Este texto foi escrito originalmente em Junho de 1996. Porém, sua atualidade é espantosa e tragicamente contemporânea. Isto certamente tem várias explicações sociológicas, mas de uma não devemos fugir: o Prefeito da cidade é o mesmo.
Diário de Campo I
Observação de Campo no Hospital Municipal Salgado Filho, em 06/06/96.
“Bem vindos ao Paraíso!” Foi assim que fomos recebidos pelo Dr. Fábio, chefe Geral da emergência naquele dia, para se referir ao nosso novo locus de trabalho, também já classificado de nomes menos sugestivos ao literalmente proposto, mas próximo a ironia de quem vive o dia-a-dia daquela emergência, como “Bósnia”, “Vietnã”, ou outro qualquer caldeirão em efervescência.
Estávamos lá, eu, Marcelo e Sueli percorrendo em primeiro apanhado geral todo o centro nervoso da emergência. Iniciamos pela enfermagem de pediatria onde tivemos a grata e espontânea colaboração de uma, pouco a pouco revelada descontente, auxiliar de enfermagem. Nildéia veio transferida há três meses do Souza Aguiar, considerado por muitos como o mais complexo e trabalhoso hospital do Rio de Janeiro pelo seus excessivos números de casos e pela sua absoluta falta de recursos, onde trabalhara por 13 anos. Qual não foi minha surpresa quando entre olhares preocupados com as crianças em nebulização, na sala onde conversávamos, em alternância da tonalidade da voz, se posicionava “desambientalizada” com o novo local de trabalho. Apesar de morar perto do hospital e isso ser um atenuante ao desconforto, ela insistentemente marcava como diferença fundamental a “falta de calor humano” que ali imperava em detrimento do Souza Aguiar, numa para mim, clara alusão a falta de solidariedade entre os profissionais de saúde daquele hospital, que se transformava para ela como implicador à sua permanência, falando inclusive em retornar para seu hospital, digamos, de “origem”. Mas acredito que o que de mais importante ela nos forneceu, foi o que até aquele instante era uma grande impressão, mesmo que calcada nas mais explícitas ações observáveis por qualquer transeunte pouco desapercebido: a triagem dos que serão e dos que não serão atendidos pela emergência no Salgado Filho, seria feita por profissionais de Segurança, e terceirizados pelo sucateamento do serviço público: “Eles foram treinados para tomar conta de patrimônio. Cumprem um papel que não é deles, por interferência do hospital, e acabam por não tomar conta do patrimônio”. Óbvio que isso não nos é suficiente para afirmar com precisão o grau de influência e poder desses profissionais, mas com certeza nos abre flancos para aprofundar tais relações, o que avalio ser de suma importância para a pesquisa.
Prosseguimos passando para a sala de internação de pediatria, onde travamos contato com uma enfermeira cuja identificação perdemos, mas que nos falou comovida de um caso de atropelamento de uma criança no domingo, atendida pela equipe que fazia parte, que deixou o plantão com o caso aparentemente controlado, mas fora surpreendida com o óbito desta criança ao chegar ao hospital. Chegou a falar em “negligência”. Fui remetido de pronto as últimas falas do primeiro encontro com a auxiliar de enfermagem Nildéia, que dizia “no caso de acidentes graves não é bom procurar o Salgado Filho, mas sim o Souza Aguiar”. Dado interessante não só pelo visível, mas também pelo subjetivo, já que parece possível haver um certo “xodó” por parte daqueles profissionais de saúde que vestem a camisa do hospital que trabalham e gostam. E acredito ainda que o fator “negligência” nos será também outra constante a ser perseguida, uma vez que será impossível nos deparar com os casos de óbito sem deixar vir à cabeça tal preocupação.
Os setores mais pesados, que hão de nos dizer mais a respeito, são a UPT - Unidade de Politraumatizados, e o PS - Pronto Socorro. A primeira vista, além de assustador me pareceu um tanto confuso, já que em meio de politraumatizados de toda espécie, óbitos, PAF’s... encontra-se também intoxicados, casos clínicos graves como pneumonia, etc. Esses dois setores merecerão olhares atentos e minunciosos, pela aparente complexidade de elementos objetivos e subjetivos que exploraremos em novas visitas, pois não acredito ser fácil, por exemplo, para o paciente - trauma - do leito 6 da UPT, ter que se encobrir para não ver o esforço concentrado no leito 1 em um idoso caso clínico que acabou por ir à óbito. Só não será possível nem para o leito 6 nem para os demais leitos evitar o sonido da voz : “vamos fazer o pacote” ou “vamos puxar ele”.
Ouvir as vozes da América, continente que testemunhou mais de 500 anos de exploração. Deixem os gritos dos excluídos entrar em suas almas e verão que o sangue derramado em nossos campos não fertilizaram a terra, que a soberba dos imperialistas se camufla em guerras ou globalização, que nosso povo pagou com suas vidas o alto preço dos lucros. A literatura e história são as nossas armas e com elas, havemos de continuar resistindo, recriando a latinidade.
domingo, 25 de maio de 2008
Diário de campo - Um mergulho no dia-a-dia dos hospitais públicos do Rio de Janeiro - PARTE 1
Este texto foi escrito originalmente em Março de 1996. Porém, sua atualidade é espantosa e tragicamente contemporânea. Isto certamente tem várias explicações sociológicas, mas de uma não devemos fugir: o Prefeito da cidade é o mesmo.
Rio de janeiro, 15 de março de 1996.
Primeiro Diário de Campo - Zona Sul
Visita ao Hospital Municipal Miguel Couto, em 14 de Março.
Nesse dia, aliás o primeiro dia em minha nova experiência, estava eu acompanhado e monitorado da professora Sueli, coordenadora do projeto, ancioso com a projeção que fazia do que estava por vir. Esperava um hospital logo de cara satisfazendo as pequenas informações já recebidas e as impressões de quem até então muito embora não tenha feito uso de uma emergência pública, sempre ficou atento ao compromisso de Instituições governamentais, principalmente no que tange educação e saúde.
Qual não fora minha surpresa, quando logo na entrada nos deparamos com a comitiva oficial municipal, chefiada pelo máximo representante do poder executivo, o prefeito. Sem dúvida a presença de César Maia significava um dia, no mínimo atípico se comparado com a rotina daquele hospital, esbravejado aos quatro cantos do estado como o “melhor embora haja problemas...”. Os bochichos da entrada e as rodas que se formavam, me soavam como prenúncio de que ao menos naquele dia, ou ao menos naquela manhã as coisas por lá andaram maquiadamente melhor.
Driblamos os aglomerados e fomos então fazer o percurso dos pacientes que chegam em condições de se locomover à emergência daquele hospital. De pronto pude observar uma fila na entrada de casos visivelmente deslocados de um atendimento emergente, arrisco dizer que no pouco tempo de observação daquela fila, a maioria absoluta de casos assim se enquadravam, o que resultará sem dúvida em inchaço desse serviço. Porém da mesma forma que assumi arriscar diagnosticar, assim também o faz , na maioria das vezes o primeiro atendimento do hospital, já que a triagem feita nos instantes que ali permanecíamos era por profissionais de segurança, vigilantes, terceirizados. Dali o paciente será atendido de acordo com a gravidade: caso seja alocado em “pequenas emergências” permanece no primeiro andar e aí será indicado de acordo com o tipo de caso, oftalmologia, odontologia,etc. Caso o paciente esteja enquadrado nas “grandes emergências” ele sobe para o segundo andar.
Ao passo que mais e mais informações eram fornecidas pela Sueli e ilustradas pelas circunstâncias, fui apresentado ao percurso daqueles que só chegam ao Miguel Couto em alguma viatura e, como se fosse de propósito, eis que chega um custodioso. Algemado, escoltado e posto numa maca de qualquer maneira, cria assim mesmo um certo alvoroço nos profissionais de saúde e de fato não é para menos, porque se é verdade que tais profissionais não devam fazer qualquer pré-julgamento, também é verdade a possibilidade objetiva de um resgate a trinta ou qualquer coisa parecida. Não o vimos mais.
Subimos à emergência que servirá de laboratório nesta fase da pesquisa. Fui recomendado “respirar fundo e dar uma segurada”, e de fato precisei. De saída entrevistamos um caso de mutilamento por granada e o relato de uma mãe cuja a única razão de permanecer em pé, a mais de 24 horas sem comer, mesmo portando crachá de acompanhante, era sua desenfreada fé evangélica Universal que lhe explicava para àquele fato a luta incessante de Satanás com Jesus Cristo, que culminou na derrota do primeiro, mesmo que tenha levado seu braço. Vale dizer que por menos tempo permanecido ali, mesmo em dia de visita oficial, não foi só esse desleixo com a D. Malvina que saltou aos olhos de tão gritante. Ao irmos entrevistá-la em sala pouco mais reservada que a enfermaria da emergência, somos surpreendidos por uma mulher de mais ou menos 30 anos, sentada de calcinha e sutiã, num sofá da sala da chefia da enfermagem, com sua roupa pressionada ao corpo e toda urinada, chorando muito. Fora um medicamento aplicado minutos antes sem acompanhamento profissional. E para encerrar o dia de intensa multiplicidade de casos concentrado, o relato de uma idosa, D. Alda Vitória, 77, que por mais corriqueiro que nos possa parecer sua internação pelo avançado de sua idade, uma queda no banheiro após banhar-se, não é sequer tragável o fato de estar com a “comadre” cheia pelo tempo que com ela permanecemos - aproximadamente 30 minutos - e outros tantos que ela dizia para mais de hora.
O contraste nas entrevistas ficou claro quando a fizemos com um médico de 22 anos de Miguel Couto, participante de reuniões da Diretoria, que pelas manhãs cobre o “setor” de triagem rendendo os seguranças terceirizados. Aí, o discurso oficial colide com a observação participativa, e é regido pela cartilha do “apesar das dificuldades, este é o único hospital público capacitado ao atendimento...”, que, ao que me parece está intimamente ligado com o afã publicitário de auto promoção do Diretor deste hospital, e do próprio chefe do Executivo.
Todavia, esse relato é fruto de uma primeira visita ao setor de emergência de um dos dois hospitais públicos que estudaremos e claro, pode trazer numa primeira análise, equívoco. O que me pareceu pertubador foi imaginar que mesmo a D. Malvina esperando uma hora e meia para que seu filho fosse atendido depois de penarem em dois hospitais sem atendimento; Mesmo D. Alda aguardando que a limpassem e fosse assim retirado sua “comadre” onde já havia até moscas sob seu cobertor, cuja maior preocupação era se o hospital podia pô-la na rua a qualquer momento; Mesmo vendo um grande contigente de acadêmicos de medicina atendendo os pacientes naquele setor internado, e não os médicos responsáveis; é este Miguel Couto, considerado o melhor hospital da rede pública do Estado do Rio de Janeiro.
Rio de janeiro, 15 de março de 1996.
Primeiro Diário de Campo - Zona Sul
Visita ao Hospital Municipal Miguel Couto, em 14 de Março.
Nesse dia, aliás o primeiro dia em minha nova experiência, estava eu acompanhado e monitorado da professora Sueli, coordenadora do projeto, ancioso com a projeção que fazia do que estava por vir. Esperava um hospital logo de cara satisfazendo as pequenas informações já recebidas e as impressões de quem até então muito embora não tenha feito uso de uma emergência pública, sempre ficou atento ao compromisso de Instituições governamentais, principalmente no que tange educação e saúde.
Qual não fora minha surpresa, quando logo na entrada nos deparamos com a comitiva oficial municipal, chefiada pelo máximo representante do poder executivo, o prefeito. Sem dúvida a presença de César Maia significava um dia, no mínimo atípico se comparado com a rotina daquele hospital, esbravejado aos quatro cantos do estado como o “melhor embora haja problemas...”. Os bochichos da entrada e as rodas que se formavam, me soavam como prenúncio de que ao menos naquele dia, ou ao menos naquela manhã as coisas por lá andaram maquiadamente melhor.
Driblamos os aglomerados e fomos então fazer o percurso dos pacientes que chegam em condições de se locomover à emergência daquele hospital. De pronto pude observar uma fila na entrada de casos visivelmente deslocados de um atendimento emergente, arrisco dizer que no pouco tempo de observação daquela fila, a maioria absoluta de casos assim se enquadravam, o que resultará sem dúvida em inchaço desse serviço. Porém da mesma forma que assumi arriscar diagnosticar, assim também o faz , na maioria das vezes o primeiro atendimento do hospital, já que a triagem feita nos instantes que ali permanecíamos era por profissionais de segurança, vigilantes, terceirizados. Dali o paciente será atendido de acordo com a gravidade: caso seja alocado em “pequenas emergências” permanece no primeiro andar e aí será indicado de acordo com o tipo de caso, oftalmologia, odontologia,etc. Caso o paciente esteja enquadrado nas “grandes emergências” ele sobe para o segundo andar.
Ao passo que mais e mais informações eram fornecidas pela Sueli e ilustradas pelas circunstâncias, fui apresentado ao percurso daqueles que só chegam ao Miguel Couto em alguma viatura e, como se fosse de propósito, eis que chega um custodioso. Algemado, escoltado e posto numa maca de qualquer maneira, cria assim mesmo um certo alvoroço nos profissionais de saúde e de fato não é para menos, porque se é verdade que tais profissionais não devam fazer qualquer pré-julgamento, também é verdade a possibilidade objetiva de um resgate a trinta ou qualquer coisa parecida. Não o vimos mais.
