas eles são portadores de um saber de experiências feito, construido na convivência com o semi-árido e no amor ao rio que chamam com carinho de Velho Chico.
O compromisso de Dom Cappio continua, secundado por todos aqueles que até agora o acompanharam, especialmente, os movimentos populares e nomes notáveis da cena nacional e internacional.
Se ele, em consequência de seu gesto, vier a falecer, a transposição poderá ser feita, pois o governo dispõe de todos os meios, militares, legais, técnicos e econômicos. Mas será a transposição da maldição.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tudo o que representa, não merece carregar esta pecha pelos séculos afora.
A fome de miséria do Bispo
Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte
Rodrigo Guéron
Escrevi um primeiro artigo sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco no jejum anterior do religioso. Naquela ocasião, ele recebeu o apoio de alguns dos maiores coronéis oligarcas nordestinos: ACM foi visitá-lo e o então governador de Sergipe, João Alves Filho, chefe do pefelê local, participou de uma missa em sua homenagem. Note-se que ambos foram derrotados, nas eleições que se seguiram, exatamente por dois candidatos a governador do PT, numa campanha eleitoral onde as obras do rio não deixaram de ser debatidas.
É evidente que as discussões técnicas em torno da transposição são importantes. O problema são as características do ato protagonizado pelo bispo, o que esta performance diz e simboliza. Muito mais que os apoios ecléticos recebidos por Dom Cappio, seu gesto traz à tona algo que expressa o que o Brasil, e o Nordeste em particular, têm de mais conservador e violento.
O ato do bispo é, em primeiro lugar, um culto à fome, ao sofrimento e em última análise à própria morte. O bispo se auto-exalta, e é exaltado, como alguém que seria mais virtuoso que os outros porque sofre e passa fome. Isso o faria uma espécie de portador da verdade. Ou seja, fome e sofrimento seriam uma espécie de passaporte para a bem. Dessa maneira, no entanto, o bispo restaura o próprio circuito de miséria, violência endêmica e poder, que se fecha numa lógica, num sentido, que há mais de um século aprisiona a vida, e conseqüentemente a política, no Nordeste.
A pulsão de morte... a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência
O mal que o moralismo salvacionista católico fez, e faz, ao país, apesar de toda ambígua e impressionante potência de Canudos, parece não ter fim. O culto ao mártir morto e vitimizado, a lógica da sina do miserável predestinado; enfim, a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência. Esse ímpeto, que balança entre o conformismo e a atitude suicida/auto-martirizante por uma grande causa – como supostamente é a do bispo – transforma-se numa espécie de pulsão de morte coletiva que transcende, no Brasil, os limites do Nordeste.
Estou longe de ser um entusiasta do desenvolvimentismo, do progresso a qualquer preço: aí também existe um culto positivista e uma crença na redenção, em torno da qual organizam-se esquemas de poder. Acredito, no entanto, que água, produção de alimento e mudanças nas relações de trabalho fariam bem ao sertão. É claro que deve haver pressão política, para que os pequenos proprietários desfrutem da obra. Eles podem vir a ser uma classe média rural, pequenos produtores, por vezes resultado das ocupações de latifúndios improdutivos feitas pelo MST, e que votaram massivamente em Lula nas últimas eleições. A Pastoral da Terra e a UDR que me desculpem, mas o MST é fundamental para o crescimento do nosso mercado agrícola; para que avance o processo de diversificação e barateamento dos alimentos que hoje vivemos no país.
E embora me considere à esquerda dos marxistas, com suas teleologias e transcendências, há até algo de marxista nessa minha afirmação, qual seja, entender que as transformações da produção são sempre, de certa forma, uma transformação – e uma produção – política. Mas o marxismo cristão brasileiro torna-se cada vez mais conservador: prefere a metafísica de Marx – a salvação em algum socialismo imaculado – ao seu materialismo. É triste que os teóricos da Teologia da Libertação, que produziram uma ruptura e um movimento liberador na imanência das lutas, na rebelião dos pobres e na potente palavra de ordem do MST (“Ocupar, resistir, produzir”, hoje um tanto esquecida...), tenham caído nessa captura conservadora que nega a vida pela transcendência.