Subimos à emergência que servirá de laboratório nesta fase da pesquisa. Fui recomendado “respirar fundo e dar uma segurada”, e de fato precisei. De saída entrevistamos um caso de mutilamento por granada e o relato de uma mãe cuja a única razão de permanecer em pé, a mais de 24 horas sem comer, mesmo portando crachá de acompanhante, era sua desenfreada fé evangélica Universal que lhe explicava para àquele fato a luta incessante de Satanás com Jesus Cristo, que culminou na derrota do primeiro, mesmo que tenha levado seu braço. Vale dizer que por menos tempo permanecido ali, mesmo em dia de visita oficial, não foi só esse desleixo com a D. Malvina que saltou aos olhos de tão gritante. Ao irmos entrevistá-la em sala pouco mais reservada que a enfermaria da emergência, somos surpreendidos por uma mulher de mais ou menos 30 anos, sentada de calcinha e sutiã, num sofá da sala da chefia da enfermagem, com sua roupa pressionada ao corpo e toda urinada, chorando muito. Fora um medicamento aplicado minutos antes sem acompanhamento profissional. E para encerrar o dia de intensa multiplicidade de casos concentrado, o relato de uma idosa, D. Alda Vitória, 77, que por mais corriqueiro que nos possa parecer sua internação pelo avançado de sua idade, uma queda no banheiro após banhar-se, não é sequer tragável o fato de estar com a “comadre” cheia pelo tempo que com ela permanecemos - aproximadamente 30 minutos - e outros tantos que ela dizia para mais de hora.
O contraste nas entrevistas ficou claro quando a fizemos com um médico de 22 anos de Miguel Couto, participante de reuniões da Diretoria, que pelas manhãs cobre o “setor” de triagem rendendo os seguranças terceirizados. Aí, o discurso oficial colide com a observação participativa, e é regido pela cartilha do “apesar das dificuldades, este é o único hospital público capacitado ao atendimento...”, que, ao que me parece está intimamente ligado com o afã publicitário de auto promoção do Diretor deste hospital, e do próprio chefe do Executivo.
Todavia, esse relato é fruto de uma primeira visita ao setor de emergência de um dos dois hospitais públicos que estudaremos e claro, pode trazer numa primeira análise, equívoco. O que me pareceu pertubador foi imaginar que mesmo a D. Malvina esperando uma hora e meia para que seu filho fosse atendido depois de penarem em dois hospitais sem atendimento; Mesmo D. Alda aguardando que a limpassem e fosse assim retirado sua “comadre” onde já havia até moscas sob seu cobertor, cuja maior preocupação era se o hospital podia pô-la na rua a qualquer momento; Mesmo vendo um grande contigente de acadêmicos de medicina atendendo os pacientes naquele setor internado, e não os médicos responsáveis; é este Miguel Couto, considerado o melhor hospital da rede pública do Estado do Rio de Janeiro.
Mídias alternativas
Raros leitores,
A lista de sítios que segue abaixo, são de endereços alternativos a esta mídia amestrada pelos interesses internacionais e da própria elite brasileira. Mas devo lembrá-los: São apenas alternativas de informação e não fonte da mais pura verdade. Quem vende notícias distorcidas como se verdade fosse, são os grandes canais de comunicação de massa, com o objetivo de espalhar a epidemia de ignorância citada no retorno desta página a ação.
Portanto, boas leituras!
www.abi.bo
www.cartamaior.uol.com.br
www.prensa-latina.cu
www.casla.com.br
www.midiaindependente.org.br
www.cubasocialista.cu
www.el-latinoamericano.com
www.ezln.org.mx
www.granma.cu
www.diplo.uol.com.br
www.lainsignia.org
www.midiasemmascara.com.br
www.wallacecamargo.blogspot.com
www.diariomardeajo.com.ar
www.rnv.gov.ve
www.rebelion.org
www.reporterbrasil.com.br
www.ecuador.indymedia.org
www.asambleapopulardeoaxaca.com
www.radiomundoreal.fm
www.pcb.org.br
www.pstu.org.br
A lista de sítios que segue abaixo, são de endereços alternativos a esta mídia amestrada pelos interesses internacionais e da própria elite brasileira. Mas devo lembrá-los: São apenas alternativas de informação e não fonte da mais pura verdade. Quem vende notícias distorcidas como se verdade fosse, são os grandes canais de comunicação de massa, com o objetivo de espalhar a epidemia de ignorância citada no retorno desta página a ação.
Portanto, boas leituras!
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Caros amigos
Estamos retornando a atividade, depois de um longo e rigoroso verão, repleto de epidemias que desafiaram a lógica do bom senso. Em Janeiro sofremos com a febre amarela e toda a população correu para os postos de saúde que não davam conta da demanda. Logo em seguida o mesmo aedes egypti aterrorizou o país inteiro com sua picada, muitas vezes fatal. Mas a pior de todas as epidemias, a mais mortal, aquela que não tem mês específico para aparecer, nem tampouco ano, é a ignorância. Cuidado! Pois ela assola o mundo inteiro e no nosso caso, insiste em aparecer diariamente sob os mais diversos formatos, mas em especial, este ano, ela aflorará deixando mais vítimas que de costume, pois é um ano eleitoral.
Todas as outras epidemias poderiam ser evitadas se esta, a mais letal, não existisse. O Vozes da América está de volta para gritar, até mesmo por entender que o grito é um de seus antídotos, e convidamos mais gritos a ser juntar aos nossos.
Sigamos!
Canción con todos
Salgo a caminar, por la cintura cósmica del sur.
Piso en la región más vegetal del viento y de la luz.
Siento al caminar toda la piel de América en mi piel.
Y anda en mi sangre un río que libera en mi voz su caudal
Sol de alto Perú, rostro Bolivia, estaño y soledad.
Un verde Brasil besa mi Chile cobre y mineral.
Subo desde el sur hacia la entraña América y total.
Pura raiz de un grito destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces, todas.
Todas las manos, todas.
Toda la sangre puedeser canción en el viento
Canta conmigo, canta,
hermano americano.
Libera tu esperanza
con un grito en la voz.
(Tejada Gomez / César Isella)
Solo vocal inesquecível: Mercedes Sosa.
Todas as outras epidemias poderiam ser evitadas se esta, a mais letal, não existisse. O Vozes da América está de volta para gritar, até mesmo por entender que o grito é um de seus antídotos, e convidamos mais gritos a ser juntar aos nossos.
Sigamos!
Canción con todos
Salgo a caminar, por la cintura cósmica del sur.
Piso en la región más vegetal del viento y de la luz.
Siento al caminar toda la piel de América en mi piel.
Y anda en mi sangre un río que libera en mi voz su caudal
Sol de alto Perú, rostro Bolivia, estaño y soledad.
Un verde Brasil besa mi Chile cobre y mineral.
Subo desde el sur hacia la entraña América y total.
Pura raiz de un grito destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces, todas.
Todas las manos, todas.
Toda la sangre puedeser canción en el viento
Canta conmigo, canta,
hermano americano.
Libera tu esperanza
con un grito en la voz.
(Tejada Gomez / César Isella)
Solo vocal inesquecível: Mercedes Sosa.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Pensata: O aniversário do Justo
Está chegando o Natal. E, a cada ano que passa, os que já o viram chegar outras vezes acham-no bastante mudado. E se perguntam, como Machado de Assis: mudaria o Natal, ou mudei eu?
Machado de Assis sabia que ambos tinham mudado. A dificuldade está em extrair as conseqüências da enorme diferença nos ritmos da mudança. Enquanto o nosso genial escritor mudava na escala de uns míseros 70 anos, na escala de uma vida humana, o Natal, a celebração do nascimento de Cristo, vem se transformando ao longo de dois milênios.
Inicialmente, a celebração passou a ser, como era inevitável, um elemento que afirmava a identidade própria de um grupo. Entrou em cena um punhado de dissidentes judeus, que ansiavam por mostrar uma grande novidade religiosa: os Evangelhos.
Embora a fixação da data de nascimento do Cristo seja bastante discutível, a celebração prevaleceu. Não importava que a data fosse incerta. O que era essencial era que o aniversariante não fosse esquecido.
Um Deus nascido numa manjedoura e morto pregado na cruz era uma figura que comovia muito e dava muito o que pensar. Cresceu o número de pessoas que, mesmo quando não reconheciam nele o filho de Deus, reverenciavam-no como um justo.
Organizados na forma de uma assembléia (ecclesia), os discípulos do Cristo, desconfiados, tentaram evitar os males da propriedade privada, adotando - voluntariamente - a propriedade coletiva. Mas o crescimento e o fortalecimento da ecclesia obrigaram o movimento popular dos cristãos a recuar.
Durante a Idade Média, a fonte do poder era a propriedade da terra, e a Igreja se tornou uma grande proprietária de terra. Fazia parte dos beneficiários do sistema feudal.
Depois, veio a espertíssima classe dos burgueses e submeteu toda a sociedade à lógica do mercado. Tudo vira mercadoria, tudo se vende e se compra.
O Natal se transformou e continua se transformando. Nem sempre para o bem, ouso dizer.
Não me identifico com nenhuma religião, não sou cristão, mas o fato de ser um observador externo dos fenômenos religiosos não me impede de acompanhar, com simpatias e antipatias, os avanços e recuos dos cristãos.
Às vezes, me impaciento um pouco. Seria ridículo fazer campanha contra Papai Noel. Ele não tem culpa pelo que fazem com sua figura pitoresca, com seu carro puxado por renas voadoras, com o saco cheio de presentes para as crianças boazinhas. Não tem culpa pela risada que lhe foi atribuída, aquele som horrível: Hô-hô-hô.
Talvez, porém, seja menos inocente quando se associa à febre consumista da passagem do ano. Respeito o entusiasmo do Bom Velhinho pelos panetones e rabanadas. Porém, acho estranho vê-lo caminhar à frente de vitrinas hiperiluminadas, fazendo propaganda de carros, geladeiras e apartamentos, discutindo a cotação do dólar. Nem o sistema de pagamentos em módicas prestações vai me convencer a aceitar os truques da modernidade.
Nunca entendi qual é o vínculo desse ancião robusto com o Natal. Já tentaram me explicar que o veterano usuário do carro das renas é, de fato, um certo São Nicolaus, do qual pouco se sabe. Por isso, muitos norte-americanos e ingleses não falam em Papai Noel, como nós. Falam em Santaclaus.
Acho, sinceramente, que nenhum Santaclaus, cantando Jingle bell, vai convencer a humanidade de que as atuais formas de celebração do nascimento de Cristo incorporam e absorvem a festa de Papai Noel. E acho, também, que os festejos natalinos - expressões legítimas da alegria do povo - não têm (nem devem ter) a pretensão de absorver e incorporar a sua dinâmica peculiar a celebração do aniversário de Jesus.
No início da nova era, os escravos fizeram diversas tentativas revolucionárias de derrubar o Império Romano (lembremos de Espártaco). Os judeus também se insurgiram contra Roma, em Masada. O fracasso desses levantes sugere que o caminho revolucionário, naquelas condições, era inviável.
Cristo mobilizou pessoas que, na maioria, eram pobres. Não podendo acabar com a pobreza, encaminhou um programa de valorização da dignidade e de conquista da auto-estima. O movimento de massas desencadeado pelos cristãos era uma reação de sincero nojo contra a corrupção crescente, uma enérgica revolta contra o cinismo demoníaco das classes dominantes.
Como descrente respeitoso que sou - marxista convicto, irrecuperável - quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santaclaus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo.
Machado de Assis sabia que ambos tinham mudado. A dificuldade está em extrair as conseqüências da enorme diferença nos ritmos da mudança. Enquanto o nosso genial escritor mudava na escala de uns míseros 70 anos, na escala de uma vida humana, o Natal, a celebração do nascimento de Cristo, vem se transformando ao longo de dois milênios.
Inicialmente, a celebração passou a ser, como era inevitável, um elemento que afirmava a identidade própria de um grupo. Entrou em cena um punhado de dissidentes judeus, que ansiavam por mostrar uma grande novidade religiosa: os Evangelhos.
Embora a fixação da data de nascimento do Cristo seja bastante discutível, a celebração prevaleceu. Não importava que a data fosse incerta. O que era essencial era que o aniversariante não fosse esquecido.
Um Deus nascido numa manjedoura e morto pregado na cruz era uma figura que comovia muito e dava muito o que pensar. Cresceu o número de pessoas que, mesmo quando não reconheciam nele o filho de Deus, reverenciavam-no como um justo.
Organizados na forma de uma assembléia (ecclesia), os discípulos do Cristo, desconfiados, tentaram evitar os males da propriedade privada, adotando - voluntariamente - a propriedade coletiva. Mas o crescimento e o fortalecimento da ecclesia obrigaram o movimento popular dos cristãos a recuar.
Durante a Idade Média, a fonte do poder era a propriedade da terra, e a Igreja se tornou uma grande proprietária de terra. Fazia parte dos beneficiários do sistema feudal.
Depois, veio a espertíssima classe dos burgueses e submeteu toda a sociedade à lógica do mercado. Tudo vira mercadoria, tudo se vende e se compra.