A mesma lógica moralista de Frei Betto, quando diz que o problema é os pobres desejarem
É curioso, inclusive, que uma conhecida atriz global apóie com tanta veemência o tal bispo. Ela que, como milhões de pessoas, todos os dias toma banho em água limpa graças à transposição do rio Guandu, que abastece o Rio de Janeiro; e que é famosa graças, além de seu trabalho, à poderosa indústria do entretenimento e a seu custoso aparato tecnológico, quer agora negar a tecnologia aos pobres e falar dos perigos do mercado e do dinheiro se expandir pelo sertão. É a mesma lógica moralista que fez Frei Betto dizer, há não muito tempo, que a culpa da fome era da geladeira, porque fez os pobres desejarem ter sorvete e refrigerante, quando antes se satisfaziam com arroz, feijão e carne seca. Os pobres, os que estão fora do “mercado” desejando: este é na verdade o “perigo”....
Parece claro, portanto, que não foi contra os possíveis problemas da transposição do rio, nem contra as grandes misérias do capitalismo, que essa greve se voltou. É na verdade – como Gil e Caetano bem disseram na canção Haiti, numa menção à ira de nossas “classe médias” contra as escolas propostas por Darci Ribeiro — “um pânico mal-dissimulado diante de qualquer, mas qualquer mesmo, plano que pareça fácil é rápido, e vá representar uma ameaça de democratização...”
Suponhamos mesmo que, na pior hipótese, a transposição beneficie o agronegócio, as mega-empresas agrícolas exploradoras. Então, organiza-se um sindicato, reivindica-se melhores salários, participação nos lucros, faz-se uma boa greve... Em todo caso, melhor que o servilismo aos coronéis, que não querem a transposição; melhor que uma procissão de miseráveis que santificarão um bispo morto e pedirão que Deus “nos mande chuva” e se autogloficarão na miséria, na privação e na dor.
Acho inadmissível que setores que se dizem “de esquerda” apóiem isso: não são de esquerda, posto que estão sendo cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que e glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte.
Textos extraídos do Le Monde Diplomatique - Brasil
Por uma justiça maiorO amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida (Por Leonardo Boff)
A fome de miséria do bispo Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte (Por Rodrigo Guéron)
Por uma justiça maior
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida
Leonardo Boff
Muitos de nós estamos acabrunhados com o resultado do Supremo Tribunal Federal, concedendo campo livre para o governo implementar a transposição do rio São Francisco.
O debate naquela corte suprema foi mal colocado. A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver. O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta.
Aqui se dá o confronto de duas posições: a do governo e a do bispo Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).
O governo busca um crescimento que, segundo os dados acima referidos, atende primeiramente aos interesses dos poderosos e secundariamente às necessidades do povo sofredor, o que configura falta de eqüidade. Esta posição é chamada de modernização conservadora, teórica e práticamente superada.
Em função de um projeto que prioriza o povo há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco
O bispo Dom Capppio encarna uma postura ética dando centralidade ao social e à vida, especialmente dos milhões de condenados e ofendidos do semi-árido, com os quais ele trabalha há mais de 20 anos. Em função deste projeto social, que prioriza o povo e a vida e que não nega outros usos da água, há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco.
A justiça legal consagrou o projeto de crescimento do governo. Mas a justiça não é tudo numa sociedade, especialmente como a nossa, marcada por profundas desigualdades e conflitos de interesses que debilitam fortemente a nossa democracia.
O que sustenta a posição do bispo é outro tipo de justiça, aquela originária que antecede à justiça legal, justiça que garante o direito da vida, especialmente daqueles condenados a terem menos vida e por isso a morrerem antes do tempo. A larga tradição da ética cristã, racionalmente fundada em Aritóteles e em Santo Tomás de Aquino afirma aquela justiça originária e alimenta ainda hoje modernos projetos de ética mundial. Ela sustenta que acima da justiça está o amor à humanidade e a todos os seres. Lamentavelmente, não foi isso que se ouviu no arrazoado dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A justiça maior de que fala Jesus tributa amor e respeito Àquele Grande Outro, Deus
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida, como o está fazendo o bispo Dom Cappio, figura de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco. Esta é a justiça maior de que fala Jesus, porque tributa amor e respeito Àquele que se esconde atrás do outro que é o Grande Outro, Deus. O povo brasileiro em sua profunda religiosidade é sensível a esse argumento.