O Natal se transformou e continua se transformando. Nem sempre para o bem, ouso dizer.
Não me identifico com nenhuma religião, não sou cristão, mas o fato de ser um observador externo dos fenômenos religiosos não me impede de acompanhar, com simpatias e antipatias, os avanços e recuos dos cristãos.
Às vezes, me impaciento um pouco. Seria ridículo fazer campanha contra Papai Noel. Ele não tem culpa pelo que fazem com sua figura pitoresca, com seu carro puxado por renas voadoras, com o saco cheio de presentes para as crianças boazinhas. Não tem culpa pela risada que lhe foi atribuída, aquele som horrível: Hô-hô-hô.
Talvez, porém, seja menos inocente quando se associa à febre consumista da passagem do ano. Respeito o entusiasmo do Bom Velhinho pelos panetones e rabanadas. Porém, acho estranho vê-lo caminhar à frente de vitrinas hiperiluminadas, fazendo propaganda de carros, geladeiras e apartamentos, discutindo a cotação do dólar. Nem o sistema de pagamentos em módicas prestações vai me convencer a aceitar os truques da modernidade.
Nunca entendi qual é o vínculo desse ancião robusto com o Natal. Já tentaram me explicar que o veterano usuário do carro das renas é, de fato, um certo São Nicolaus, do qual pouco se sabe. Por isso, muitos norte-americanos e ingleses não falam em Papai Noel, como nós. Falam em Santaclaus.
Acho, sinceramente, que nenhum Santaclaus, cantando Jingle bell, vai convencer a humanidade de que as atuais formas de celebração do nascimento de Cristo incorporam e absorvem a festa de Papai Noel. E acho, também, que os festejos natalinos - expressões legítimas da alegria do povo - não têm (nem devem ter) a pretensão de absorver e incorporar a sua dinâmica peculiar a celebração do aniversário de Jesus.
No início da nova era, os escravos fizeram diversas tentativas revolucionárias de derrubar o Império Romano (lembremos de Espártaco). Os judeus também se insurgiram contra Roma, em Masada. O fracasso desses levantes sugere que o caminho revolucionário, naquelas condições, era inviável.
Cristo mobilizou pessoas que, na maioria, eram pobres. Não podendo acabar com a pobreza, encaminhou um programa de valorização da dignidade e de conquista da auto-estima. O movimento de massas desencadeado pelos cristãos era uma reação de sincero nojo contra a corrupção crescente, uma enérgica revolta contra o cinismo demoníaco das classes dominantes.
Como descrente respeitoso que sou - marxista convicto, irrecuperável - quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santaclaus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo.
Pensata: O aniversário do Justo
Leandro Konder - Filósofo
Extraído do Jornal do Brasil de 22 de Dezembro de 2007
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Dica, apenas uma dica.
Raros amigos,
Chegou enfim o natal e com ele um grande problema. Primeiro do ponto de vista filosófico, pois em essência, comemora-se o nascimento de Cristo, partindo do pressuposto que é filho de Deus e desvenda o rosário da era cristã. Ainda assim, se você for temente a Deus, nos deparamos com o conceito de religião ao qual você segue, uma vez que o natal só é concebido como tal se o entendermos dentro de uma perspectiva cristã, fato que reduz ainda mais o espectro do seu significado religioso.
O segundo problema transcende a isto e para pior, pois a análise é mercadológica. Supondo a filosofia cristã como referência, o que se deveria comemorar era a fraternidade e a solidariedade, marcas deixadas pelo messias em sua curta passagem pela terra. Mas não. O que se vê é o desenfreado consumo de coisas e pessoas, pois antropofagicamente, o sistema capitalista não tem o menor pudor em fazer-nos comermos uns aos outros em troca de um presente de natal. Vale tudo. Nos consumirmos sob a forma de dívidas no cheque especial, nos cartões de crédito, só não vale "não se lembrar das pessoas que amamos", diria qualquer propaganda piegas neste tempo.
Bem, seja qual for seu motivo de comemoração, sua religião e sua predisposição às tentações da propaganda, segue abaixo uma lista de sebos da cidade do Rio de Janeiro, que além de vender excelentes presentes, serve para qualquer mês do ano e razão para se presentear de forma barata e eficaz.
Chegou enfim o natal e com ele um grande problema. Primeiro do ponto de vista filosófico, pois em essência, comemora-se o nascimento de Cristo, partindo do pressuposto que é filho de Deus e desvenda o rosário da era cristã. Ainda assim, se você for temente a Deus, nos deparamos com o conceito de religião ao qual você segue, uma vez que o natal só é concebido como tal se o entendermos dentro de uma perspectiva cristã, fato que reduz ainda mais o espectro do seu significado religioso.
O segundo problema transcende a isto e para pior, pois a análise é mercadológica. Supondo a filosofia cristã como referência, o que se deveria comemorar era a fraternidade e a solidariedade, marcas deixadas pelo messias em sua curta passagem pela terra. Mas não. O que se vê é o desenfreado consumo de coisas e pessoas, pois antropofagicamente, o sistema capitalista não tem o menor pudor em fazer-nos comermos uns aos outros em troca de um presente de natal. Vale tudo. Nos consumirmos sob a forma de dívidas no cheque especial, nos cartões de crédito, só não vale "não se lembrar das pessoas que amamos", diria qualquer propaganda piegas neste tempo.
Bem, seja qual for seu motivo de comemoração, sua religião e sua predisposição às tentações da propaganda, segue abaixo uma lista de sebos da cidade do Rio de Janeiro, que além de vender excelentes presentes, serve para qualquer mês do ano e razão para se presentear de forma barata e eficaz.
Relação de sebos no Rio de Janeiro
A origem do apanhado derivou de um comentário meu na lista sobre a dificuldade de encontrarmos livros de poesia, mesmo de poetas consagrados. Daí eu acrescentei que, além da Internet, eram os sebos que me salvavam. Nestes locais encontrei verdadeiros tesouros:
1. Na rua Dois de Dezembro tem um ótimo ao ar livre, a banca da Alda.
2. No Largo do Machado, ao lado da saída do Metrô Catete, colada à segunda saída da Sendas, tem uma lojinha pequena onde se vendem livros novos e usados.
3. Na Praça José de Alencar, ao ar livro (errinho intencional), as bancas do Sr. Firmino e do Sr. Sílvio, de grande variedade.
4. Na rua Buarque de Macedo, bem no início, um excelente, com poltrona, mesinha. O dono é um rapaz de cabelos compridos, óculos, cara de intelectual consumado. Ele é muito atencioso.
5. Sebo "João do Rio", altura do número cento e oitenta e poucos, da Rua do Catete, próximo à Silveira Martins, o maior de todos. Muita coisa mesmo. O único inconveniente é que fica num sobrado daqueles antigos e é preciso subir um lance de escada. Esse já foi até objeto de matéria na TV.
6. No antigo prédio da UNE, logo na entrada, vendem-se livros novos e usados, mas o preço às vezes é um pouco mais salgado. Fica no coração da rua do Catete.
E sempre há o recurso de pegar o Metrô e ir para o Centro da Cidade, onde o que não falta é sebo:
a) "São José" - Um dos mais famosos, uma loja imensa, com dois andares de livros. Fica na Rua do Carmo, 61. Telefone: 242-1613. Há muitos anos entrevistei o dono desse sebo para escrever uma matéria sobre o assunto para o jornal Perspectiva Universitária, onde então trabalhava. b) "Sebão" - Visconde do Rio Branco, 34 c) "Elizart" - Rua Marechal Floriano, 63, telefone: 233-6024. Muito conhecido, também. d) "Tiradentes" - Rua da Carioca, próximo à Praça Tiradentes. e) "Fenac"- Rua da Quitanda, 31 (próximo à estação Cinelândia, do Metrô) f) "Antiquário" - Rua Sete de Setembro, 207 g) "Alberjano Torres" - Rua Visconde de Inahaúma, 109 (seqüência da Rua Marechal Floriano, onde existe o "Elizart") - telefone: 581-9289 h) "Winston" - Rua Buenos Aires, 83 - telefone: 224-3310 i) "O Velho Livreiro" - Rua da Assembléia, 85, telefone: 222-1385 l) No Edifício Avenida Central, sobreloja, há um muito conhecido, mas o nome agora me foge. O Edifício fica ao lado da Estação Carioca, do Metrô. Além do sebo, lá existem duas livrarias da Ciência Moderna, bem grandes, especializadas em livros de Informática. Aliás, o Avenida Central possui inúmeras lojas de "soft" e "hard", além de três andares de "stands" onde se vende de tudo relativo ao mundo dos computadores.
A origem do apanhado derivou de um comentário meu na lista sobre a dificuldade de encontrarmos livros de poesia, mesmo de poetas consagrados. Daí eu acrescentei que, além da Internet, eram os sebos que me salvavam. Nestes locais encontrei verdadeiros tesouros:
1. Na rua Dois de Dezembro tem um ótimo ao ar livre, a banca da Alda.
2. No Largo do Machado, ao lado da saída do Metrô Catete, colada à segunda saída da Sendas, tem uma lojinha pequena onde se vendem livros novos e usados.
3. Na Praça José de Alencar, ao ar livro (errinho intencional), as bancas do Sr. Firmino e do Sr. Sílvio, de grande variedade.
4. Na rua Buarque de Macedo, bem no início, um excelente, com poltrona, mesinha. O dono é um rapaz de cabelos compridos, óculos, cara de intelectual consumado. Ele é muito atencioso.
5. Sebo "João do Rio", altura do número cento e oitenta e poucos, da Rua do Catete, próximo à Silveira Martins, o maior de todos. Muita coisa mesmo. O único inconveniente é que fica num sobrado daqueles antigos e é preciso subir um lance de escada. Esse já foi até objeto de matéria na TV.
6. No antigo prédio da UNE, logo na entrada, vendem-se livros novos e usados, mas o preço às vezes é um pouco mais salgado. Fica no coração da rua do Catete.
E sempre há o recurso de pegar o Metrô e ir para o Centro da Cidade, onde o que não falta é sebo:
a) "São José" - Um dos mais famosos, uma loja imensa, com dois andares de livros. Fica na Rua do Carmo, 61. Telefone: 242-1613. Há muitos anos entrevistei o dono desse sebo para escrever uma matéria sobre o assunto para o jornal Perspectiva Universitária, onde então trabalhava. b) "Sebão" - Visconde do Rio Branco, 34 c) "Elizart" - Rua Marechal Floriano, 63, telefone: 233-6024. Muito conhecido, também. d) "Tiradentes" - Rua da Carioca, próximo à Praça Tiradentes. e) "Fenac"- Rua da Quitanda, 31 (próximo à estação Cinelândia, do Metrô) f) "Antiquário" - Rua Sete de Setembro, 207 g) "Alberjano Torres" - Rua Visconde de Inahaúma, 109 (seqüência da Rua Marechal Floriano, onde existe o "Elizart") - telefone: 581-9289 h) "Winston" - Rua Buenos Aires, 83 - telefone: 224-3310 i) "O Velho Livreiro" - Rua da Assembléia, 85, telefone: 222-1385 l) No Edifício Avenida Central, sobreloja, há um muito conhecido, mas o nome agora me foge. O Edifício fica ao lado da Estação Carioca, do Metrô. Além do sebo, lá existem duas livrarias da Ciência Moderna, bem grandes, especializadas em livros de Informática. Aliás, o Avenida Central possui inúmeras lojas de "soft" e "hard", além de três andares de "stands" onde se vende de tudo relativo ao mundo dos computadores.
Polêmica - Por trás do jejum de Dom Cappio
Leonardo Boff provoca: "O bispo encarna uma postura ética. O amor ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma de conduta". Rodrigo Guéron rebate: "o gesto moralista não questionou a obra, nem as misérias do capitalismo — mas a democracia e os desejos da multidão"
Por uma justiça maiorO amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida (Por Leonardo Boff)
A fome de miséria do bispo Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte (Por Rodrigo Guéron)
Por uma justiça maior
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida
Leonardo Boff
Muitos de nós estamos acabrunhados com o resultado do Supremo Tribunal Federal, concedendo campo livre para o governo implementar a transposição do rio São Francisco.
O debate naquela corte suprema foi mal colocado. A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver. O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta.
Aqui se dá o confronto de duas posições: a do governo e a do bispo Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).
O governo busca um crescimento que, segundo os dados acima referidos, atende primeiramente aos interesses dos poderosos e secundariamente às necessidades do povo sofredor, o que configura falta de eqüidade. Esta posição é chamada de modernização conservadora, teórica e práticamente superada.
Em função de um projeto que prioriza o povo há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco
O bispo Dom Capppio encarna uma postura ética dando centralidade ao social e à vida, especialmente dos milhões de condenados e ofendidos do semi-árido, com os quais ele trabalha há mais de 20 anos. Em função deste projeto social, que prioriza o povo e a vida e que não nega outros usos da água, há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco.
A justiça legal consagrou o projeto de crescimento do governo. Mas a justiça não é tudo numa sociedade, especialmente como a nossa, marcada por profundas desigualdades e conflitos de interesses que debilitam fortemente a nossa democracia.
O que sustenta a posição do bispo é outro tipo de justiça, aquela originária que antecede à justiça legal, justiça que garante o direito da vida, especialmente daqueles condenados a terem menos vida e por isso a morrerem antes do tempo. A larga tradição da ética cristã, racionalmente fundada em Aritóteles e em Santo Tomás de Aquino afirma aquela justiça originária e alimenta ainda hoje modernos projetos de ética mundial. Ela sustenta que acima da justiça está o amor à humanidade e a todos os seres. Lamentavelmente, não foi isso que se ouviu no arrazoado dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A justiça maior de que fala Jesus tributa amor e respeito Àquele Grande Outro, Deus
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida, como o está fazendo o bispo Dom Cappio, figura de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco. Esta é a justiça maior de que fala Jesus, porque tributa amor e respeito Àquele que se esconde atrás do outro que é o Grande Outro, Deus. O povo brasileiro em sua profunda religiosidade é sensível a esse argumento.
Para entender a posição e a atitude profética do bispo, precisamos compreender este tipo de fundamentação. É perversa a tentativa de desqualificar sua figura considerando-o autoritário e falto de base popular. Ele está ancorado nos milhões que geralmente não são ouvidos porque são tidos por incuravelmente ignorantes, zeros econômicos e óleo queimado. Mas eles são portadores de um saber de experiências feito, construido na convivência com o semi-árido e no amor ao rio que chamam com carinho de Velho Chico.
O compromisso de Dom Cappio continua, secundado por todos aqueles que até agora o acompanharam, especialmente, os movimentos populares e nomes notáveis da cena nacional e internacional.
Se ele, em consequência de seu gesto, vier a falecer, a transposição poderá ser feita, pois o governo dispõe de todos os meios, militares, legais, técnicos e econômicos. Mas será a transposição da maldição.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tudo o que representa, não merece carregar esta pecha pelos séculos afora.
A fome de miséria do Bispo
Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte
Rodrigo Guéron
Escrevi um primeiro artigo sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco no jejum anterior do religioso. Naquela ocasião, ele recebeu o apoio de alguns dos maiores coronéis oligarcas nordestinos: ACM foi visitá-lo e o então governador de Sergipe, João Alves Filho, chefe do pefelê local, participou de uma missa em sua homenagem. Note-se que ambos foram derrotados, nas eleições que se seguiram, exatamente por dois candidatos a governador do PT, numa campanha eleitoral onde as obras do rio não deixaram de ser debatidas.
É evidente que as discussões técnicas em torno da transposição são importantes. O problema são as características do ato protagonizado pelo bispo, o que esta performance diz e simboliza. Muito mais que os apoios ecléticos recebidos por Dom Cappio, seu gesto traz à tona algo que expressa o que o Brasil, e o Nordeste em particular, têm de mais conservador e violento.
O ato do bispo é, em primeiro lugar, um culto à fome, ao sofrimento e em última análise à própria morte. O bispo se auto-exalta, e é exaltado, como alguém que seria mais virtuoso que os outros porque sofre e passa fome. Isso o faria uma espécie de portador da verdade. Ou seja, fome e sofrimento seriam uma espécie de passaporte para a bem. Dessa maneira, no entanto, o bispo restaura o próprio circuito de miséria, violência endêmica e poder, que se fecha numa lógica, num sentido, que há mais de um século aprisiona a vida, e conseqüentemente a política, no Nordeste.
A pulsão de morte... a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência
O mal que o moralismo salvacionista católico fez, e faz, ao país, apesar de toda ambígua e impressionante potência de Canudos, parece não ter fim. O culto ao mártir morto e vitimizado, a lógica da sina do miserável predestinado; enfim, a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência. Esse ímpeto, que balança entre o conformismo e a atitude suicida/auto-martirizante por uma grande causa – como supostamente é a do bispo – transforma-se numa espécie de pulsão de morte coletiva que transcende, no Brasil, os limites do Nordeste.
Estou longe de ser um entusiasta do desenvolvimentismo, do progresso a qualquer preço: aí também existe um culto positivista e uma crença na redenção, em torno da qual organizam-se esquemas de poder. Acredito, no entanto, que água, produção de alimento e mudanças nas relações de trabalho fariam bem ao sertão. É claro que deve haver pressão política, para que os pequenos proprietários desfrutem da obra. Eles podem vir a ser uma classe média rural, pequenos produtores, por vezes resultado das ocupações de latifúndios improdutivos feitas pelo MST, e que votaram massivamente em Lula nas últimas eleições. A Pastoral da Terra e a UDR que me desculpem, mas o MST é fundamental para o crescimento do nosso mercado agrícola; para que avance o processo de diversificação e barateamento dos alimentos que hoje vivemos no país.
E embora me considere à esquerda dos marxistas, com suas teleologias e transcendências, há até algo de marxista nessa minha afirmação, qual seja, entender que as transformações da produção são sempre, de certa forma, uma transformação – e uma produção – política. Mas o marxismo cristão brasileiro torna-se cada vez mais conservador: prefere a metafísica de Marx – a salvação em algum socialismo imaculado – ao seu materialismo. É triste que os teóricos da Teologia da Libertação, que produziram uma ruptura e um movimento liberador na imanência das lutas, na rebelião dos pobres e na potente palavra de ordem do MST (“Ocupar, resistir, produzir”, hoje um tanto esquecida...), tenham caído nessa captura conservadora que nega a vida pela transcendência.
A mesma lógica moralista de Frei Betto, quando diz que o problema é os pobres desejarem
É curioso, inclusive, que uma conhecida atriz global apóie com tanta veemência o tal bispo. Ela que, como milhões de pessoas, todos os dias toma banho em água limpa graças à transposição do rio Guandu, que abastece o Rio de Janeiro; e que é famosa graças, além de seu trabalho, à poderosa indústria do entretenimento e a seu custoso aparato tecnológico, quer agora negar a tecnologia aos pobres e falar dos perigos do mercado e do dinheiro se expandir pelo sertão. É a mesma lógica moralista que fez Frei Betto dizer, há não muito tempo, que a culpa da fome era da geladeira, porque fez os pobres desejarem ter sorvete e refrigerante, quando antes se satisfaziam com arroz, feijão e carne seca. Os pobres, os que estão fora do “mercado” desejando: este é na verdade o “perigo”....
Parece claro, portanto, que não foi contra os possíveis problemas da transposição do rio, nem contra as grandes misérias do capitalismo, que essa greve se voltou. É na verdade – como Gil e Caetano bem disseram na canção Haiti, numa menção à ira de nossas “classe médias” contra as escolas propostas por Darci Ribeiro — “um pânico mal-dissimulado diante de qualquer, mas qualquer mesmo, plano que pareça fácil é rápido, e vá representar uma ameaça de democratização...”
Suponhamos mesmo que, na pior hipótese, a transposição beneficie o agronegócio, as mega-empresas agrícolas exploradoras. Então, organiza-se um sindicato, reivindica-se melhores salários, participação nos lucros, faz-se uma boa greve... Em todo caso, melhor que o servilismo aos coronéis, que não querem a transposição; melhor que uma procissão de miseráveis que santificarão um bispo morto e pedirão que Deus “nos mande chuva” e se autogloficarão na miséria, na privação e na dor.
Acho inadmissível que setores que se dizem “de esquerda” apóiem isso: não são de esquerda, posto que estão sendo cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que e glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte.
Textos extraídos do Le Monde Diplomatique - Brasil
Por uma justiça maiorO amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida (Por Leonardo Boff)
A fome de miséria do bispo Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte (Por Rodrigo Guéron)
Por uma justiça maior
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida
Leonardo Boff
Muitos de nós estamos acabrunhados com o resultado do Supremo Tribunal Federal, concedendo campo livre para o governo implementar a transposição do rio São Francisco.
O debate naquela corte suprema foi mal colocado. A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver. O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta.
Aqui se dá o confronto de duas posições: a do governo e a do bispo Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).
O governo busca um crescimento que, segundo os dados acima referidos, atende primeiramente aos interesses dos poderosos e secundariamente às necessidades do povo sofredor, o que configura falta de eqüidade. Esta posição é chamada de modernização conservadora, teórica e práticamente superada.
Em função de um projeto que prioriza o povo há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco
O bispo Dom Capppio encarna uma postura ética dando centralidade ao social e à vida, especialmente dos milhões de condenados e ofendidos do semi-árido, com os quais ele trabalha há mais de 20 anos. Em função deste projeto social, que prioriza o povo e a vida e que não nega outros usos da água, há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco.
A justiça legal consagrou o projeto de crescimento do governo. Mas a justiça não é tudo numa sociedade, especialmente como a nossa, marcada por profundas desigualdades e conflitos de interesses que debilitam fortemente a nossa democracia.
O que sustenta a posição do bispo é outro tipo de justiça, aquela originária que antecede à justiça legal, justiça que garante o direito da vida, especialmente daqueles condenados a terem menos vida e por isso a morrerem antes do tempo. A larga tradição da ética cristã, racionalmente fundada em Aritóteles e em Santo Tomás de Aquino afirma aquela justiça originária e alimenta ainda hoje modernos projetos de ética mundial. Ela sustenta que acima da justiça está o amor à humanidade e a todos os seres. Lamentavelmente, não foi isso que se ouviu no arrazoado dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A justiça maior de que fala Jesus tributa amor e respeito Àquele Grande Outro, Deus
O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida, como o está fazendo o bispo Dom Cappio, figura de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco. Esta é a justiça maior de que fala Jesus, porque tributa amor e respeito Àquele que se esconde atrás do outro que é o Grande Outro, Deus. O povo brasileiro em sua profunda religiosidade é sensível a esse argumento.
Para entender a posição e a atitude profética do bispo, precisamos compreender este tipo de fundamentação. É perversa a tentativa de desqualificar sua figura considerando-o autoritário e falto de base popular. Ele está ancorado nos milhões que geralmente não são ouvidos porque são tidos por incuravelmente ignorantes, zeros econômicos e óleo queimado. Mas eles são portadores de um saber de experiências feito, construido na convivência com o semi-árido e no amor ao rio que chamam com carinho de Velho Chico.
O compromisso de Dom Cappio continua, secundado por todos aqueles que até agora o acompanharam, especialmente, os movimentos populares e nomes notáveis da cena nacional e internacional.
Se ele, em consequência de seu gesto, vier a falecer, a transposição poderá ser feita, pois o governo dispõe de todos os meios, militares, legais, técnicos e econômicos. Mas será a transposição da maldição.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tudo o que representa, não merece carregar esta pecha pelos séculos afora.
A fome de miséria do Bispo
Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte
Rodrigo Guéron
Escrevi um primeiro artigo sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco no jejum anterior do religioso. Naquela ocasião, ele recebeu o apoio de alguns dos maiores coronéis oligarcas nordestinos: ACM foi visitá-lo e o então governador de Sergipe, João Alves Filho, chefe do pefelê local, participou de uma missa em sua homenagem. Note-se que ambos foram derrotados, nas eleições que se seguiram, exatamente por dois candidatos a governador do PT, numa campanha eleitoral onde as obras do rio não deixaram de ser debatidas.
É evidente que as discussões técnicas em torno da transposição são importantes. O problema são as características do ato protagonizado pelo bispo, o que esta performance diz e simboliza. Muito mais que os apoios ecléticos recebidos por Dom Cappio, seu gesto traz à tona algo que expressa o que o Brasil, e o Nordeste em particular, têm de mais conservador e violento.
O ato do bispo é, em primeiro lugar, um culto à fome, ao sofrimento e em última análise à própria morte. O bispo se auto-exalta, e é exaltado, como alguém que seria mais virtuoso que os outros porque sofre e passa fome. Isso o faria uma espécie de portador da verdade. Ou seja, fome e sofrimento seriam uma espécie de passaporte para a bem. Dessa maneira, no entanto, o bispo restaura o próprio circuito de miséria, violência endêmica e poder, que se fecha numa lógica, num sentido, que há mais de um século aprisiona a vida, e conseqüentemente a política, no Nordeste.
A pulsão de morte... a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência
O mal que o moralismo salvacionista católico fez, e faz, ao país, apesar de toda ambígua e impressionante potência de Canudos, parece não ter fim. O culto ao mártir morto e vitimizado, a lógica da sina do miserável predestinado; enfim, a mistificação religiosa contra a qual Glauber Rocha se levantou com veemência. Esse ímpeto, que balança entre o conformismo e a atitude suicida/auto-martirizante por uma grande causa – como supostamente é a do bispo – transforma-se numa espécie de pulsão de morte coletiva que transcende, no Brasil, os limites do Nordeste.
Estou longe de ser um entusiasta do desenvolvimentismo, do progresso a qualquer preço: aí também existe um culto positivista e uma crença na redenção, em torno da qual organizam-se esquemas de poder. Acredito, no entanto, que água, produção de alimento e mudanças nas relações de trabalho fariam bem ao sertão. É claro que deve haver pressão política, para que os pequenos proprietários desfrutem da obra. Eles podem vir a ser uma classe média rural, pequenos produtores, por vezes resultado das ocupações de latifúndios improdutivos feitas pelo MST, e que votaram massivamente em Lula nas últimas eleições. A Pastoral da Terra e a UDR que me desculpem, mas o MST é fundamental para o crescimento do nosso mercado agrícola; para que avance o processo de diversificação e barateamento dos alimentos que hoje vivemos no país.