Para entender a posição e a atitude profética do bispo, precisamos compreender este tipo de fundamentação. É perversa a tentativa de desqualificar sua figura considerando-o autoritário e falto de base popular. Ele está ancorado nos milhões que geralmente não são ouvidos porque são tidos por incuravelmente ignorantes, zeros econômicos e óleo queimado. Mas eles são portadores de um saber de experiências feito, construido na convivência com o semi-árido e no amor ao rio que chamam com carinho de Velho Chico.
O compromisso de Dom Cappio continua, secundado por todos aqueles que até agora o acompanharam, especialmente, os movimentos populares e nomes notáveis da cena nacional e internacional.
Se ele, em consequência de seu gesto, vier a falecer, a transposição poderá ser feita, pois o governo dispõe de todos os meios, militares, legais, técnicos e econômicos. Mas será a transposição da maldição.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tudo o que representa, não merece carregar esta pecha pelos séculos afora.
A fome de miséria do Bispo
Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte
Rodrigo Guéron
Escrevi um primeiro artigo sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco no jejum anterior do religioso. Naquela ocasião, ele recebeu o apoio de alguns dos maiores coronéis oligarcas nordestinos: ACM foi visitá-lo e o então governador de Sergipe, João Alves Filho, chefe do pefelê local, participou de uma missa em sua homenagem. Note-se que ambos foram derrotados, nas eleições que se seguiram, exatamente por dois candidatos a governador do PT, numa campanha eleitoral onde as obras do rio não deixaram de ser debatidas.
É evidente que as discussões técnicas em torno da transposição são importantes. O problema são as características do ato protagonizado pelo bispo, o que esta performance diz e simboliza. Muito mais que os apoios ecléticos recebidos por Dom Cappio, seu gesto traz à tona algo que expressa o que o Brasil, e o Nordeste em particular, têm de mais conservador e violento.
O ato do bispo é, em primeiro lugar, um culto à fome, ao sofrimento e em última análise à própria morte. O bispo se auto-exalta, e é exaltado, como alguém que seria mais virtuoso que os outros porque sofre e passa fome. Isso o faria uma espécie de portador da verdade. Ou seja, fome e sofrimento seriam uma espécie de passaporte para a bem. Dessa maneira, no entanto, o bispo restaura o próprio circuito de miséria, violência endêmica e poder, que se fecha numa lógica, num sentido, que há mais de um século aprisiona a vida, e conseqüentemente a política, no Nordeste.
A pulsão de morte... a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência
O mal que o moralismo salvacionista católico fez, e faz, ao país, apesar de toda ambígua e impressionante potência de Canudos, parece não ter fim. O culto ao mártir morto e vitimizado, a lógica da sina do miserável predestinado; enfim, a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência. Esse ímpeto, que balança entre o conformismo e a atitude suicida/auto-martirizante por uma grande causa – como supostamente é a do bispo – transforma-se numa espécie de pulsão de morte coletiva que transcende, no Brasil, os limites do Nordeste.
Estou longe de ser um entusiasta do desenvolvimentismo, do progresso a qualquer preço: aí também existe um culto positivista e uma crença na redenção, em torno da qual organizam-se esquemas de poder. Acredito, no entanto, que água, produção de alimento e mudanças nas relações de trabalho fariam bem ao sertão. É claro que deve haver pressão política, para que os pequenos proprietários desfrutem da obra. Eles podem vir a ser uma classe média rural, pequenos produtores, por vezes resultado das ocupações de latifúndios improdutivos feitas pelo MST, e que votaram massivamente em Lula nas últimas eleições. A Pastoral da Terra e a UDR que me desculpem, mas o MST é fundamental para o crescimento do nosso mercado agrícola; para que avance o processo de diversificação e barateamento dos alimentos que hoje vivemos no país.