E embora me considere à esquerda dos marxistas, com suas teleologias e transcendências, há até algo de marxista nessa minha afirmação, qual seja, entender que as transformações da produção são sempre, de certa forma, uma transformação – e uma produção – política. Mas o marxismo cristão brasileiro torna-se cada vez mais conservador: prefere a metafísica de Marx – a salvação em algum socialismo imaculado – ao seu materialismo. É triste que os teóricos da Teologia da Libertação, que produziram uma ruptura e um movimento liberador na imanência das lutas, na rebelião dos pobres e na potente palavra de ordem do MST (“Ocupar, resistir, produzir”, hoje um tanto esquecida...), tenham caído nessa captura conservadora que nega a vida pela transcendência.
A mesma lógica moralista de Frei Betto, quando diz que o problema é os pobres desejarem
É curioso, inclusive, que uma conhecida atriz global apóie com tanta veemência o tal bispo. Ela que, como milhões de pessoas, todos os dias toma banho em água limpa graças à transposição do rio Guandu, que abastece o Rio de Janeiro; e que é famosa graças, além de seu trabalho, à poderosa indústria do entretenimento e a seu custoso aparato tecnológico, quer agora negar a tecnologia aos pobres e falar dos perigos do mercado e do dinheiro se expandir pelo sertão. É a mesma lógica moralista que fez Frei Betto dizer, há não muito tempo, que a culpa da fome era da geladeira, porque fez os pobres desejarem ter sorvete e refrigerante, quando antes se satisfaziam com arroz, feijão e carne seca. Os pobres, os que estão fora do “mercado” desejando: este é na verdade o “perigo”....
Parece claro, portanto, que não foi contra os possíveis problemas da transposição do rio, nem contra as grandes misérias do capitalismo, que essa greve se voltou. É na verdade – como Gil e Caetano bem disseram na canção Haiti, numa menção à ira de nossas “classe médias” contra as escolas propostas por Darci Ribeiro — “um pânico mal-dissimulado diante de qualquer, mas qualquer mesmo, plano que pareça fácil é rápido, e vá representar uma ameaça de democratização...”
Suponhamos mesmo que, na pior hipótese, a transposição beneficie o agronegócio, as mega-empresas agrícolas exploradoras. Então, organiza-se um sindicato, reivindica-se melhores salários, participação nos lucros, faz-se uma boa greve... Em todo caso, melhor que o servilismo aos coronéis, que não querem a transposição; melhor que uma procissão de miseráveis que santificarão um bispo morto e pedirão que Deus “nos mande chuva” e se autogloficarão na miséria, na privação e na dor.
Acho inadmissível que setores que se dizem “de esquerda” apóiem isso: não são de esquerda, posto que estão sendo cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que e glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte.
Textos extraídos do Le Monde Diplomatique - Brasil
A imprensa continua a mesma
“Na calada da noite” ou
“A imprensa continua a mesma”!
(Ernesto Germano – dezembro 2007)
Matéria no caderno internacional do Jornal do Brasil, em 14/12/07, destaca e comemora que “Os líderes da União Européia assinaram nesta quinta-feira em uma suntuosa cerimônia no Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa o novo tratado que substitui a fracassada Constituição européia, e que deve facilitar as decisões no bloco (...)”. Outros jornais brasileiros noticiaram o fato, com maior ou menor destaque, mas todos aprovando a medida.
Qual o problema? Simples! Mais um golpe bem urdido pelos neoliberais e pela direita européia e mais uma manipulação da notícia que só envergonha a profissão de jornalista.
Em 2003, depois da ampliação da União Européia, os líderes liberais tentaram criar um modelo de Constituição comum à região, mais adaptado à ideologia de redução do papel do Estado e retirada dos direitos sociais. O problema é que este modelo de Constituição teria que ser aprovado pelos países membros e uma cláusula dizia que se um só país votasse contra todo o projeto seria suspenso.
Alguns resolveram o problema de forma bem pouco democrática: Alemanha, Áustria, Itália, Bélgica e mais alguns resolveram fazer “eleição indireta” e os parlamentos bem afinados com a direita votaram favoráveis. A Inglaterra, Polônia, República Tcheca e outros ficaram aguardando os demais resultados. França, Holanda e Dinamarca convocaram plebiscito para a aprovação. E aí aconteceu a surpresa! Nos três o povo deu um sonoro “não” (54,86% dos votos) à Constituição proposta pelos liberais.
Vale destacar que, na época, Nicolás Sarkozy era ministro do Interior francês e fez campanha aberta pelo “sim”, sendo derrotado.
Durante muito tempo o projeto liberal de uma Constituição “flexível” para a União Européia ficou aguardando por melhores momentos. Sarkozy, agora eleito presidente da França, saiu pelo mundo defendendo Bush e tentando articular um grupo de apoio para evitar a queda do dólar. E agora nos surpreende com esta reunião no Mosteiro dos Jerônimos, onde ele foi peça chave, fazendo aprovar a nova Constituição “na calada da noite”, sem consultas e sem plebiscitos.
E agora a minha perplexidade com a imprensa brasileira. Um presidente passa por cima da decisão do povo que votou “não”, assina um acordo às escondidas no alto de um mosteiro e protocola a mudança constitucional. E nossa imprensa o apresenta como um “grande estadista da atualidade”. Outro presidente realiza um plebiscito para mudar a Constituição, é derrotado e aceita a decisão do povo. Nossa imprensa o apresenta com “ditador”.
Sarkozy passa por cima da vontade popular e é tido como “democrata”, Chávez acata a decisão do povo e é “tirano”. Estou fascinado com a nossa imprensa!
“A imprensa continua a mesma”!
(Ernesto Germano – dezembro 2007)
Matéria no caderno internacional do Jornal do Brasil, em 14/12/07, destaca e comemora que “Os líderes da União Européia assinaram nesta quinta-feira em uma suntuosa cerimônia no Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa o novo tratado que substitui a fracassada Constituição européia, e que deve facilitar as decisões no bloco (...)”. Outros jornais brasileiros noticiaram o fato, com maior ou menor destaque, mas todos aprovando a medida.
Qual o problema? Simples! Mais um golpe bem urdido pelos neoliberais e pela direita européia e mais uma manipulação da notícia que só envergonha a profissão de jornalista.
Em 2003, depois da ampliação da União Européia, os líderes liberais tentaram criar um modelo de Constituição comum à região, mais adaptado à ideologia de redução do papel do Estado e retirada dos direitos sociais. O problema é que este modelo de Constituição teria que ser aprovado pelos países membros e uma cláusula dizia que se um só país votasse contra todo o projeto seria suspenso.
Alguns resolveram o problema de forma bem pouco democrática: Alemanha, Áustria, Itália, Bélgica e mais alguns resolveram fazer “eleição indireta” e os parlamentos bem afinados com a direita votaram favoráveis. A Inglaterra, Polônia, República Tcheca e outros ficaram aguardando os demais resultados. França, Holanda e Dinamarca convocaram plebiscito para a aprovação. E aí aconteceu a surpresa! Nos três o povo deu um sonoro “não” (54,86% dos votos) à Constituição proposta pelos liberais.
Vale destacar que, na época, Nicolás Sarkozy era ministro do Interior francês e fez campanha aberta pelo “sim”, sendo derrotado.
Durante muito tempo o projeto liberal de uma Constituição “flexível” para a União Européia ficou aguardando por melhores momentos. Sarkozy, agora eleito presidente da França, saiu pelo mundo defendendo Bush e tentando articular um grupo de apoio para evitar a queda do dólar. E agora nos surpreende com esta reunião no Mosteiro dos Jerônimos, onde ele foi peça chave, fazendo aprovar a nova Constituição “na calada da noite”, sem consultas e sem plebiscitos.
E agora a minha perplexidade com a imprensa brasileira. Um presidente passa por cima da decisão do povo que votou “não”, assina um acordo às escondidas no alto de um mosteiro e protocola a mudança constitucional. E nossa imprensa o apresenta como um “grande estadista da atualidade”. Outro presidente realiza um plebiscito para mudar a Constituição, é derrotado e aceita a decisão do povo. Nossa imprensa o apresenta com “ditador”.
Sarkozy passa por cima da vontade popular e é tido como “democrata”, Chávez acata a decisão do povo e é “tirano”. Estou fascinado com a nossa imprensa!
A Imprensa brasileira e a Bolívia
Ah! Mas nós não somos selvagens!
ou A Imprensa brasileira e a Bolívia!
(Ernesto Germano – dezembro de 2007)
“O que este índio está pensando da vida?” Esta é a frase mais ouvida entre a direita boliviana. Ainda não conformados com a derrota sofrida nas urnas, em 2005, tentam por todos os meios impedir que Evo Morales governe o país. Quando convém, fazem discursos enaltecendo a “democracia”. Mas não lembram a vergonha e o golpismo de 2002.
Naquele ano, Evo Morales surpreendeu a todos os analistas quando chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais em um país dominado pelos partidos tradicionais. Então, como manda a legislação local, o segundo turno seria por votação indireta, no Congresso. E então, sem surpresas, tomamos conhecimento de uma nota do governo estadunidense dizendo que “a eleição de Evo era um risco grande para o país e não seria vista com bons olhos pela Casa Branca”. Resultado, um Congresso submisso elegeu o representante “abençoado” por Washington.
Em 2005, Evo voltou ainda com mais força e foi eleito já em primeiro turno, venceu com maioria absoluta, tornando-se o primeiro presidente de origem indígena. Assumiu o poder em 2006 como o primeiro mandatário boliviano a ser eleito em primeiro turno em mais de trinta anos. Aí está sua legitimidade, seu direito de governar sem que potências estrangeiras se intrometam ou ameacem. Por que nossos jornais não falam nisto?
Aí armam o golpe! Os prefeitos (equivalentes aos governadores brasileiros) das cinco províncias mais ricas do país - Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Cochabamba -, seguindo orientações dos propagandistas de Washington, criaram um tal Conselho Nacional da Democracia e passaram a montar atos políticos e manifestações públicas contrárias à Constituição que está sendo aprovada pelo povo boliviano. Os mesmos prefeitos que, em recente visita aos EUA, declararam-se “embaixadores da democracia” e qualificaram o presidente democraticamente eleito como “índio” e “comunista”, assegurando que vão continuar a fazer propaganda contra o governo federal.
A nossa imprensa, bem “adestrada” pelas matérias que já recebe prontas das agências governamentais estadunidenses, corre para estampar manchetes dizendo que existe uma disputa pela “autonomia” dessas províncias e que um plebiscito poderia decidir a independência da região mais rica do país. E neste momento, lendo as notícias que são passadas pela nossa imprensa tão “independente”, passamos a refletir e comparar.
Na Colômbia, quase a metade do território nacional está sob controle e governo das forças rebeldes e dos guerrilheiros, o povo local aceita e admira o governo popular. Em todo o território ocupado e controlado pela guerrilha prevalece uma outra administração voltada para o atendimento do bem público e do povo mais pobre. Lá as empresas internacionais não exploram as riquezas do solo nem a mão-de-obra barata. Mas a nossa imprensa teima em caracterizar as regiões libertas da Colômbia com “antro de terroristas”.
Lá em cima, bem no norte do nosso mapa, há anos um povo luta pela sua independência. A população de língua francesa do Canadá, a região do Quebec, já realizou plebiscitos e consultas populares em defesa da sua autonomia. Mas este desejo de liberdade sempre esbarra nos interesses estadunidenses que não gostariam de ver uma nova nação surgir em suas fronteiras. Particularmente uma nação nova e não submissa aos seus interesses. E a nossa imprensa vive elogiando o primeiro-ministro canadense – contrário à independência do Quebec – como um “grande estadista” preocupado com os problemas atuais.
Pois é. Dois exemplos... Apenas dois entre muitos que podemos citar. Mas a nossa imprensa está mesmo preocupada em defender uma divisão da Bolívia. Por que? Porque interessa aos “patrões”, não é?
Aí deparamos com a fotografia da página 22 do jornal O Globo (talvez em outros também, uma vez que a foto é distribuída pela agência AP), do dia 17 de dezembro. Nela vemos o “prefeito” de Santa Cruz comemorando seu ato político. O que devemos ver nesta foto? Em primeiro lugar, o excelente trabalho fotográfico ao escolher um ângulo propício (de baixo para cima) para mostrar que ele é “grande” e um verdadeiro “líder” com o punho levantado. Mas o principal que devemos ver nesta foto é quem está ao seu lado. Em um país onde mais de 70% da população é indígena, seu palanque é composto de brancos “puros”, arianos convictos, que não aceitam a liderança de um índio. Aliás, o próprio discurso do tal prefeito deixa isto claro: “Evo Morales quer ficar com o poder e ao lado da indiada...”. Pode ser mais claro?
Vale destacar, por fim, que a “nossa” imprensa está merecendo nota máxima do propagandista de Hitler. Goebels dizia que “uma mentira contada mil vezes vira verdade”. Vejam as duas matérias do jornal O Globo. No dia 16 e no dia 17... As fotografias estampam faixas com a mesma frase: “Já somos autônomos”. Ou seja, para nossa imprensa, a divisão da Bolívia já é fato consumado.
Quanto à luta na Colômbia ou os destinos do Quebec... Silêncio!
ou A Imprensa brasileira e a Bolívia!
(Ernesto Germano – dezembro de 2007)
“O que este índio está pensando da vida?” Esta é a frase mais ouvida entre a direita boliviana. Ainda não conformados com a derrota sofrida nas urnas, em 2005, tentam por todos os meios impedir que Evo Morales governe o país. Quando convém, fazem discursos enaltecendo a “democracia”. Mas não lembram a vergonha e o golpismo de 2002.
Naquele ano, Evo Morales surpreendeu a todos os analistas quando chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais em um país dominado pelos partidos tradicionais. Então, como manda a legislação local, o segundo turno seria por votação indireta, no Congresso. E então, sem surpresas, tomamos conhecimento de uma nota do governo estadunidense dizendo que “a eleição de Evo era um risco grande para o país e não seria vista com bons olhos pela Casa Branca”. Resultado, um Congresso submisso elegeu o representante “abençoado” por Washington.
Em 2005, Evo voltou ainda com mais força e foi eleito já em primeiro turno, venceu com maioria absoluta, tornando-se o primeiro presidente de origem indígena. Assumiu o poder em 2006 como o primeiro mandatário boliviano a ser eleito em primeiro turno em mais de trinta anos. Aí está sua legitimidade, seu direito de governar sem que potências estrangeiras se intrometam ou ameacem. Por que nossos jornais não falam nisto?
Aí armam o golpe! Os prefeitos (equivalentes aos governadores brasileiros) das cinco províncias mais ricas do país - Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Cochabamba -, seguindo orientações dos propagandistas de Washington, criaram um tal Conselho Nacional da Democracia e passaram a montar atos políticos e manifestações públicas contrárias à Constituição que está sendo aprovada pelo povo boliviano. Os mesmos prefeitos que, em recente visita aos EUA, declararam-se “embaixadores da democracia” e qualificaram o presidente democraticamente eleito como “índio” e “comunista”, assegurando que vão continuar a fazer propaganda contra o governo federal.
A nossa imprensa, bem “adestrada” pelas matérias que já recebe prontas das agências governamentais estadunidenses, corre para estampar manchetes dizendo que existe uma disputa pela “autonomia” dessas províncias e que um plebiscito poderia decidir a independência da região mais rica do país. E neste momento, lendo as notícias que são passadas pela nossa imprensa tão “independente”, passamos a refletir e comparar.
Na Colômbia, quase a metade do território nacional está sob controle e governo das forças rebeldes e dos guerrilheiros, o povo local aceita e admira o governo popular. Em todo o território ocupado e controlado pela guerrilha prevalece uma outra administração voltada para o atendimento do bem público e do povo mais pobre. Lá as empresas internacionais não exploram as riquezas do solo nem a mão-de-obra barata. Mas a nossa imprensa teima em caracterizar as regiões libertas da Colômbia com “antro de terroristas”.
Lá em cima, bem no norte do nosso mapa, há anos um povo luta pela sua independência. A população de língua francesa do Canadá, a região do Quebec, já realizou plebiscitos e consultas populares em defesa da sua autonomia. Mas este desejo de liberdade sempre esbarra nos interesses estadunidenses que não gostariam de ver uma nova nação surgir em suas fronteiras. Particularmente uma nação nova e não submissa aos seus interesses. E a nossa imprensa vive elogiando o primeiro-ministro canadense – contrário à independência do Quebec – como um “grande estadista” preocupado com os problemas atuais.
Pois é. Dois exemplos... Apenas dois entre muitos que podemos citar. Mas a nossa imprensa está mesmo preocupada em defender uma divisão da Bolívia. Por que? Porque interessa aos “patrões”, não é?
Aí deparamos com a fotografia da página 22 do jornal O Globo (talvez em outros também, uma vez que a foto é distribuída pela agência AP), do dia 17 de dezembro. Nela vemos o “prefeito” de Santa Cruz comemorando seu ato político. O que devemos ver nesta foto? Em primeiro lugar, o excelente trabalho fotográfico ao escolher um ângulo propício (de baixo para cima) para mostrar que ele é “grande” e um verdadeiro “líder” com o punho levantado. Mas o principal que devemos ver nesta foto é quem está ao seu lado. Em um país onde mais de 70% da população é indígena, seu palanque é composto de brancos “puros”, arianos convictos, que não aceitam a liderança de um índio. Aliás, o próprio discurso do tal prefeito deixa isto claro: “Evo Morales quer ficar com o poder e ao lado da indiada...”. Pode ser mais claro?
Vale destacar, por fim, que a “nossa” imprensa está merecendo nota máxima do propagandista de Hitler. Goebels dizia que “uma mentira contada mil vezes vira verdade”. Vejam as duas matérias do jornal O Globo. No dia 16 e no dia 17... As fotografias estampam faixas com a mesma frase: “Já somos autônomos”. Ou seja, para nossa imprensa, a divisão da Bolívia já é fato consumado.
Quanto à luta na Colômbia ou os destinos do Quebec... Silêncio!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Bons ventos sopram do Uruguai
O Uruguai foi o primeiro país da América Latina a reconhecer o casamento entre homossexuais. Apesar de não representar um modelo de visão de mundo revolucionária, o parlamento uruguaio oficializou a união entre seres humanos, independente das formalidades morais que este tema costuma evocar, dando os mesmos direitos que antes era "privilégio" ou conquista dos heterossexuais.
Claro que ainda faltam algumas barreiras. A primeira é a confirmação presidencial e a segunda é a intensa campanha conservadora liderada por... advinhem!? Foi a Instituição que dominou o mundo ocidental por mais de 500 anos; levou muita gente à fogueria por pensar diferente dela (pena de morte); invadiu o Oriente para matar muçulmanos; condena o uso de camisinha, mesmo numa África que morre em Aids (SIDA); o chefe político é o mesmo chefe religioso e nunca fora eleito pelo seu povo; o atual chefe desta Instituição é ultraconservador, simpático às idéias fascistas na juventude e mantenedor da linha paleolítica do rebanho que diz representar.
Que os ventos do sul cheguem em toda nossa América e tragam motivos para comemorarmos, pois razões para lamentarmos já temos há 500 anos.
Claro que ainda faltam algumas barreiras. A primeira é a confirmação presidencial e a segunda é a intensa campanha conservadora liderada por... advinhem!? Foi a Instituição que dominou o mundo ocidental por mais de 500 anos; levou muita gente à fogueria por pensar diferente dela (pena de morte); invadiu o Oriente para matar muçulmanos; condena o uso de camisinha, mesmo numa África que morre em Aids (SIDA); o chefe político é o mesmo chefe religioso e nunca fora eleito pelo seu povo; o atual chefe desta Instituição é ultraconservador, simpático às idéias fascistas na juventude e mantenedor da linha paleolítica do rebanho que diz representar.
Que os ventos do sul cheguem em toda nossa América e tragam motivos para comemorarmos, pois razões para lamentarmos já temos há 500 anos.
domingo, 9 de dezembro de 2007
Previsão do tempo
A frente fria que estacionou em Brasília em 1964 teve seu momento mais intenso em 1968, quando a mínima chegou ao AI 5°. Em 1985 a frente fria parecia que iria dissipar e o tempo esquentou significativamente.
Porém, mesmo em tempos de aquecimento global, quando todo o planeta sofre com o calor, o planalto central brasileiro voltou a esfriar, motivado pela canalhice de seus Deputados e Senadores, transformando em gélido, o clima do país.
A previsão do tempo para Brasília é de inverno longo e rigoroso por tempo indefinido, mas espera-se para breve que uma onda vermelha de calor tome o Congresso Nacional trazendo de volta o calor e a alegria de um povo que vive de esperança.
Porém, mesmo em tempos de aquecimento global, quando todo o planeta sofre com o calor, o planalto central brasileiro voltou a esfriar, motivado pela canalhice de seus Deputados e Senadores, transformando em gélido, o clima do país.
A previsão do tempo para Brasília é de inverno longo e rigoroso por tempo indefinido, mas espera-se para breve que uma onda vermelha de calor tome o Congresso Nacional trazendo de volta o calor e a alegria de um povo que vive de esperança.
sábado, 8 de dezembro de 2007
Sobre prostitutos e prostituições: O Senado amoral
Fazia um enorme calor na quarta-feira, enquanto vagava por Guapimirim e me surpreendia com cada armazém, com as casas de material de construção, com a única praça que expunha um papai Noel mecânico e epilético para as crianças que passavam sem admirá-lo.
A fim de gastar o tempo e almoço que ainda me incomodava, entrei numa barbearia, daquelas tradicionais, que se vê no subúrbio ou no interior, e esperei para ser atendido. Atento, ouvi uma conversa sobre a política local e me interessei. Um homem que cortava os cabelos, ao sentar já foi dizendo que seu cabelo era "ruim" num tom de brincadeira e o barbeiro, que lhe conhecia bem, puxou logo assunto sobre as eleições municipais do ano que vem.
O homem que desbastava sua já rala cabeleira, desandou a falar mal do prefeito e de seus assessores, que já estava desiludido com política e que havia cansado de tentar disputar uma vaga para vereador desta pequena cidade sem alcançar sucesso. Até tudo indo. Até que, estimulado pelo responsável por sua estética capilar, começou a denunciar, ainda que sem querer, a podridão ética que nos encontramos. Disse que o salário de um vereador em Guapimirim é muito bom R$ 2.400,00, sem contar os adicionais - que confesso não ter entendido se estão dentro ou fora da legalidade - e que era um absurdo um vereador como fulano ter passado dois mandatos (ou seja 8 anos) e "não ter feito um patrimônio para sua família"!? Sobre a conivência concordata do seu interlocutor barbeiro, estava deflagrado ali, aos pés do pico do Dedo de Deus, a total ausência de ética com a coisa pública que tanto nos acostumamos a ouvir. Dois homens simples, que julgam ser pouco mais de dois mil reais um bom salário, exortando o desvio de dinheiro público para fins pessoais, valorizando vereadores que enriqueceram em um mandato e construíram imóveis e negócios que o seus salários não construiriam nunca. Engraçado como ninguém quer ser vereador para cuidar do bem coletivo, qual será a razão que nos leva a colocar o dinheiro acima do bem estar social?
Brasília. Eis uma das múltiplas explicações. O que assistimos no Senado da República é de uma melancolia atroz. Esta semana Renan Calheiros foi mais uma vez inocentado, mas não sem antes cumprir sua parte do acordo, renunciar de uma vez por todas a presidência da Casa. E aí sim, os senhores "homens bons" da república cumpriram sua parte na farsa.
O parlamento brasileiro é uma grande casa de prostituição, com uma ressalva honrosa: as mulheres e homens que vendem seus corpos por dinheiro, vendem somente os corpos e não a alma.
A fim de gastar o tempo e almoço que ainda me incomodava, entrei numa barbearia, daquelas tradicionais, que se vê no subúrbio ou no interior, e esperei para ser atendido. Atento, ouvi uma conversa sobre a política local e me interessei. Um homem que cortava os cabelos, ao sentar já foi dizendo que seu cabelo era "ruim" num tom de brincadeira e o barbeiro, que lhe conhecia bem, puxou logo assunto sobre as eleições municipais do ano que vem.
O homem que desbastava sua já rala cabeleira, desandou a falar mal do prefeito e de seus assessores, que já estava desiludido com política e que havia cansado de tentar disputar uma vaga para vereador desta pequena cidade sem alcançar sucesso. Até tudo indo. Até que, estimulado pelo responsável por sua estética capilar, começou a denunciar, ainda que sem querer, a podridão ética que nos encontramos. Disse que o salário de um vereador em Guapimirim é muito bom R$ 2.400,00, sem contar os adicionais - que confesso não ter entendido se estão dentro ou fora da legalidade - e que era um absurdo um vereador como fulano ter passado dois mandatos (ou seja 8 anos) e "não ter feito um patrimônio para sua família"!? Sobre a conivência concordata do seu interlocutor barbeiro, estava deflagrado ali, aos pés do pico do Dedo de Deus, a total ausência de ética com a coisa pública que tanto nos acostumamos a ouvir. Dois homens simples, que julgam ser pouco mais de dois mil reais um bom salário, exortando o desvio de dinheiro público para fins pessoais, valorizando vereadores que enriqueceram em um mandato e construíram imóveis e negócios que o seus salários não construiriam nunca. Engraçado como ninguém quer ser vereador para cuidar do bem coletivo, qual será a razão que nos leva a colocar o dinheiro acima do bem estar social?
Brasília. Eis uma das múltiplas explicações. O que assistimos no Senado da República é de uma melancolia atroz. Esta semana Renan Calheiros foi mais uma vez inocentado, mas não sem antes cumprir sua parte do acordo, renunciar de uma vez por todas a presidência da Casa. E aí sim, os senhores "homens bons" da república cumpriram sua parte na farsa.
O parlamento brasileiro é uma grande casa de prostituição, com uma ressalva honrosa: as mulheres e homens que vendem seus corpos por dinheiro, vendem somente os corpos e não a alma.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
A vitória de Chávez!
A imprensa “amestrada” continua sem conseguir entender o que se passa na Venezuela e, mesmo sem querer, acaba fortalecendo o papel de Hugo Chávez no processo de mudanças que acontecem na América Latina. Nos dias seguintes ao plebiscito sobre a reforma constitucional, os nossos jornais estamparam manchetes ressaltando a vitória do “não” e a manutenção da atual Constituição.