E embora me considere à esquerda dos marxistas, com suas teleologias e transcendências, há até algo de marxista nessa minha afirmação, qual seja, entender que as transformações da produção são sempre, de certa forma, uma transformação – e uma produção – política. Mas o marxismo cristão brasileiro torna-se cada vez mais conservador: prefere a metafísica de Marx – a salvação em algum socialismo imaculado – ao seu materialismo. É triste que os teóricos da Teologia da Libertação, que produziram uma ruptura e um movimento liberador na imanência das lutas, na rebelião dos pobres e na potente palavra de ordem do MST (“Ocupar, resistir, produzir”, hoje um tanto esquecida...), tenham caído nessa captura conservadora que nega a vida pela transcendência.
A mesma lógica moralista de Frei Betto, quando diz que o problema é os pobres desejarem
É curioso, inclusive, que uma conhecida atriz global apóie com tanta veemência o tal bispo. Ela que, como milhões de pessoas, todos os dias toma banho em água limpa graças à transposição do rio Guandu, que abastece o Rio de Janeiro; e que é famosa graças, além de seu trabalho, à poderosa indústria do entretenimento e a seu custoso aparato tecnológico, quer agora negar a tecnologia aos pobres e falar dos perigos do mercado e do dinheiro se expandir pelo sertão. É a mesma lógica moralista que fez Frei Betto dizer, há não muito tempo, que a culpa da fome era da geladeira, porque fez os pobres desejarem ter sorvete e refrigerante, quando antes se satisfaziam com arroz, feijão e carne seca. Os pobres, os que estão fora do “mercado” desejando: este é na verdade o “perigo”....
Parece claro, portanto, que não foi contra os possíveis problemas da transposição do rio, nem contra as grandes misérias do capitalismo, que essa greve se voltou. É na verdade – como Gil e Caetano bem disseram na canção Haiti, numa menção à ira de nossas “classe médias” contra as escolas propostas por Darci Ribeiro — “um pânico mal-dissimulado diante de qualquer, mas qualquer mesmo, plano que pareça fácil é rápido, e vá representar uma ameaça de democratização...”
Suponhamos mesmo que, na pior hipótese, a transposição beneficie o agronegócio, as mega-empresas agrícolas exploradoras. Então, organiza-se um sindicato, reivindica-se melhores salários, participação nos lucros, faz-se uma boa greve... Em todo caso, melhor que o servilismo aos coronéis, que não querem a transposição; melhor que uma procissão de miseráveis que santificarão um bispo morto e pedirão que Deus “nos mande chuva” e se autogloficarão na miséria, na privação e na dor.
Acho inadmissível que setores que se dizem “de esquerda” apóiem isso: não são de esquerda, posto que estão sendo cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que e glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte.
Textos extraídos do Le Monde Diplomatique - Brasil
A imprensa continua a mesma
“Na calada da noite” ou
“A imprensa continua a mesma”!
(Ernesto Germano – dezembro 2007)
Matéria no caderno internacional do Jornal do Brasil, em 14/12/07, destaca e comemora que “Os líderes da União Européia assinaram nesta quinta-feira em uma suntuosa cerimônia no Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa o novo tratado que substitui a fracassada Constituição européia, e que deve facilitar as decisões no bloco (...)”. Outros jornais brasileiros noticiaram o fato, com maior ou menor destaque, mas todos aprovando a medida.
Qual o problema? Simples! Mais um golpe bem urdido pelos neoliberais e pela direita européia e mais uma manipulação da notícia que só envergonha a profissão de jornalista.
Em 2003, depois da ampliação da União Européia, os líderes liberais tentaram criar um modelo de Constituição comum à região, mais adaptado à ideologia de redução do papel do Estado e retirada dos direitos sociais. O problema é que este modelo de Constituição teria que ser aprovado pelos países membros e uma cláusula dizia que se um só país votasse contra todo o projeto seria suspenso.
Alguns resolveram o problema de forma bem pouco democrática: Alemanha, Áustria, Itália, Bélgica e mais alguns resolveram fazer “eleição indireta” e os parlamentos bem afinados com a direita votaram favoráveis. A Inglaterra, Polônia, República Tcheca e outros ficaram aguardando os demais resultados. França, Holanda e Dinamarca convocaram plebiscito para a aprovação. E aí aconteceu a surpresa! Nos três o povo deu um sonoro “não” (54,86% dos votos) à Constituição proposta pelos liberais.