Nas semanas que antecederam o dia 2 de dezembro, jornais brasileiros faziam matérias enaltecendo a preocupação da “oposição” em não permitir as alterações propostas por Chávez. E, até agora, não perceberam a esparrela em que acabaram caindo. Nossa imprensa, orientada por Washington, cai no mesmo erro já cometido por Bush e pela direita mais reacionária da Venezuela. Mostram a vitória do “não” como um avanço “democrático” sobre o possível ditador Chávez.
O que não perceberam? Por que, ao contrário do que dizem, esta foi uma vitória de Chávez?
A nossa imprensa parece ter esquecido a história recente e se confunde nos dados e análises. A vitória de Chávez acaba estampada nas entrelinhas das matérias e, para percebermos isto, basta fazer um breve retrospecto na história da Venezuela.
No dia 17 de novembro de 1999 era promulgada a atual Constituição da “República Bolivariana da Venezuela” que, em seu preâmbulo, dizia: “El pueblo de Venezuela, en ejercicio de sus poderes creadores e invocando la protección de Dios, el ejemplo histórico de nuestro Libertador Simón Bolívar y el heroísmo y sacrificio de nuestros antepasados aborígenes y de los precursores y forjadores de una patria libre y soberana”. Ou seja, a nova Constituição assegurava o bolivarianismo e o resgate da soberania e das participações populares, enquanto a Constituição anterior, de 1961, era autoritária e excluía o povo de qualquer tipo de participação política ou social. É nesta Carta que Chávez assume o caráter revolucionário do seu governo e define o país como “República Bolivariana”.
Em 2001, dando continuidade às reformas constitucionais, Chávez apresenta os 48 projetos de leis que levam a reestruturação do sistema produtivo venezuelano, concretiza as transformações sociais e as mudanças econômicas mais profundas. Nasce neste momento a Lei da Terra (reforma agrária) e a Lei dos Hidrocarburos (nacionalização do petróleo e reforma da empresa petrolífera). Cria os “Círculos Bolivarianos”, espaços de participação e organização popular.
E foram estas mudanças que causaram profundo abalo na direita do país. A ponto de montarem um golpe de Estado, em abril de 2002, tentando retirar pela força um presidente legalmente eleito. O golpe falhou devido à participação popular e Chávez é reconduzido ao Palácio Miraflores. Mas a direita continua conspirando contra a Constituição de 1999 e monta a nova farsa: uma greve geral, em 2003, convocada por uma central sindical de fachada! Também são derrotados e retornam aos seus gabinetes refrigerados onde continuam a conspirar.
O curioso é que, nas duas ocasiões golpistas, uma das principais bandeiras da direita venezuelana era o “não reconhecimento da Constituição Bolivariana” e o retorno à Constituição de 1961.
Durante mais de seis anos, a direita criticou, combateu e procurou desconhecer a Constituição Bolivariana. E agora, sem perceberem da armadilha, se transformaram em legítimos defensores e fiéis depositários da legalidade Constitucional. Por mais de dois meses, financiados com dólares enviados por Bush, foram para as ruas defendendo a Constituição Bolivariana. A mesma que renegavam há pouco tempo.
Nas semanas que antecederam o dia 2 de dezembro, jornais brasileiros faziam matérias enaltecendo a preocupação da “oposição” em não permitir as alterações propostas por Chávez. E, até agora, não perceberam a esparrela em que acabaram caindo. Nossa imprensa, orientada por Washington, cai no mesmo erro já cometido por Bush e pela direita mais reacionária da Venezuela. Mostram a vitória do “não” como um avanço “democrático” sobre o possível ditador Chávez.
O que não perceberam? Por que, ao contrário do que dizem, esta foi uma vitória de Chávez?
A nossa imprensa parece ter esquecido a história recente e se confunde nos dados e análises. A vitória de Chávez acaba estampada nas entrelinhas das matérias e, para percebermos isto, basta fazer um breve retrospecto na história da Venezuela.
No dia 17 de novembro de 1999 era promulgada a atual Constituição da “República Bolivariana da Venezuela” que, em seu preâmbulo, dizia: “El pueblo de Venezuela, en ejercicio de sus poderes creadores e invocando la protección de Dios, el ejemplo histórico de nuestro Libertador Simón Bolívar y el heroísmo y sacrificio de nuestros antepasados aborígenes y de los precursores y forjadores de una patria libre y soberana”. Ou seja, a nova Constituição assegurava o bolivarianismo e o resgate da soberania e das participações populares, enquanto a Constituição anterior, de 1961, era autoritária e excluía o povo de qualquer tipo de participação política ou social. É nesta Carta que Chávez assume o caráter revolucionário do seu governo e define o país como “República Bolivariana”.
Em 2001, dando continuidade às reformas constitucionais, Chávez apresenta os 48 projetos de leis que levam a reestruturação do sistema produtivo venezuelano, concretiza as transformações sociais e as mudanças econômicas mais profundas. Nasce neste momento a Lei da Terra (reforma agrária) e a Lei dos Hidrocarburos (nacionalização do petróleo e reforma da empresa petrolífera). Cria os “Círculos Bolivarianos”, espaços de participação e organização popular.
E foram estas mudanças que causaram profundo abalo na direita do país. A ponto de montarem um golpe de Estado, em abril de 2002, tentando retirar pela força um presidente legalmente eleito. O golpe falhou devido à participação popular e Chávez é reconduzido ao Palácio Miraflores. Mas a direita continua conspirando contra a Constituição de 1999 e monta a nova farsa: uma greve geral, em 2003, convocada por uma central sindical de fachada! Também são derrotados e retornam aos seus gabinetes refrigerados onde continuam a conspirar.
O curioso é que, nas duas ocasiões golpistas, uma das principais bandeiras da direita venezuelana era o “não reconhecimento da Constituição Bolivariana” e o retorno à Constituição de 1961.
Durante mais de seis anos, a direita criticou, combateu e procurou desconhecer a Constituição Bolivariana. E agora, sem perceberem da armadilha, se transformaram em legítimos defensores e fiéis depositários da legalidade Constitucional. Por mais de dois meses, financiados com dólares enviados por Bush, foram para as ruas defendendo a Constituição Bolivariana. A mesma que renegavam há pouco tempo.
(Ernesto Germano – dezembro de 2007)
domingo, 2 de dezembro de 2007
Provocações justificadas
Sujou a mão com dinheiro da máfia russa na quinta-feira.
Montou um grande time-lavanderia na sexta-feira.
Foi campeão no sábado.
Viveu a ressaca da descoberta das falcatruas no Domingo.
Caiu na segunda.
Montou um grande time-lavanderia na sexta-feira.
Foi campeão no sábado.
Viveu a ressaca da descoberta das falcatruas no Domingo.
Caiu na segunda.
Salve o compositor popular! Salve o samba!
Hoje é o dia nacional do Samba. Mistura afro-brasileira que molda nossa identidade, já foi duramente perseguido "nas escolas, nos botequins e nos terreiros", por ser de origem negra, genuína cultura popular.
O samba já ultrapassou o debate quase maniqueísta se era do morro ou do asfalto, até que Noel Rosa versou: "... o samba, na realidade, não vem do morro nem lá da cidade, e quem suportar uma paixão, saberá que o samba então, vem do coração".
O samba já foi instrumento político nas mãos totalitárias de Getúlio Vargas, que usou o samba como exaltação de um Brasil que ele dizia representar.
O samba já foi desqualificado nas rádios, nos auditórios, nos salões de festas.
O samba já foi geneticamente transformado em "pagode", servindo aos interesses vis das gravadoras e transformando em celebridade gente que não queria nada além do que ganhar notoriedade.
O samba é uma militância por ser resistência desde os quilombolas até os becos e favelas.
O samba já ultrapassou o debate quase maniqueísta se era do morro ou do asfalto, até que Noel Rosa versou: "... o samba, na realidade, não vem do morro nem lá da cidade, e quem suportar uma paixão, saberá que o samba então, vem do coração".
O samba já foi instrumento político nas mãos totalitárias de Getúlio Vargas, que usou o samba como exaltação de um Brasil que ele dizia representar.
O samba já foi desqualificado nas rádios, nos auditórios, nos salões de festas.
O samba já foi geneticamente transformado em "pagode", servindo aos interesses vis das gravadoras e transformando em celebridade gente que não queria nada além do que ganhar notoriedade.
O samba é uma militância por ser resistência desde os quilombolas até os becos e favelas.
"samba
agoniza mas não morre
alguém sempre te socorre
antes do suspiro derradeiro".
sábado, 1 de dezembro de 2007
Uma boa dica à sensibilidade
Vale conferir no sítio www.festivaldominuto.com.br o vídeo de 10 segundos de Vinicius da Silva Oliveira. Na opção "busca" pode se procurar pelo nome do diretor ou pelo nome do filme "Lembranças". Atente para o fato da duração e a legenda dada pelo autor.
Parabéns Vinicius!
Parabéns Vinicius!
domingo, 25 de novembro de 2007
A UFRJ e a América Latina
Hoje, dia 25 de Novembro de 2007, foi o último dia de provas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consequentemente a prova específica de história.
Este sítio vem lembrar o inevitável: a nossa América vem ganhando aos poucos o espaço que merece na história recente de nossa redescoberta. Surgiram em nossa parte continental lutas, revoluções, golpes, que marcaram personagens e acontecimentos que hoje colhemos seus frutos. Obrigado Allende, Che, Fidel, José Martí, Bolívar, EZLN do México, MIR chileno e tantos outros que impunharam a bandeira do inconformismo e plantaram a semente que germina na forma de Venezuela, Bolívia, Equador... e quem mais ousar.
Das 7 questões discursivas da UFRJ, duas foram sobre nossa América, sendo quatro no total, pois se dividiram em letras a) e b). É a Universidade reconhecendo o papel político e econômico de nossa pátria americana. São as vozes da América ecoando.
Este sítio vem lembrar o inevitável: a nossa América vem ganhando aos poucos o espaço que merece na história recente de nossa redescoberta. Surgiram em nossa parte continental lutas, revoluções, golpes, que marcaram personagens e acontecimentos que hoje colhemos seus frutos. Obrigado Allende, Che, Fidel, José Martí, Bolívar, EZLN do México, MIR chileno e tantos outros que impunharam a bandeira do inconformismo e plantaram a semente que germina na forma de Venezuela, Bolívia, Equador... e quem mais ousar.
Das 7 questões discursivas da UFRJ, duas foram sobre nossa América, sendo quatro no total, pois se dividiram em letras a) e b). É a Universidade reconhecendo o papel político e econômico de nossa pátria americana. São as vozes da América ecoando.
¿Por qué no te callas?
Na semana retrasada aconteceu no Chile a Décima Sétima Cúpula Ibero-americana. Na capital, Santiago, Chefes de Estado e de governo de 22 países de língua portuguesa e espanhola da América Latina e da Europa se reuniram de 08 a 11 de novembro, para debater políticas sociais que tornem as sociedades ibero-americanas mais justas e inclusivas. Esse era o foco da 17ª Cúpula Ibero-americana, que teve como tema neste ano Coesão Social.
Tudo corria de forma protocolar, burocrática, como os ministros e assessores haviam combinado antes dos seus chefes entrarem em cena para as fotografias. Faltavam apenas os discursos, as colocações políticas, as defesas ideológicas e a exposição de interesses econômicos, como também é praxe em encontros como este.
Até que os microfones foram abertos para o venezuelano Hugo Chávez, que fez um breve elogio ao Primeiro Ministro espanhol José Luís Zapatero e duras críticas ao ex-presidente da Espanha, José Maria Aznar. O presidente da Venezuela chamou Aznar de “verdadeiro fascista” por ter apoiado a invasão dos EUA ao Iraque e ter mandado soldados espanhóis para ajudar a impor a cultura ocidental no Oriente.
Foi aí que o rei(?) Juan Carlos (?) interrompeu o debate entre Chávez e Zapatero, perguntando de forma inquisidora a razão de o Chefe de Estado da Venezuela não se calar. A "majestade", que nunca fora eleita para nada por seu povo, se levantou e foi embora, deixando um clima tenso no ar, que as empresas de comunicação de massa do Brasil aproveitaram para escancarar em críticas sobre a postura de Chávez. Há uma semana se explora a suposta impetuosidade do venezuelano, tentando relacioná-lo a um ditador, atrelando o debate daquela Cúpula a um “presidentezinho terceiromundista”, que não está à altura dos grandes chefes de Estado do mundo e que muito envergonha a América Latina, blá, blá, blá.
Vossa Majestade, rei (?) Juan Carlos (?), sou um plebeu cearense, que nunca será chamado por nenhuma cúpula Ibero-americana para se posicionar. Mas minha latinidade resolveu responder a pergunta que Chávez não ouviu ou não quis responder:
Não nos calamos por que nunca foi de nossa índole a passividade, nem quando seu país era um Império em nossa América, saqueando nossas riquezas num tempo tenebroso para todos nós americanos e quando a Espanha de fato era uma monarquia tirana, diferente de hoje que o bobo da corte tira onda de rei e acha que pode vir em nossa América e tentar reviver o século XVI, mandando nossas lideranças indígenas arrefecer seus ânimos, com o ferro de sua coroa e o fogo de sua Igreja. E ainda assim, rei(?), eles não se calaram.
Não nos calamos,” majestade”, em nome dos 6 milhões de índios que vocês dizimaram na sanha alucinada por ouro e prata que moveu seu país na nossa América e hoje se move junto aos EUA ao Iraque, para atuar como lacaios dos novos imperialistas e ver se sobra um quinhão do ouro negro que banha aquelas costas.