Vale destacar que, na época, Nicolás Sarkozy era ministro do Interior francês e fez campanha aberta pelo “sim”, sendo derrotado.
Durante muito tempo o projeto liberal de uma Constituição “flexível” para a União Européia ficou aguardando por melhores momentos. Sarkozy, agora eleito presidente da França, saiu pelo mundo defendendo Bush e tentando articular um grupo de apoio para evitar a queda do dólar. E agora nos surpreende com esta reunião no Mosteiro dos Jerônimos, onde ele foi peça chave, fazendo aprovar a nova Constituição “na calada da noite”, sem consultas e sem plebiscitos.
E agora a minha perplexidade com a imprensa brasileira. Um presidente passa por cima da decisão do povo que votou “não”, assina um acordo às escondidas no alto de um mosteiro e protocola a mudança constitucional. E nossa imprensa o apresenta como um “grande estadista da atualidade”. Outro presidente realiza um plebiscito para mudar a Constituição, é derrotado e aceita a decisão do povo. Nossa imprensa o apresenta com “ditador”.
Sarkozy passa por cima da vontade popular e é tido como “democrata”, Chávez acata a decisão do povo e é “tirano”. Estou fascinado com a nossa imprensa!
“A imprensa continua a mesma”!
(Ernesto Germano – dezembro 2007)
Matéria no caderno internacional do Jornal do Brasil, em 14/12/07, destaca e comemora que “Os líderes da União Européia assinaram nesta quinta-feira em uma suntuosa cerimônia no Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa o novo tratado que substitui a fracassada Constituição européia, e que deve facilitar as decisões no bloco (...)”. Outros jornais brasileiros noticiaram o fato, com maior ou menor destaque, mas todos aprovando a medida.
Qual o problema? Simples! Mais um golpe bem urdido pelos neoliberais e pela direita européia e mais uma manipulação da notícia que só envergonha a profissão de jornalista.
Em 2003, depois da ampliação da União Européia, os líderes liberais tentaram criar um modelo de Constituição comum à região, mais adaptado à ideologia de redução do papel do Estado e retirada dos direitos sociais. O problema é que este modelo de Constituição teria que ser aprovado pelos países membros e uma cláusula dizia que se um só país votasse contra todo o projeto seria suspenso.
Alguns resolveram o problema de forma bem pouco democrática: Alemanha, Áustria, Itália, Bélgica e mais alguns resolveram fazer “eleição indireta” e os parlamentos bem afinados com a direita votaram favoráveis. A Inglaterra, Polônia, República Tcheca e outros ficaram aguardando os demais resultados. França, Holanda e Dinamarca convocaram plebiscito para a aprovação. E aí aconteceu a surpresa! Nos três o povo deu um sonoro “não” (54,86% dos votos) à Constituição proposta pelos liberais.
Vale destacar que, na época, Nicolás Sarkozy era ministro do Interior francês e fez campanha aberta pelo “sim”, sendo derrotado.
Durante muito tempo o projeto liberal de uma Constituição “flexível” para a União Européia ficou aguardando por melhores momentos. Sarkozy, agora eleito presidente da França, saiu pelo mundo defendendo Bush e tentando articular um grupo de apoio para evitar a queda do dólar. E agora nos surpreende com esta reunião no Mosteiro dos Jerônimos, onde ele foi peça chave, fazendo aprovar a nova Constituição “na calada da noite”, sem consultas e sem plebiscitos.
E agora a minha perplexidade com a imprensa brasileira. Um presidente passa por cima da decisão do povo que votou “não”, assina um acordo às escondidas no alto de um mosteiro e protocola a mudança constitucional. E nossa imprensa o apresenta como um “grande estadista da atualidade”. Outro presidente realiza um plebiscito para mudar a Constituição, é derrotado e aceita a decisão do povo. Nossa imprensa o apresenta com “ditador”.
Sarkozy passa por cima da vontade popular e é tido como “democrata”, Chávez acata a decisão do povo e é “tirano”. Estou fascinado com a nossa imprensa!
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