Não nos calamos, ó figura decorativa, em respeito aos heróis que nunca se calaram como Tupac Amaru, José Martí, Morelos, Hidalgo, Che e tantos outros que cometo a injustiça de não relacionar, mas que você, suponho, já ouviu ao menos falar.
Não nos calamos, ó bibelô de Palácio, pois não nos conformamos com um mundo de dominadores e dominados e, portanto, repudiamos o triste papel que a Espanha cumpre no “novo” cenário mundial.
Não nos calamos, ó parasita do dinheiro público espanhol, por correr em nossas veias a dignidade que vocês nunca tiveram ao pisar no que vocês ousaram em chamar de “novo mundo” e ao fincarem suas patas fétidas por 330 anos em nossa casa cometeram além do maior genocídio que se tem registro na história, um estupro religioso que impôs a nossa cultura politeísta seus valores monoteístas-monolíticos-cristãos, os mesmos que querem impor agora vocês, os novos Cruzados, no Oriente Médio.
Não nos calamos pois não nos rendemos, ainda que tudo conspire à favor dos tiranos.
Aos que leram esse artigo, um abraço bolivariano e a esperança de ver nossa América livre, independente e latina, expurgando de vez um dia, os reis e rainhas da velha ou da nova nobreza, que insistem em nos oprimir.
Tudo corria de forma protocolar, burocrática, como os ministros e assessores haviam combinado antes dos seus chefes entrarem em cena para as fotografias. Faltavam apenas os discursos, as colocações políticas, as defesas ideológicas e a exposição de interesses econômicos, como também é praxe em encontros como este.
Até que os microfones foram abertos para o venezuelano Hugo Chávez, que fez um breve elogio ao Primeiro Ministro espanhol José Luís Zapatero e duras críticas ao ex-presidente da Espanha, José Maria Aznar. O presidente da Venezuela chamou Aznar de “verdadeiro fascista” por ter apoiado a invasão dos EUA ao Iraque e ter mandado soldados espanhóis para ajudar a impor a cultura ocidental no Oriente.
Foi aí que o rei(?) Juan Carlos (?) interrompeu o debate entre Chávez e Zapatero, perguntando de forma inquisidora a razão de o Chefe de Estado da Venezuela não se calar. A "majestade", que nunca fora eleita para nada por seu povo, se levantou e foi embora, deixando um clima tenso no ar, que as empresas de comunicação de massa do Brasil aproveitaram para escancarar em críticas sobre a postura de Chávez. Há uma semana se explora a suposta impetuosidade do venezuelano, tentando relacioná-lo a um ditador, atrelando o debate daquela Cúpula a um “presidentezinho terceiromundista”, que não está à altura dos grandes chefes de Estado do mundo e que muito envergonha a América Latina, blá, blá, blá.
Vossa Majestade, rei (?) Juan Carlos (?), sou um plebeu cearense, que nunca será chamado por nenhuma cúpula Ibero-americana para se posicionar. Mas minha latinidade resolveu responder a pergunta que Chávez não ouviu ou não quis responder:
Não nos calamos por que nunca foi de nossa índole a passividade, nem quando seu país era um Império em nossa América, saqueando nossas riquezas num tempo tenebroso para todos nós americanos e quando a Espanha de fato era uma monarquia tirana, diferente de hoje que o bobo da corte tira onda de rei e acha que pode vir em nossa América e tentar reviver o século XVI, mandando nossas lideranças indígenas arrefecer seus ânimos, com o ferro de sua coroa e o fogo de sua Igreja. E ainda assim, rei(?), eles não se calaram.
Não nos calamos,” majestade”, em nome dos 6 milhões de índios que vocês dizimaram na sanha alucinada por ouro e prata que moveu seu país na nossa América e hoje se move junto aos EUA ao Iraque, para atuar como lacaios dos novos imperialistas e ver se sobra um quinhão do ouro negro que banha aquelas costas.
Não nos calamos, ó figura decorativa, em respeito aos heróis que nunca se calaram como Tupac Amaru, José Martí, Morelos, Hidalgo, Che e tantos outros que cometo a injustiça de não relacionar, mas que você, suponho, já ouviu ao menos falar.
Não nos calamos, ó bibelô de Palácio, pois não nos conformamos com um mundo de dominadores e dominados e, portanto, repudiamos o triste papel que a Espanha cumpre no “novo” cenário mundial.
Não nos calamos, ó parasita do dinheiro público espanhol, por correr em nossas veias a dignidade que vocês nunca tiveram ao pisar no que vocês ousaram em chamar de “novo mundo” e ao fincarem suas patas fétidas por 330 anos em nossa casa cometeram além do maior genocídio que se tem registro na história, um estupro religioso que impôs a nossa cultura politeísta seus valores monoteístas-monolíticos-cristãos, os mesmos que querem impor agora vocês, os novos Cruzados, no Oriente Médio.
Não nos calamos pois não nos rendemos, ainda que tudo conspire à favor dos tiranos.
Aos que leram esse artigo, um abraço bolivariano e a esperança de ver nossa América livre, independente e latina, expurgando de vez um dia, os reis e rainhas da velha ou da nova nobreza, que insistem em nos oprimir.
domingo, 18 de novembro de 2007
Patético I
Os países do Mercosul (Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina) convidaram outros países do continente sul americano para fazer parte do bloco. Foi assim com o Chile e também com a Venezuela.
Para que os países convidados sejam efetivados, quem vota contra ou a favor, é o parlamento dos países membros do Mercosul e aí começa o problema. Os deputados brasileiros estavam demorando demais para aceitar a Venezuela, quando o Presidente Hugo Chavéz revelou aquilo que todos sabem, mas poucos gostam de ouvir, "o parlamento brasileiro é marionete dos interesses dos EUA, por isto, hesitam em aceitar a Venezuela como membro do Mercosul". Pronto, fez-se a discórdia. Respostas oficiais de um lado, contra resposta do outro, muita bobagem na imprensa (vendida aos EUA) no Brasil, algumas capas da Veja, Época, e aberrações do gênero.
Até que, o crédulo parlamento brasileiro, escolheu para ser o relator do parecer sobre a Venezuela, o representante máximo de sua credibilidade, o incontestável, ilibado, honestíssimo... Deputado Paulo Salim MALUF!? Isto mesmo, o velho Maluf, aquele que teve contas (no plural por favor) descobertas no exterior e que não condizem com seus rendimentos, aquele que responde a processos por lavagem de dinheiro e evasão de divisas no exterior, mas que no Brasil é tratado por Vossa Excelência.
O patético foi ver o deputado Maluf, dizer que Hugo Chavéz é um "ditador", que " o presidente da Venezuela não merece o cargo que ocupa", que "é um mal a ser combatido" e ...
Bem, primeiro que de ditadura, devo admitir, o Maluf entende, pois foi prefeito biônico de São Paulo e governador biônico do Estado de São Paulo nos tenebrosos tempos da ditadura militar. Serviu como um bom lacaio aos ditadores e fez fortuna nesse tempo, daí não poder esclarecer a origem suja de seu dinheiro. Foi ele, quando prefeito pela ARENA partido dos militares golpistas, quem presenteou cada jogador brasileiro campeão da copa do mundo de 1970 no México, com um fusca, mas com dinheiro público claro.
E, assim, depois de dizer o que quis do presidente da Venezuela com o silêncio complacente dos meios de comunicação de massa do Brasil, terminou seu relatório dizendo que aceita a Venezuela no Mercosul. Estranho? Não, petróleo.
Para que os países convidados sejam efetivados, quem vota contra ou a favor, é o parlamento dos países membros do Mercosul e aí começa o problema. Os deputados brasileiros estavam demorando demais para aceitar a Venezuela, quando o Presidente Hugo Chavéz revelou aquilo que todos sabem, mas poucos gostam de ouvir, "o parlamento brasileiro é marionete dos interesses dos EUA, por isto, hesitam em aceitar a Venezuela como membro do Mercosul". Pronto, fez-se a discórdia. Respostas oficiais de um lado, contra resposta do outro, muita bobagem na imprensa (vendida aos EUA) no Brasil, algumas capas da Veja, Época, e aberrações do gênero.
Até que, o crédulo parlamento brasileiro, escolheu para ser o relator do parecer sobre a Venezuela, o representante máximo de sua credibilidade, o incontestável, ilibado, honestíssimo... Deputado Paulo Salim MALUF!? Isto mesmo, o velho Maluf, aquele que teve contas (no plural por favor) descobertas no exterior e que não condizem com seus rendimentos, aquele que responde a processos por lavagem de dinheiro e evasão de divisas no exterior, mas que no Brasil é tratado por Vossa Excelência.
O patético foi ver o deputado Maluf, dizer que Hugo Chavéz é um "ditador", que " o presidente da Venezuela não merece o cargo que ocupa", que "é um mal a ser combatido" e ...
Bem, primeiro que de ditadura, devo admitir, o Maluf entende, pois foi prefeito biônico de São Paulo e governador biônico do Estado de São Paulo nos tenebrosos tempos da ditadura militar. Serviu como um bom lacaio aos ditadores e fez fortuna nesse tempo, daí não poder esclarecer a origem suja de seu dinheiro. Foi ele, quando prefeito pela ARENA partido dos militares golpistas, quem presenteou cada jogador brasileiro campeão da copa do mundo de 1970 no México, com um fusca, mas com dinheiro público claro.
E, assim, depois de dizer o que quis do presidente da Venezuela com o silêncio complacente dos meios de comunicação de massa do Brasil, terminou seu relatório dizendo que aceita a Venezuela no Mercosul. Estranho? Não, petróleo.
Patético - II
Quem está atento as propagandas na televisão dessa última semana, viu a deprimente reaparição de Roberto Jefferson (PTB-RJ).
Não bastasse o ridículo de ver um ladrão do colarinho branco, réu confesso, solto pelas ruas e invadindo nossas casas sem a menor cerimônia, depois de assumir ter recebido propina de dinheiro público, conhecido como "mensalão" e nada ter sido feito na área criminal contra este "cidadão" (sim, cidadão, pois se fosse pobre, negro, nordestino e tivesse roubado um banco ou uma carteira, já tinha levado porrada, apareceria na mesma televisão nos programas sensacionalistas que gostam de humilhar pessoas ao vivo com truculência jornalística e estaria justificando o discurso de pena de morte nas vozes ofegantes e vingativas de uma classe média sem rumo), o ex-deputado, aliado de sempre do ex-presidente Collor (sem comentários por enquanto), ex-membro da base aliada de FHC, ex- aliado de Lula, vem a público para defender a invasão dos EUA ao Iraque e propor, nas entrelinhas, que o Brasil deveria fazer o mesmo para garantir seus interesses na Bolívia???!!!
Ao se pronunciar no programa eleitoral de seu partido, afirmou: "Bu$h e Blair invadiram o Iraque para assegurar o petróleo para seus povos. A Bolívia quebrou o contrato com a Petrobrás e o governo brasileiro nada fez para impedir a ação do Presidente Morales. O Brasil precisa de um governo forte..."
Oportunista, faz apologia a uma guerra contra nossos vizinhos bolivianos, que sofreram como nós uma invasão ibérica por mais de 4 séculos. Perderam quase tudo, menos o gás e a dignidade. Hoje resistem e tentam fazer de suas riquezas, alavancas, para um crescimento econômico que só chegou no século XXI, quando um novo índio, voltou ao poder, como antes de Colombo, e tentam reescrever a história na esperança de recuperar os 516 anos perdidos.
Não bastasse o ridículo de ver um ladrão do colarinho branco, réu confesso, solto pelas ruas e invadindo nossas casas sem a menor cerimônia, depois de assumir ter recebido propina de dinheiro público, conhecido como "mensalão" e nada ter sido feito na área criminal contra este "cidadão" (sim, cidadão, pois se fosse pobre, negro, nordestino e tivesse roubado um banco ou uma carteira, já tinha levado porrada, apareceria na mesma televisão nos programas sensacionalistas que gostam de humilhar pessoas ao vivo com truculência jornalística e estaria justificando o discurso de pena de morte nas vozes ofegantes e vingativas de uma classe média sem rumo), o ex-deputado, aliado de sempre do ex-presidente Collor (sem comentários por enquanto), ex-membro da base aliada de FHC, ex- aliado de Lula, vem a público para defender a invasão dos EUA ao Iraque e propor, nas entrelinhas, que o Brasil deveria fazer o mesmo para garantir seus interesses na Bolívia???!!!
Ao se pronunciar no programa eleitoral de seu partido, afirmou: "Bu$h e Blair invadiram o Iraque para assegurar o petróleo para seus povos. A Bolívia quebrou o contrato com a Petrobrás e o governo brasileiro nada fez para impedir a ação do Presidente Morales. O Brasil precisa de um governo forte..."
Oportunista, faz apologia a uma guerra contra nossos vizinhos bolivianos, que sofreram como nós uma invasão ibérica por mais de 4 séculos. Perderam quase tudo, menos o gás e a dignidade. Hoje resistem e tentam fazer de suas riquezas, alavancas, para um crescimento econômico que só chegou no século XXI, quando um novo índio, voltou ao poder, como antes de Colombo, e tentam reescrever a história na esperança de recuperar os 516 anos perdidos.
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